A realidade supera a ficção.

Ao assistir o filme Escritores da liberdade—baseado em uma história real—confirmou-se a minha crença de que a realidade supera a ficção.  Erin Gruwell é uma professora recém-formada que leciona inglês e literatura para o primeiro ano do ensino médio. Tem de enfrentar uma turma de 150 alunos problemáticos—com idade média de 14 anos—em uma escola de periferia em Long Beach na Califórnia. Seus pupilos apresentam profundas cicatrizes oriundas de conflitos familiares e raciais.  São jovens descrentes, desobedientes e desmotivados; marcados pela violência em casa e na rua.

Em seu primeiro dia, Erin é ignorada pela classe. Entram na sala (número 203 do Colégio Wilson), jogam as mochilas no chão e rearranjam as cadeiras: negros com negros, latinos com latinos, asiáticos com asiáticos. E o único louro fica sozinho (Que ironia! Em um país dominado por brancos). Durante a chamada, uma latina—Eva Benítez—, que está usando uma tornozeleira (para delinquentes), olha com desdém para a professora e a corrige asperamente: “Não é ‘Iva’, é ‘Eva’”. Um aluno negro—Jamal Reeves—diz: “Não sei o que estou fazendo aqui. Tem mais marginal do que em episódios de séries policiais!”. Outro negro, com a mão em forma de revolver, aponta para ele, e responde: “Esta é a turma dos burros. E você é burro!”. Jamal se irrita e começa a confusão. Discutem ferozmente, empurrando um ao outro. Toda a classe se levanta assustada. A câmara dá um zoom para a cintura de um latino que coloca a mão na arma, escondida entre a calça e a barriga. A jovem mestra desorientada sai para o corredor e pede ajuda. Aparece um funcionário—também negro—que separa a briga.

Eu pensei: “Se eu fosse a professora sairia correndo e jamais voltaria. Talvez procurasse um lugar mais calmo para exercer minha profissão”. Mas, Erin não estava ali apenas para dar aulas. Ela estava de frente daqueles jovens por um ideal que alimentava desde criança. Seu pai, durante os distúrbios raciais da região de Los Angeles lhe explicava que os conflitos tinham raízes nas discrepâncias sociais existentes entre os brancos e as outras raças. Dizia-lhe que algo precisava ser feito em benefício dos mais pobres.

Em uma palestra no youtube, a própria Erin, explica que aquele ideal permaneceu com ela. Certo dia, se comoveu com as imagens do jovem chinês que arriscou a sua vida—pela liberdade—ao postar-se em frente a um tanque de guerra na praça Tiananmen. Pouco tempo depois, ao ver as cenas dos conflitos raciais—e o rosto sofrido dos marginalizados—teve a convicção de que seria professora. Decidiu que iria se posicionar contra a opressão em seu próprio país e que, através da educação, daria voz aos marginalizados.   

Sonhava em ensinar Homero e Shakespeare para seus alunos, mas, logo no primeiro dia, viu que isso seria impossível. Eles detestavam ler e escrever. Jamais tinham lido um livro inteiro. E, além disso, também não gostavam nem um pouco dela, que apareceu na escola com um colar de pérolas branco—presente do pai—e vestida como Julia Roberts (no filme Uma vela mulher).

A atitude dos alunos mudou—milagrosamente—depois que ela entregou um caderno em branco para cada um e um exemplar do livro O diário de Anne Frank. Tudo comprado com seu próprio dinheiro. Em suas próprias palavras: “Eles não precisavam ler os clássicos, pois tinham suas próprias histórias para contar”. A tarefa que ela lhes passou foi a de escreverem  diários—como fez a jovem Anne Frank—enquanto se escondia dos nazistas. Lendo os diários, os olhos de Erin se enchiam de lágrimas e seu peito de compaixão por seus alunos. Com o incentivo da mestra, a autoestima deles foi recuperada, melhoraram suas notas e passaram de ano. Muitos seguiram em frente e conquistaram diplomas universitários.

O livro O diário dos escritores da liberdade (The Freedom Writers Diary)—baseado nessas histórias, que, não fosse pela força do ideal de uma professora destemida, jamais seriam ouvidas—tornou-se best seller nos Estados Unidos. Mais um caso em que a realidade me surpreendeu bem mais do que “os episódios de séries policiais”. 

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