Quando é que menos pode ser mais?

Ômar Souki

 

 

Se observarmos o nosso próprio cotidiano, a resposta óbvia para essa pergunta é: nunca! Ao abrir meu guarda-roupa noto que tenho mais camisas do que preciso, e do que consigo usar, e há sapatos em excesso. Quando vou até o armário do banheiro verifico que há mais perfumes, mais loções, mais cremes e óleos para banhos do que a família consegue utilizar. Ao adentrar a cozinha verifico que há certos tipos de chás que estão perdendo a validade. Quanto a livros nem se fala, tenho caixas de livros que me acompanham fielmente durante as minhas mudanças.

Um observador distraído poderia chegar à conclusão de que quanto mais coisas eu acumulo, mais eu sou. E eu? Eu tenho a impressão de que sou um imã de coisas. Quanto mais dôo, mais elas me perseguem. Enfim, o número de coisas que tenho excede em muito aquilo que eu e minha família temos condição de utilizar. Vivemos dentro da lógica do consumo que nos leva a pensar que quanto mais consumirmos ou possuirmos, melhor! Mas, a prosperidade e o bem estar têm pouco a ver com o possuir. Estava refletindo sobre o excesso de coisas que me rodeiam quando, literalmente, tropecei—em um posto de gasolina (imaginem onde!), no expositor perto do caixa—com o seguinte título: Quanto menos, melhor (Babauta, Leo. Editora Sextante). A primeira idéia que tive foi: “Não sei como conseguem vender um livro com esse título. O que tem apelo é o mais e não o menos”. Mesmo assim, por curiosidade, comprei. Estava na promoção, custava  apenas seis reais. E eu já estava pensando nesse assunto.

Babauta acredita piamente na simplicidade e diz que sua vida ficou melhor depois que simplificou o seu modo de viver: agora vai direto ao ponto e desfruta das coisas que ama. Ele nos aconselha a reduzir a complexidade de tudo que fazemos, ou seja, devemos buscar fazer menos, para realizar mais. Isso pode parecer um paradoxo: “Como poderei realizar mais, fazendo menos?”.  Isso é possível quando paramos, respiramos fundo, e examinamos o que realmente conta na vida, isto é, identificamos o que é essencial. Depois eliminamos o resto. São dois passos apenas: 1. identificar o essencial; 2. eliminar o supérfluo. Algo fácil de falar, menos fácil de fazer. Foi por isso que Babauta escreveu um livro inteiro sobre a arte da simplificação.

Um dos grandes problemas mostrados pelo autor é que nós estamos acostumados a viver sem limites. Vamos às compras sem uma lista do que realmente precisamos e, em geral, compramos em excesso. Se colocarmos um limite para nossos gastos, poderemos viver melhor com menos. A falta de limites pode parecer legal a princípio, mas pode se tornar um problema. Acabamos não tendo espaço para nada e não sabemos como lidar com o estresse de tentar fazer tudo ao mesmo tempo. Adquirimos coisas demais e assumimos compromissos que não cabem dentro de nossa agenda. Isso nos enfraquece: ficamos cansados e sem energia para fazer o que realmente é importante.

Qual é a solução para a nossa falta de limites? O foco! Para ter foco precisamos cultivar a disciplina. A primeira disciplina é a interna. Você consegue parar e identificar os excessos em sua vida (coisas e ações desnecessárias)? Com relação às coisas comece organizando uma gaveta de cada vez até adquirir a força e a coragem para atacar o resto da casa e do escritório. Com relação às ações, faça uma lista das coisas mais importantes. Estabeleça prioridades no lar e no trabalho. Procure fazer somente o que—de fato—é significativo para você. Valorize seu tempo e não tente resolver tudo que aparecer à sua frente. Os limites, em vez de atrapalhar, ajudam. Passo a passo, sem estresse, procure diminuir o excesso de coisas à sua volta e o volume de tarefas a realizar. Assim vai organizar melhor o seu tempo e eliminar as coisas desnecessárias. Enfim, vai se tornar mais eficiente, menos estressado, e, provavelmente, mais feliz!

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