Onde buscar refúgio?

Diante das explosões do mundo, podemos nos refugiar no silêncio. A contemplação silenciosa é um exercício de amor que nos proporciona direção e discernimento. Ao entrarmos no estado meditativo, permitimos que Deus deixe claro o que ele deseja de nós. Essa prática aumenta a nossa humildade e, consequentemente, também nossa fé, nossa esperança e nosso amor. Para isso, devemos “entrar no quarto interior, orar ao Pai em segredo; e o Pai, que está em segredo, nos recompensará” (Mateus 6, 6)

O “quarto interior” está dentro de nós mesmos. Para irmos até lá podemos nos assentar tranquilamente em um aposento de nossa casa. Podemos também buscar o silêncio na natureza. “Orar ao Pai em segredo”, na verdade, significa escutar—ouvir com atenção o que o Pai tem para nos confiar. Essa oração, portanto, é sem palavras nem pensamentos. Ela se origina da nossa vontade de nos aproximarmos de Deus, sem a interferência da mente.

Mas, não é fácil deixar o intelecto do lado de fora. Assim que nos assentamos e fechamos os olhos, a nossa memória chama nossa atenção para acontecimentos recentes—bons ou nem tão bons; ou vasculha antigos álbuns de fotografias, carregados de lembranças—algumas agradáveis, outras nem tanto.  A imaginação deseja retomar os projetos para o futuro. Podem surgir pensamentos levantando as mais diversas questões. A nuvem do não-saber, no capítulo 7 (p. 44), dá alguns exemplos de perguntas que o intelecto nos faz: “O que você procura e o que gostaria de ter?”, “Quem é esse Deus que você procura?”. Porém, os pensamentos não desejam nada além de serem escutados. Aos poucos podem aumentar seus apelos até desviar-nos do propósito do silêncio: a escuta amorosa de Deus—refúgio seguro contra as explosões mundanas.

Para lidarmos com a insistência dos pensamentos, podemos escolher uma palavra de oração. Como a nossa intenção é a simples aproximação a Deus—sem nenhuma outra razão a não ser o próprio Deus—podemos escolher uma palavra que represente essa intenção. O autor de A nuvem sugere a opção por uma palavra curta, por exemplo: “Deus”, “God” em inglês. Pode também ser “amor”. Alguns autores sugerem a palavra “Abba”. “Escolha a que você preferir, de preferência uma palavra de uma sílaba. Prenda essa palavra ao seu coração de modo que—aconteça o que acontecer—ela jamais vá embora. Essa palavra deve ser o seu escudo e a sua espada, quer você esteja cavalgando na paz ou na guerra... com ela deverá abater toda sorte de pensamentos sob a nuvem do esquecimento. Caso algum pensamento exercer pressão sobre você—perguntando-lhe o que gostaria de ter—responda só com essa palavra e nada mais” (p. 46).

Henri Nouwen, no artigo A oração do coração cita Isaac, o Sírio: “Procure entrar na câmara do tesouro... que está dentro de você e então descobrirá a câmara do tesouro do céu. Pois ambas são a mesma coisa. Se conseguir entrar em uma, você verá ambas. A escada para esse Reino está escondida dentro de você, em sua alma. Se você purificar a alma, ali verá os degraus da escada que deve subir”.

 

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