O sentido e a felicidade.

Assisti a uma palestra sobre Viktor Frankl, psiquiatra austríaco, de origem judaica, que passou três anos em campos de concentração nazistas na II guerra mundial. Em sua brilhante apresentação a professora Heloisa Marino enfatizou a busca do ser humano por sentido, sendo esse o foco principal das observações de Frankl. Durante a permanência naquele ambiente infernal, Frankl percebeu que muitos se atiravam contra a cerca elétrica, pois preferiam morrer eletrocutados a sofrer os horrores a que eram submetidos. A sua perguntou foi então: o que faz com que—apesar do sofrimento atroz—nem todos se joguem contra a cerca? Conversando com seus companheiros de infortúnio descobriu que aqueles que permaneciam esperançosos, apesar de tudo, eram os que tinham um “para que viver” (um projeto pessoal para concluir, um livro para escrever, um sonho a realizar) ou que tinham “para quem viver” (uma pessoa amada que os esperava do outro lado da cerca). A isso ele chamou de sentido. Então, as pessoas que tinham um sentido para viver (um “para que”) enfrentavam qualquer “como”.

Na semana seguinte comecei a leitura do livro O jeito Harvard de ser feliz (The happiness advantage) de Shawn Achor, editora Saraiva. Logo no início Achor conta que uma pesquisa “revelou que quatro de cada cinco alunos de Harvard sofrem de depressão pelo menos uma vez durante o ano letivo e aproximadamente metade dos alunos sofre de uma depressão tão debilitante que não consegue exercer suas atividades”. Pensei comigo: “Se em Harvard eles estavam deprimidos, imagino como estariam se tivessem que enfrentar o que Frankl sofreu. Talvez fossem os primeiros a se atirar contra a cerca elétrica”. Achor, usando uma abordagem semelhante à de Frankl, buscou entrevistar “aquele um de cada cinco que realmente estava prosperando—os indivíduos que estavam acima da média em termos de felicidade, desempenho, realização, produtividade, senso de humor, energia ou resiliência—, para descobrir o que lhes proporcionava tamanha vantagem em relação aos colegas”. Descobriu que a diferença que fazia a diferença era a atitude desses alunos. Eles se consideravam privilegiados de poder usufruir daquela oportunidade ímpar que era estudar em Harvard. Tanto os que eram felizes, como os infelizes, estavam vivendo dentro de uma mesma realidade, mas o que os diferenciava era a interpretação que faziam da experiência.

Assim como os prisioneiros de guerra que sobreviviam tinham uma atitude diferente dos que desistiam, os alunos que se destacavam eram justamente os que adotavam uma atitude mental positiva diante do ambiente extremamente competitivo de Harvard.  Embora seus “laboratórios” tenham sido radicalmente diferentes, eu acredito que tanto Frankl como Achor chegaram a conclusões similares. Enquanto Frankl percebeu uma atitude mental diferenciada nos prisioneiros que sobreviveram—à qual chamou de sentido—, Achor também observou que os estudantes que se destacavam eram aqueles que—ao perceberem Harvard como uma oportunidade única—se sentiam mais felizes e realizados do que os outros.

Achor cita John Milton, que escreveu em sua obra O paraíso perdido: “A mente é um lugar em si mesma, em si mesma pode fazer do Céu um inferno e do inferno um Céu”. Não seria sensato considerar Harvard como um Céu, mas é um lugar de conforto material e privilégios. Mesmo assim, a grande maioria (4 em cada 5) de alunos, ao enfatizar apenas os desafios, são levados a se deprimirem (a viverem um inferno interior). Também não faz sentido afirmar que Frankl tenha conseguido transformar o inferno dos campos de concentração em um Céu, mas o que lhe deu energia para prosseguir—apesar de tudo—foi justamente a sua atitude.

O que aprendemos disso? Que a nossa interpretação da realidade modifica a forma com que essa realidade é experimentada. Assim, quando estivermos vivendo momentos desafiadores, é importante mantermos o otimismo, a esperança em dias melhores. Uma visão de futuro positiva pode ser aquele “para que” que nos dará forças para enfrentar qualquer “como”. Se temos “para que” ou “para quem” viver, encontraremos um “como” chegar lá!

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