Sabor de ir embora.

Um cheiro intenso de tinta, um cachorro manso e companheiro, um pé de jaca e peixe feito com creme de leite. Lembranças fortes da casa de uma tia mais forte ainda. Um exemplo de mulher, pela doçura constante, apesar dos inúmeros percalços na vida. Viúva precocemente com 7 filhos, alguns muito pequenos e uma ainda no ventre.

Os criou sozinha, sem nunca se casar novamente ou mesmo namorar. Nos últimos anos, perdeu duas filhas. Sempre com a dignidade de quem fez tudo e mais um pouco pelos seus. Morreu ontem, aos 94 anos, deixando 14 netos, 12 bisnetos e mais dois a caminho.

Costureira caprichosa, usava os retalhos doados pelas clientes para vestir os filhos com roupas criativas e coloridas. A doçura sempre ali, na fala, nos gestos e até nos pensamentos. Nunca falava mal de alguém e nunca vi falarem mal dela. Creio que o que damos, recebemos. E ela deu muito.

Desde criança, gostei de viajar e interagir com as pessoas, principalmente as que demonstravam carinho. Com sete anos já ia pra casa dela, passar férias, sozinha. Alguém me levava e me buscava. Os primos, sempre queridos, me tratavam como irmã. A mais velha, como filha: educando e chamando a atenção quando necessário.

Uma outra família que sempre tive, até quando fui morar perto deles, já adulta e com dois filhos. Parecia que não tinham se passado mais de 30 anos. O mesmo carinho, a mesma acolhida, o mesmo amor. E essa tia nem tinha meu sangue. O marido, que conheço apenas pelas escassas fotos, é que era irmão de minha mãe. Isso comprova que os laços nem sempre seguem a genética. Esta grita sim, quando mais precisamos. Mas não é o que nos afaga a alma. 

Tia Bitinha sempre será aquele colo inesperado e macio. Aquela voz suave que, até para mostrar o que não é bom, inspira a ser bom. Aquela porta que se abre quando você precisa ou quando apenas quer se sentir em casa.

Hoje o sabor não é de jaca, é de amora. De amor que foi embora. De infância bem vivida, de vida bem vivida. De vida. Não de morte. Esta é apenas uma porta pra outro plano. O plano de Deus. Vá com Ele, tia querida!

 

Guiomar é jornalista e locutora do Vozes de Minas: www.vozesdeminas.com.br/guiomarcastro

 

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