A Liberdade Cristã.

Missionário Marllon Almeida.

A liberdade cristã expressa o sentimento de ser servo e a dependência da criatura ao Criador, na pessoa de Jesus Cristo, semelhante à dependência definida como o sentimento que a criatura tem de seu próprio nada e que desaparece na presença daquele que está acima de toda criatura, diante de um poder soberano específico. É um sentimento de soberania absoluta e que pode indicar a diferença entre o Senhor Deus e o servo ou serva fiel. Isso se relaciona ao sentimento de ser criatura, que é um sentimento benigno, matéria bruta da humildade e pode ser definido pelo sentimento de dependência, como expressada por Abraão, que não consiste no fato de não ter sido criado, mas no fato de ser uma criatura (Gn 18.27). Este sentimento de ser criatura favorece a prática do serviço ao próximo, em amor a Deus e ao outro, como a expressão máxima da liberdade cristã.

A liberdade cristã consiste em ser livre para servir. Nesse conceito de liberdade se insere a humildade gerada pelo sentimento de dependência, de ser criatura diante do Criador, e que é necessária para que se estabeleça a condição de ser livre para servir ao Deus vivo e soberano, e ao próximo. Pois, sem humildade e coragem não há amor. Uma liberdade eficaz o suficiente para produzir servos e servas que servem em amor compromissado, que traz consequências marcantes para a comunidade cristã, na direção da superação de diferenças sociais, políticas, culturais, étnicas e de gênero. Essa comunidade que se forma no molde do cristianismo não só supera tais diferenças, mas, sobretudo agrega as multiformes culturas e etnias num único contexto comunitário em que o maior valor agregado é precisamente o amor expressado pelo serviço de uns para com os outros, não em ações egoístas e unilaterais, mas em ações integradas em que todos se beneficiam.

A liberdade que se recebe pelo viver no Espírito por meio de Cristo tem seu lugar na comunidade cristã, e se concretiza na prática do amor que só se efetiva nas relações estabelecidas entre pessoas que se interagem com o propósito de servir a Deus e ao próximo. A comunidade cristã que vive a liberdade num relacionamento pessoal com Deus e com o próximo encontra em Deus a força necessária para o serviço, força esta que a sustenta, levando-a a superação das dificuldades e propiciando a fé que remove as montanhas das desigualdades, das diferenças culturais, do egoísmo, e tantas outras mais que vierem a impedir a existência dessa comunidade livre. E essa força de origem transcendente é o amor e não normas, preceitos ou um receituário de procedimentos. Amar é querer gerar e procriar.

O ser humano, apesar de ser criatura, e criatura de Deus, é sua imagem e semelhança; no dia em que Deus criou o homem, à semelhança de Deus o fez (Gn 5,1). Assim, homem e mulher pertencem à mesma natureza daquele que os criou, possui a mesma qualidade do ser que os gerou, e, por isso, são também criadores ou criativos em potencial. De forma latente ou manifesta, a criatividade humana, semelhante à divina, procede do amor, porque o amor é afim à transcendência.

A carta aos gálatas é um exemplo na escritura bíblica sobre a defesa da liberdade cuja prática é o amor. O apóstolo Paulo, o apóstolo das Nações, enviado aos gentios para a missão de pregar o Evangelho de Cristo, nesta Epístola aos Gálatas, mais que nunca, demonstra seu espírito de luta em prol da liberdade. Nesse embate travado com os adversários e em favor da causa de Cristo e de seus irmãos em Gálatas, Paulo não mediu esforços em fazer prevalecer a verdade proclamada por Cristo, em favor da fé cristã, como definiu em Gl 2:16, de que o homem não é justificado pelas obras da lei, mas somente pela fé relativa a Jesus Cristo. Nesse esforço, Paulo não só confirma a verdade do Evangelho de Cristo que procurou registrar também em outras cartas, mas, sobretudo, expande a compreensão da vida em liberdade, centrada na pessoa de Cristo. A importância desta carta é inquestionável para os tempos de Gálatas e para as bases da igreja cristã que se principiava, como também para os tempos atuais, pois, em sua perspectiva mais libertadora introduz a comunidade uma vida social que produz o serviço ao próximo sem hierarquizar privilégios ou valorizar um indivíduo em detrimento de outro, por motivo político, cultural, econômico, social ou até mesmo de gênero. Não ocorreria, então, a primazia de um ser humano sobre outro, pois prevalecem às relações igualitárias baseadas na justiça que provêm da condição de filhos de Deus.

 

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