Fake News e a cidadania virtual.

 

Entre o fim de 2017 e início de 18, explodiu no Reddit, uma gigantesca comunidade online de geeks, um canal voltado para filmetes pornográficos forjados. Foi por aquele tempo que surgiram na internet alguns programinhas muito simples de usar que permitiam substituir o rosto de qualquer um num vídeo. Deepfakes , foram imediatamente apelidados: falsificações profundas. Tecnicamente preparada, sempre antenadíssima, a turma que frequenta o site foi justamente aquela que saiu experimentando. Com alta presença de adolescentes e jovens adultos, em sua maioria homens, não podia ter outro objetivo o experimento que não encaixar o rosto de atrizes famosas onde antes estavam atrizes pornográficas. Competiram por dois ou três meses arduamente para ver quem fazia o filme mais perfeito. Foi uma explosão, foi um choque, e durou pouco. O comando do Reddit proibiu deepfakes , e na sequência os maiores sites pornográficos o fizeram também. Era demais. Criou-se um tabu.

É inevitável: para construir um bom vídeo falso, um que pareça real, mas tenha sido criado num computador usando algoritmos de inteligência artificial, é preciso antes muitas imagens do rosto que será transplantado. Quanto mais expressões faciais, mais realista será o resultado. E há, na sociedade, dois conjuntos de pessoas cujas imagens são fartamente distribuídas. Atores e políticos. Ninguém aparece mais na televisão ou é tão fotografado. A diferença é que um vídeo falso com um ator e uma atriz pode ser um desastre pessoal, uma derrubada de carreira. Com um político, pode mudar o destino de uma eleição — e, assim, o de uma nação.O tempo das fake news está apenas começando. Hoje o mais comum são histórias falsas em que apenas aqueles apaixonadamente dedicados a um dos campos ideológicos acreditam, por confirmar suas teses. Com o aumento da proeminência de vídeos falsos, a situação poderá se agravar. Fotografias já podem ser forjadas há muito. Com vídeos, principalmente num tempo em que os vemos na pequena tela de um celular onde incongruências são mais difíceis de notar, o fenômeno ainda é novo. E, pior, recebido por boa parte do público com estupefação e ceticismo. Estamos acostumados a acreditar no que os olhos veem. “Como assim é falso? Eu mesmo vi.”Pois é falso. E muitos serão falsos. Não só isso como, conforme o público se acostume com a ideia de que é possível fazer um vídeo com qualquer um dizendo qualquer coisa, outro fenômeno ocorrerá: o de políticos negando ter dito o que de fato disseram. É falso, dirão, quando lhes for conveniente.A tecnologia está dada, é cada vez mais perfeita, e o problema das democracias só aumenta. Onde o falso impera, fica muito difícil ajustar a bússola para decidir em quem votar.

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