O zap zap e a criatividade.

Ligo o meu celular e observo o whatsapp borbulhar. As bolinhas verdes repletas de números brancos descem pela tela: 68, 1, 9, 6, 74, 18, 31, 17, 5, 6, 2, 1, 4, 2, 11, 2, 1, 2, 1, 1, 14, 3, 8, 15, 4, 1, 3, 11, 1, 2. São 324 impulsos só hoje pela manhã. O mundo acordou! Fico coçando de curiosidade de ver o que está acontecendo. A tentação é enorme e com frequência dou uma olhada de leve. É uma mensagem de áudio aqui e outra de texto acolá. Mas, em sua maioria são mensagens de bom dia, pedidos de oração, notas de falecimento, homilias, anúncios de lives, denúncias dos roubos e desmandos do congresso e do stf, números da “peste”, vídeos que anunciam a proximidade do fim dos tempos, etc. A lista de assuntos é tão vasta quanto são as preocupações do nosso tempo. E, por ironia, ao abrir—ao acaso—uma das bolinhas, enviada pela Raquel Morato, li: “Acalme o seu coração, tudo que está acontecendo está sob o olhar de Deus” (anônimo).

Se eu me lançar naquele mar de estímulos, a última coisa a esperar é um coração sereno. Seria como me atirar em um lamaçal de areia movediça. Ao nos embrenharmos na selva virtual detonamos nossa criatividade. A mente gira sem direção, os pensamentos disparam e perdemos o rumo. Em especial quando ligamos para as coisas que são veiculadas nos grupos. Alguns pensam assim e outros assado. Os que pensam assim brigam com os que pensam assado.

Em 1990, Ray Bradbury lançou o livro Zen na arte de escrever. São reflexões sobre a arte de escrever que podem se aplicar a qualquer outra arte ou até mesmo atividade humana. Assim ele se expressa:

“A quantidade de tempo dedicada a uma atividade eventualmente irá produzir qualidade. Como assim? Os bilhões de rascunhos de Miguel Ângelo, Da Vinci e Timoretto prepararam esses artistas para a produção de obras de arte de qualidade...

“Um grande cirurgião disseca e redisseca um mil, dez mil corpos, tecidos, órgãos, preparando assim, pela quantidade, o momento no qual a qualidade conta—com um ser vivo sob seu bisturi. Um atleta terá de correr dez mil quilômetros a fim de se preparar para os 100 metros.

“Quantidade produz qualidade. Somente através da experiência pode a qualidade ser produzida”.

 Como então produzir qualidade na arte de escrever? Escrevendo. Como escrever ou se dedicar plenamente a qualquer atividade que seja, se nos distraímos com os impulsos virtuais? Através da disciplina pessoal. Essa disciplina depende menos da força de vontade do que da real necessidade de ser ter uma vida produtiva.

Ao imaginarmos uma existência satisfatória, vemos alguém contribuindo tanto para o seu próprio crescimento quanto para o dos outros. Acredito que uma necessidade intrínseca do ser humano seja a de estar sempre evoluindo, seja espiritual, emocional ou mentalmente. Para isso, é necessário que se entregue plenamente à sua arte, seja ela qual for. Esse foco em nossa realização pessoal terá de enfrentar vários desafios e talvez—atualmente—o maior deles sejam as bolinhas verdes descendo pela tela do celular. 

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