Caetano Veloso sobre sexualidade “A prisão militar apagou em mim a atração sexual por homens”

09 DEZ 2020

CARLOS HENRIQUE MONTEIRO

No encontro entre o compositor e cantor Caetano Veloso com o escritor espanhol Paul B. Preciado, em Paris, mediado pelo mexicano Ángel Gurria-Quintava, a ascenção da extrema direita no mundo foi um dos temas debatidos, mas não o principal no sábado, 5.

Preciado, autor de Um Apartamento em Urano e um dos primeiros infectados com o  covid-19, indagou sobre o significado do título Narciso em Férias, que Caetano tirou de um capítulo de um livro de F. Scott Fitzgerald. “Narciso é um deus básico, e, em geral, usam a palavra de Narciso de maneira pejorativa”, respondeu, lembrando que o livro do escritor americano lhe veio à mente quando ficou numa solitária, preso pela ditadura militar, tema de sua obra.

“Parecia que minha vida tinha sido essa o tempo todo e, quando me decidi narrar a experiência da prisão, me pareceu um bom título”. Sobre o gênero do livro, que Gurria-Quintaca classificou de autoficção, Caetano afirmou que não pode deixar de  se construir um personagem.

Preciado escreveu em seu livro recém-lançado, que a filosofia é um tipo de ficção que pretende transformar a realidade. Com nacionalidade espanhola, ele pediu a mudança de sexo, debatendo a questão da homossexualidade no encontro. Caetano citou o crítico Luís Carlos Maciel, na ocasião que o livro Vereda Tropical (origem de Narciso em Férias) foi lançado: “Caetano se revelou: ele não é homossexual, nem bissexual nem heterossexual”. O compositor riu e admitiu que já se apaixonou por homens, após ler um poema elegíaco à pansexualidade, estranhando a ausência de “bichas” no colégio dos filhos, no Rio. Na Bahia  segundo Caetano, ele vivia rodeado de colegas homossexuais.

Caetano lembrou também sobre a epoca em que esteve preso. “O espaço muito masculino da prisão militar causou um outro apagão aqui, que foi a atração sexual e sentimental por homens. Fiquei com uma rejeição sexual em relação à figura dos homens, que eu não tinha”, disse.

Já Preciado, filho de uma tradicional família franquista, do norte da Espanha sofreu para aceitar sua mudança de sexo (ele era a escritora Beatriz Preciado). “Toda a memória do fascismo é a memória da cultura dos meus pais, de uma cultura patriarcal, em que a masculinidade é definida como um luxo, o monopólio legítimo da violência que, afinal, é compartilhado tanto pela cultura espanhola como portuguesa”. Apesar de tudo, ele se definiu como um “otimista patológico

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