Encontrando sentido no sofrimento.

Assisti ontem uma entrevista com Heloisa Silveira—psicóloga, especialista em logoterapia—sobre como encontrar sentido no sofrimento. Só de contemplar o seu rosto, pude sentir que ela entendia do assunto, pois durante todo o programa transmitiu serenidade e, ao mesmo tempo, alegria contagiante. Demonstrava que ela mesma havia encontrado sentido na dor, pois, como afirmou, “ninguém está livre do sofrimento”. Relatou o caso de um paciente que guardava enorme rancor com relação a um parente, pois, quando jovem, o homem havia arruinado a empresa que tinha em sociedade com os pais dele. Com isso, teve de desistir do sonho de se formar e trabalhar na empresa fundada pelos pais. Mudou-se para outro país e foi “obrigado” a fazer a vida longe do Brasil.

“E o que aconteceu lá?”, perguntou a psicóloga. “Encontrei um bom emprego, prosperei e casei-me com uma pessoa maravilhosa”. Ao que ela replicou: “Isso teria acontecido se você tivesse permanecido no Brasil e estivesse trabalhando naquela empresa familiar?”. “Acho que não!”, ele afirmou. Foi assim que Heloisa despertou nele a capacidade de ver sentido em algo que—até aquele dia—ele percebia apenas como sofrimento, alimentado pela raiva que sentia do parente desonesto.

A entrevista levou-me a refletir sobre a minha própria vida. Revisitei o meu passado para verificar como o sofrimento havia me beneficiado. Lembrei-me com nitidez da asma que me atacou quando eu estava entrando na adolescência. Ninguém, em sã consciência, poderia dizer que existe sentido em passar noites em claro com falta de ar e chiando como um gato. Era assim que eu me senti por longos anos, principalmente durante os invernos de minha jornada.

Sofria e meus pais sofriam junto comigo. Mas, essa condição de debilidade física levou-me a cuidar mais da saúde escolhendo com critério os alimentos que ingeria e me dedicando mais aos exercícios físicos. Adquiri amor às frutas e verduras e desenvolvi a disciplina necessária para a prática de atividades físicas.

Aos 28 anos, casei-me e as crises diminuíram bastante. E, aos 30, ao mudar-me para os Estados Unidos, a doença sumiu. Lá realizei o sonho de mudar de profissão. Larguei a engenharia e conclui o doutorado em comunicação de massa. Depois de formado, outro sonho: dar aulas em uma universidade americana. Também realizado. Até hoje—ao relatar essas mudanças de vida—o meu coração arde de entusiasmo. É a força que brota da coragem de mudar.

O que foi que me levou a mudar: o sofrimento. A dor causada pela asma fez com que eu cuidasse mais de minha saúde do que faziam os meus colegas saudáveis. Hoje, 60 anos depois, ao reencontrar-me com eles, eu agradeço a minha asma. Empurrado pelo sofrimento, eu mantive um estilo de vida saudável, assim como meu peso. Mas eles, como gozavam de boa saúde, não foram tão disciplinados e hoje estão às voltas com as doenças geradas pelo sedentarismo e pela obesidade. A mudança de profissão foi também estimulada pela insatisfação. Depois de dois anos de formado, descobri que não gostava do que fazia. Já estava com 30 anos e mesmo assim, o desconforto foi tal que me empurrou para mais uma mudança de vida.

Mesmo que sejamos tentados a fugir dele—depois que passa—descobrimos que havia sim um sentido no sofrimento. Se não fosse pela minha bendita asma não estaria agora agradecendo a Deus pela minha saúde plena. E, se não fosse pelo sofrimento de ter escolhido a profissão errada, não estaria hoje aqui escrevendo sobre o sentido que existe nele!

 

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