Novo Nascimento

Do começo ao fim, a salvação é inteiramente pela graça. Paulo disse: “Pois nós também, outrora, éramos néscios, desobedientes, desgarrados, escravos de toda sorte de paixões e prazeres, vivendo em malícia e inveja, odiosos e odiando-nos uns aos outros. Quando, porém, se manifestou a benignidade de Deus, nosso Salvador, e o seu amor para com todos, não por obras de justiça praticadas por nós, mas segundo sua misericórdia, ele nos salvou mediante o lavar regenerador e renovador do Espírito Santo, que ele derramou sobre nós ricamente, por meio de Jesus Cristo, nosso Salvador” (Tt 3.3-6). Esta passagem deixa claro que, pela graça e mediação de nosso Senhor Jesus Cristo, o Espírito Santo é enviado para regenerar nossa natureza e realizar em nós o novo nascimento. O perdão salva um pecador da maldição da Lei e do lago de fogo; a aceitação por meio de Cristo lhe concede a entrada no céu; mas na regeneração o domínio do pecado começa a ser destruído, e a alma passa a ser ajustada para o uso do Senhor.

O novo nascimento é um grande mistério, mas as Escrituras se referem a ele com persistência. “O lavar regenerador” é tão necessário quanto o lavar do sangue de Cristo. “O lavar renovador do Espírito Santo” é tão essencial quanto a “justificação que dá vida”. No espaço de quatro versículos, nosso Senhor declara três vezes a importância do novo nascimento para que alguém seja salvo. Escute o que Ele diz: “Em verdade, em verdade te digo que, se alguém não nascer de novo, não pode ver o reino de Deus… quem não nascer da água e do Espírito não pode entrar no reino de Deus… Não te admires de eu te dizer: importa-vos nascer de novo” (Jo 3.3, 5, 7). O campo de pousio deve ser arado, pois, do contrário, a boa semente não é arraigada em nosso coração. A oliveira brava deve ser enxertada na boa oliveira ou permanece sem valor. Toda a Escritura ensina essa doutrina. Cristo não via como surpreendente o fato de que um vil pecador tinha de passar por uma grande mudança espiritual, antes de tornar-se idôneo para servir a Deus.

Embora esta mudança seja chamada por vários nomes, a doutrina bíblica referente a ela é uniforme. Às vezes, é chamada de santa vocação, criação, nova criação, transportar, circuncisão do coração, ressurreição. Entretanto, seja qual for o nome, o verdadeiro sentido é comunicado em toda a Escritura, em termos muito solenes e como um rico fruto da graça de Deus. Assim diz Paulo: “Quando, porém, ao que me separou antes de eu nascer e me chamou pela sua graça, aprouve revelar seu Filho em mim…” (Gl 1.15-16). Mais uma vez: “[Deus] que nos salvou e nos chamou com santa vocação; não segundo as nossas obras, mas conforme a sua própria determinação e graça que nos foi dada em Cristo Jesus, antes dos tempos eternos” (2 Tm 1.9). E Pedro diz: “O Deus de toda a graça, que em Cristo vos chamou à sua eterna glória” (1 Pe 5.10).

As igrejas mais puras jamais duvidaram da necessidade desta mudança. Elas também concordam quanto à natureza de tal mudança. A Assembléia de Westminster ensina que Deus “se agrada em chamar [os eleitos], de um modo eficaz, no tempo que Ele estabeleceu, por meio de sua Palavra e Espírito, do estado de pecado e morte, no qual, por natureza, encontram-se, para a graça e salvação por intermédio de Jesus Cristo. Deus faz isso iluminando a mente deles, de forma espiritual e salvífica, para que entendam as coisas de Deus; tirando deles seu coração de pedra e dando-lhes um coração de carne; renovando-lhes a vontade; induzindo-os, por seu imenso poder, àquilo que é bom e levando-os com eficácia a Jesus Cristo. Mesmo quando se chegam a Cristo o mais livremente possível, ainda estão recebendo, pela graça de Deus, esta disposição”.

A Segunda Confissão Helvética diz: “Na regeneração, o entendimento é iluminado pelo Espírito Santo, para que possa compreender os mistérios e a vontade de Deus. E a vontade em si mesma não somente é mudada pelo Espírito, mas também é dotada de habilidades, de modo que, por iniciativa própria, possa querer e fazer o bem”. E cita como prova Romanos 8.4; Jeremias 31.33; Ezequiel 36.27; João 8.36; Filipenses 1.6, 29; 2.13.

A verdade é que, se ignoramos a regeneração, a única esperança de um pecador ser novamente santo ou feliz acaba para sempre. A Igreja da Irlanda defende que “todos os eleitos de Deus são, em seu tempo, inseparavelmente unidos a Cristo, pela influência vital e eficaz do Espírito Santo, procedente dEle, como cabeça, para cada membro verdadeiro de seu corpo espiritual. Assim, tendo sido feito um com Cristo, os eleitos são verdadeiramente regenerados e transformados em co-participantes dEle, bem como de todos os seus benefícios”. De fato, nada aflige mais uma pessoa que considera, de forma correta, o estado de perdição em que se encontra do que ver destruída ou seriamente abalada a esperança que brota da doutrina da regeneração… Cada homem que já teve seus olhos abertos para contemplar sua própria miséria e vileza concordará com a declaração de Usher: “Não é uma pequena transformação que salva o homem, não, nem toda a moralidade do mundo, nem todas as graças comuns do espírito de Deus, nem a mudança externa da vida; tudo isso não é suficiente, a menos que sejamos vivificados e que uma nova vida seja produzida em nós”.

Em sua idade avançada, quando não enxergava mais o suficiente para ler, John Newton ouviu alguém repetir o seguinte texto: “Pela graça de Deus, sou o que sou” (1 Co 15.10). Ele permaneceu calado por alguns instantes e, como se falasse consigo mesmo, disse: “Eu não sou o que devo ser. Ah! quão imperfeito sou! Não sou o que desejo ser. Abomino o que é mau e anelo apegar-me ao que é bom.

 

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