O selinho do bispo.

Idade é coisa bela. São belas as rugas, que contam histórias. São belos os fios brancos, que preenchem a cabeça de detalhes vividos, alegrias e lutas. É lindo ver um idoso sorrindo, trazendo luz pra todas as conquistas e percalços, pra todas as perdas e desejos ainda a viver.

Cada passo dado hoje é uma vitória. Cada carinho de neto, filho, bisneto é um regalo de Deus. Difícil ver que essa quase criança já foi um dia enérgica, decidida e até intempestiva. Difícil ver que, por baixo da pele enrugada, da fragilidade dos ossos, da fala comedida está a mesma pessoa que te carregou no colo, te corrigiu as falhas e te deu o melhor que poderia ser dado, em cada momento.

Está aquele que prescindiu dos sonhos, sonhou por você e ainda te ajudou a realizar. Aquele que errou muito, tentando acertar. Errou mais ainda por não reconhecer, mas não é diferente de você nisso. Afinal, errar é pré-requisito de viver. E viver nada mais é que tentar driblar os erros, pra acertar de vez em quando.

Se você está hoje diante da sua avó, mãe, pai, um vizinho ou amigo que tem essas lindas rugas, dê a eles um pouco de acerto. O único que eles realmente precisam a essa altura do campeonato: compreensão. Compreensão leva à compaixão, que leva ao afeto, que chega ao carinho, que é igual a atenção. Atenção às coisas boas que ele (ou ela) ainda pode fazer. Aos acertos que eles ainda cometem e não ao que nos lembra que eles são, como nós, falhos.

O que o ser humano faz de melhor é apontar o dedo. Não aponte o dedo, ofereça a mão. Pra atravessar, pra caminhar, pra comer, pra ter lazer, pra ter vida...

Comecei esse texto pelo título e quase não chego nele. Pensando em idosos, me lembrei de dois bispos eméritos que conheci: um ainda celebra, diariamente, numa paróquia em Itapecerica. O outro já faleceu. O primeiro fala devagar e precisa de apoio em alguns momentos, durante a missa. Celebra sentado e é reverenciado por todos, pela persistência e por sua história de vida. Ama as crianças, a música e emociona pela simplicidade.

O segundo era escritor, músico, intelectual e muito talentoso. Ficamos amigos. Um dia, fui visita-lo e, na despedida, fui surpreendida por um selinho. Carismático, ele sorriu e pediu segredo, de forma tão natural, que mantive. Está mantido.  

Guiomar é jornalista e locutora do Vozes de Minas: www.vozesdeminas.com.br/guiomarcastro

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