Isolamento e otimismo.

“Só há uma maneira de seus pais não se contaminarem! Não saia de casa! Para nada! Vindo ao comércio você pode levar a seus pais e a todos os seus familiares o vírus covid-19”. Um cartaz com o título “Corona vírus” e logo abaixo o rosto triste de uma senhora de seus 80 anos estava afixado na porta de diversas lojas na pequena Piedade dos Gerais, Minas (4.000 habitantes).

Ao ver isso, imaginei a intenção: assustar a população! Qual seria a finalidade? Não sei. Mas o resultado óbvio foi uma queda considerável nas vendas, principalmente das lojas de roupas e artigos diversos. Remédios, alimentos e materiais de construção aguentaram firme, mesmo diante desse “convite” para que as pessoas ficassem em casa. Caso contrário, algum parente idoso morreria vítima desse abominável visitante. O apelo do cartaz, na verdade, foi um convite à desobediência devido a sua radicalidade: “Não saia de casa! Para nada!”. Como não sair de casa? A construção civil continuou bombando em ritmo normal, assim como as farmácias e mercearias. Então não havia como não sair de casa.

Qual é então o lado otimista do isolamento? Eu pude percebê-lo no Vale da Imaculada Conceição, situado em uma fazenda colada na cidade. Nesse Vale acontecem as aparições de Nossa Senhora desde 1987. Marilda Santana começou a receber mensagens do Céu desde seus 12 anos. E, ainda as continua recebendo. Dentre um dos apelos de Maria está o silêncio. Mas, a comunidade—em parte devido ao enorme número de visitantes (cerca de 1.000 por fim de semana antes do isolamento)—não vivia o silêncio. Fundada por Nossa Senhora, esse vilarejo, antes da chegada do vírus, desfrutava de uma vida bastante semelhante a de um bairro comum. Se diferenciava, isso sim, devido aos inúmeros momentos de oração anunciados pelo sino: oração das 6h30 da manhã, terço das 8h00, terço das 12h00, terço da Misericórdia às 15h00, terço das 18h00 na cidade, Eucaristia na cidade às 19h00 e terço das 20h15 na comunidade. De tempos em tempos as suas capelas acomodavam os fiéis para oração.

Mas, o silêncio de Maria, onde estava? Poucos moradores o praticavam. Desde o começo do isolamento a situação mudou. Os romeiros não mais foram acolhidos e os moradores, convidados a permanecer em casa. A cozinha—normalmente local de aglomeração—foi fechada e o mesmo aconteceu com as capelas. O alimento, tanto físico, quanto espiritual, deveria ser recebido de forma individual e não coletiva.

Chegando ao Vale na segunda metade de agosto (2020), me deparei com um lugar ermo. A alegria das crianças soltas a brincar pelas ruelas desparecera. O soar do sino acabou. Apenas algumas casas em reforma—com pedreiros e serventes andando de lá pra cá—permaneciam vivas. Porém, ao falar com alguns moradores e ver as transmissões via internet dos momentos de oração, tive a certeza de que a espiritualidade silenciosa estava sendo fortalecida. Também fui informado de que a partilha dentre os irmãos foi incrementada.  

Mesmo não sendo essa a intenção do isolamento, pelo menos para essas duas coisas serviu: silêncio e partilha. Talvez pudéssemos aplicar aqui aquele velho ditado: “Há males que vêm para bem!”. De fato, o vírus é um mal, mas existe a real possibilidade de que mesmo ele, possa ter tido um efeito positivo, mesmo que seja em uma pequena comunidade de 200 pessoas, escondidas no interior destas vastas minas gerais.
 
 

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