Prefácio

Ômar Souki nos presenteia aqui com suas percepções da presença de Deus em sua alma, e reflete sobre como essas vivências mudam a sua maneira de enxergar a existência. De forma simples e de fácil alcance—através de uma escrita com caráter de opúsculo de espiritualidade—ele  mostra que a contemplação é um dom oferecido a todos que se abrem. De maneira entusiasmada e acessível, seu texto é um grito de que o Reino dos Céus começa aqui e agora. E que, mesmo às apalpadelas, podemos nos relacionar com aquele que é o artífice da nossa vida.

Nesta obra somos convidados a redescobrir os tesouros da mística cristã, que desde seus primórdios—por meio dos padres do deserto—nos apresenta uma espiritualidade contemplativa. Nesta prática de oração se destaca o aspecto de quietude do corpo e da mente, apontado recentemente pelas ciências humanas—sobretudo as neurociências—como meio terapêutico. Na espiritualidade cristã, essa realidade que inclui a dimensão psicofísica na vivência da oração é chamada de cooperação do ser com a ação sobrenatural da graça. Perceber o corpo, abandonar a eloquência das palavras, usar de uma monologia (palavra simples repetida várias vezes) e valorizar os sinais vitais como a respiração: tudo isso envolve dimensões cognitivas, físicas e afetivas do ser orante.

Estamos falando de uma realidade que—na linguagem de São Tomás de Aquino—seria o “organismo natural” (a dimensão psicofísica) auxiliado pelo “organismo sobrenatural” (o dom da graça de Deus na alma da pessoa). Um dom que nos é dado por revelação divina: encarnação, morte e ressureição de Nosso Senhor Jesus Cristo. Essas duas realidades, a ação da graça e a cooperação da pessoa, caminham juntas. Bem compreendidas, nos revelam que nossa forma de rezar pode alterar nossa saúde física e mental. Podemos até mesmo dizer que há um “efeito antropológico” da oração nas camadas da nossa humanidade.

O autor—na maneira de desenvolver seu texto—segue a inspiração do clássico Relatos de um peregrino russo, do século XIX. Apresenta-nos uma narrativa com caráter de experiência, não oferecendo o peso de um manual de “como contemplar”, mas dando seu testemunho, sua busca, e, sobretudo, nos revelando como o espirito de Deus opera em sua alma. Temos neste livro o diário de um cristão, que na vida ordinária se abre à aventura da contemplação. Assim, a leitura se torna um testemunho de que todo batizado é chamado e capacitado—pelas águas do seu batismo—a viver, em qualquer contexto de sua vida ou traço de sua personalidade, o dom da contemplação.

Devemos nos entregar a esse dom, sobretudo em um momento em que a “ditadura dos ruídos” se impõe sobre a humanidade, perturbando desde as bases psíquicas às profundezas do espírito humano. Na década de 40,  Thomas Merton já dizia: “Se há algo que devemos desejar em nossos dias, é que possamos ver em nós mesmos os inícios da contemplação”. Esta obra do querido Ômar Souki é um convite a deixarmos que se desperte em nós o desejo de viver a aventura contemplativa. Que a Virgem Maria—ícone das almas orantes—nos auxilie neste caminho, que estamos prestes a percorrer.

Boa viagem!

Orlando Nolasco
Psicólogo

 

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