Paciência

Dez para as oito da noite. Escuto a primeira sirene que anuncia a chegada do toque de recolher. Oito da noite. Soa o segundo e definitivo toque  forçando todos a seguir direto para a casa. Em minha mente passa o filme de Londres, antes dos bombardeios nazistas. Mas, não, não estamos em guerra. Estamos em Divinópolis, no interior de Minas, uma cidade de porte médio (200 mil habitantes), que antes do vírus chinês podia ir para a casa a hora que bem quisesse. Sem muita explicação, foi estabelecido o toque de recolher.

O primeiro pensamento que me ocorre é o do ridículo da situação. Depois vem a falta de paciência com a ignorância alheia. Tanto a dos que mandam, quanto a dos que obedecem. Será que indo mais cedo para casa estaremos mais protegidos dos ataques da peste? (Neste exato momento, entra a minha esposa em meu escritório, me dá um gostoso abraço, e diz que tem uma mensagem interessante no Whatsapp e quer que eu veja...)

Paciência. Até retornar ao texto, que estava indo bem, tenho de respirar fundo. Paciência.

Algo que tenho de praticar a todo o momento é a paciência. Tanto com os acontecimentos fora, quanto dentro do lar. Bem dizia Charles Chaplin: “Para sermos felizes é preciso que tenhamos paciência infinita”. Então, quem sabe o toque de recolher—em vez de ser um toque de ignorância—seja uma manifestação do zelo da administração municipal para com o povo? E, a interrupção de minha esposa, uma demonstração de amor?

M. J. Ryan, autora da obra O poder da paciência (Editora Sextante, p. 69), diz o seguinte: “A paciência não é algo que temos ou não temos. Ela é uma decisão que tomamos, uma opção que fazemos repetidamente. Quanto mais tivermos consciência de que a paciência é uma decisão, mais livres estaremos para tomá-la. [...] Escolhemos a paciência quando temos dificuldade para engravidar, para abandonar um vício, para fazer um curso superior. Quando encaramos a paciência como uma decisão, compreendemos que precisaremos escolhê-la inúmeras vezes, [...] em opções pequenas e cotidianas que nos farão mais livres e certamente mais felizes”. A autora continua (p. 70) explicando que, “mesmo que sejamos pessoas impacientes, sempre teremos outra oportunidade para escolher! Em qualquer circunstância que estejamos vivenciando, somos capazes de escolher a serenidade”.  

Essa noção da paciência como uma escolha, talvez seja o que Chaplin quis dizer quando falou que “...precisamos ter paciência infinita”. Como vivemos infinitos momentos, também teremos um sem número de oportunidades para optar pela paciência. Quando estamos engajados em uma conversa interessante com outro adulto e chegam as crianças querendo atenção—paciência! Quando apressadamente tomamos o café da manhã, arrumados e prontos para sair e, de repente, o saboroso líquido respinga em nossa camisa branca—paciência! Quando estamos a fim de emagrecer, e continuamos comendo muito—paciência! E, quando, no trânsito, o nosso carro falha—paciência!

As oportunidades de escolha são infinitas. Encarando a paciência como uma escolha e não como uma característica desta ou daquela pessoa, ficamos livres para desfrutar de uma vida mais tranquila, mais equilibrada, mais produtiva e, porque não, muito mais feliz! 

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