Credibilidade, relevância e estratégias de sobrevivência para o jornalismo

A queda de confiança dos públicos é uma das maiores questões enfrentadas atualmente pelo jornalismo em diversos países. Nos Estados Unidos, por exemplo, foi de 34% a porcentagem daqueles que confiavam pouco ou nada na mídia, em 2015, para 39% em 2019, de acordo com dados do Instituto Gallup. O problema é grave, visto que o jornalismo trabalha (ou deveria) basicamente para informar a população sobre aquilo que acontece de mais relevante dentro de sua área de cobertura, ajudando a organizar a vida em sociedade e a fiscalizar os poderes das demais instituições.

Mas o jornalismo também tem feito a sua parte para aumentar essa descrença. Não são raros os casos de notícias publicadas sem que as informações tenham sido verificadas, assim como é comum ver discursos racistas, xenofóbicos ou declarações mentirosas de governantes serem reproduzidos acriticamente. Sem falar na repetição de fórmulas que nada contribuem para a mudança social, como foi o caso da cobertura da grande mídia norte-americana sobre os assassinatos em massa nos Estados Unidos.

No cenário de crise de credibilidade, talvez seja importante nos perguntarmos, afinal, para que serve o jornalismo. Ou melhor: qual tipo de jornalismo importa, e como as organizações jornalísticas podem ser mais democráticas e acessíveis. Harry Backlund, do laboratório de jornalismo City Bureau, tentou responder a essa questão promovendo encontros entre jornalistas locais (de Chicago), e eles concluíram que muitos recursos jornalísticos são destinados para servir as necessidades de uma minoria confortável.

Mais uma demanda importante identificada pela pesquisa foi o jornalismo comunitário, ou seja, aquele produzido em conjunto com as populações menos favorecidas. Essa necessidade de descentralização da notícia também remete a uma presença mais efetiva e menos oportunista do jornalismo na comunidade. Isso também pode ajudar a compreender como melhorar o engajamento e a participação dos públicos – já que as pessoas tendem a participar mais nas mídias em que já se sentem representadas. Em outro estudo, desta vez ouvindo representantes de mídias, Mônica Guzmán (2016) chega a conclusão similar: a credibilidade se constrói quando o público sabe que o trabalho jornalístico está criando algo de valor para a comunidade. E quando essas informações são publicadas em estilo e linguagem que soem familiares.

Só assim é possível melhorar o engajamento dos públicos, fundamental para garantir a sobrevivência jornalística em um cenário no qual não se pode mais contar apenas com receitas publicitárias para financiar a produção de notícias. Bons exemplos, como o The Intercept Brasil, atestam a correlação entre confiança e sustentabilidade, como observa a pesquisadora Tânia Gusti. E, além disso, uma conexão mais profunda com as necessidades informativas dos públicos evita que organizações jornalísticas usem seus já escassos recursos de um jeito errado.

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