sexta-feira, 16 de Setembro de 2016 10:30h IPHAN

Casa da Flor (RJ) e Romaria de Carros de Boi da Festa do Divino Pai Eterno de Trindade (GO) são os mais novos Patrimônios Culturais Brasileiros

Aprovados por unanimidade pelo Conselho Consultivo do Patrimônio Cultural, nesta quinta-feira, 15 de setembro, em reunião no Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), em Brasília (DF), a Romaria de Carros de Bois da Festa do Divino Pai Eterno de Trindade (GO) e a Casa da Flor, em São Pedro da Aldeia (RJ), são os mais novos Patrimônios Culturais Brasileiros.

Pela manhã, a avaliação do registro da Romaria de Carros de Bois da Festa do Divino Pai Eterno de Trindade como patrimônio imaterial contou com a presença do ministro da Cultura, Marcelo Calero, que destacou a importância de preservar trajetória do Iphan ao longo de seus 80 anos.

A presidente do Iphan, Kátia Bogéa, ressaltou a atuação da instituição na defesa da cultural nos últimos 80 anos: “O Iphan é, hoje, um patrimônio da Nação. O Conselho sempre foi, desde a criação do Instituto, sua principal instância. Só senta nesta cadeira quem entende que a dimensão humana só pode ser exercitada através da cultura”. De acordo com a presidente, a instituição ajudou a solidificar a identidade brasileira. “E o mundo ficou maravilhado com a cerimônia de abertura e encerramento das Olimpíadas no Brasil. Ali estava estampada a riqueza da identidade cultural e nosso patrimônio, exemplificado pela nossa porção indígena, africana e pela valorização do nosso patrimônio”, continuou.

Na parte da tarde, foi avaliada inscrição da Casa da Flor no Livro do Tombo de Belas Artes. Em seu parecer, o relator e conselheiro Leonardo Castriota, comparou a Casa da Flor a outras obras internacionais também reconhecidas como patrimônio cultural em seus países, como a Watts Towers, em Los Angeles (Estados Unidos) – criadas por Sabato Rodia (1879-1965), um imigrante italiano trabalhador da construção civil – e o Palais Idéal du Facteur Cheval, em Hauterives (França) – construído por Ferdinand Cheval (1836-1924), um carteiro francês.

Para a presidente do Iphan, Kátia Bogéa, "tombamento deste bem é mais um marco na evolução do conceito de Patrimônio Cultural. Até então, nada parecido com a Casa da Flor foi tombado no país". Um outro exemplo da diversidade e deste processo de ampliação do que é Patrimônio Cultural no Brasil foi o tombamento da Casa de Chico Mendes, em Xapuri (AC), no ano de 2011. Ambas foram reconhecidas por sua singularidade, por sua unicidade. No entanto, a Casa de Chico Mendes foi inscrita no Livro do Tombo Arqueológico, Etnográfico e Paisagístico e a Casa Flor, no Livro do Tombo de Belas Artes.

Romaria de Carro de Bois da Festa do Divino Pai Eterno de Trindade (GO)Fé e devoção pelas estradas de Goiás
A devoção ao Divino Pai Eterno, em Trindade, começou volta de 1840, quando um casal encontrou um medalhão entalhado com a imagem do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Desde então, muitas pessoas peregrinam até a região, caracterizando esta prática como imersa no catolicismo popular. Os carros de bois eram, antigamente, o principal meio de transporte para as famílias das zonas rurais, para viagens de longas distâncias. Por isso, a Romaria de Carros de Bois da Festa de Trindade, especificamente, está relacionada às antigas práticas cotidianas da vida rural. Ainda hoje, permanece como uma tradição cultural, reiterada no convívio familiar por sua representatividade no que se refere às antigas vivências de homens e mulheres do campo.

O epicentro da romaria é em Trindade, mas os devotos saem de diversas cidades de Goiás e de estados próximos, do Centro-Oeste e também do Sudeste. A preparação envolve diversas atividades, como reparos eventuais nos carros de bois, de mantimentos que serão consumidos, ofertados ou vendidos durante o trajeto, entre outros. Essas atividades são executadas por homens e mulheres que dividem o trabalho equivalente à prática no cotidiano da vida rural.

Os carreiros, candeeiros e demais participantes da Romaria de Carro de Bois se colocam na posição de herdeiros, guardiões e transmissores de costumes da vida rural, que vem sofrendo, nas últimas décadas, profundas mudanças com o advento da modernização que avança na região. Ao usarem um meio de transporte tido por anacrônico na atualidade, rememoram os tempos dos seus antepassados e até mesmo o da infância e reconstroem, ano após ano, a tradição da vida rural e das devoções.

Casa da Flor (RJ)Tudo caquinho transformado em beleza
Quando a construção de sua casa já estava em andamento, Sr. Gabriel contava que, em 1923, inspirado por um sonho, começou a embelezar a casa com mosaicos, esculturas e enfeites diversos coletados no lixo e a partir de objetos quebrados. Segundo ele, eram “coisinhas de nada”; eram búzios, conchas e outros depósitos da lagoa, detritos industriais, pedaços de azulejos e faróis de automóveis que transformaram a construção.

Quem chega à Casa da Flor passa, primeiramente, por uma pequena escadaria guarnecida de pedras e ladeada de flores confeccionadas por cacos de louças e telhas. Nenhum arranjo é igual ao outro. Um corredor externo delimitado por um muro igualmente feito de coisas quebradas determina um primeiro espaço de convivência, ao ar livre, onde há um banco com motivos abstratos e figurativos, como flores, folhas, cachos de uva, carrancas. Internamente, a casa em formato de T, guarda outras surpresas, já que até mesmo o observador mais atento não consegue perceber todos os elementos que compõe os seus três ambientes.

Após a morte do seu proprietário, a casa foi recuperada com recursos públicos e hoje é mantida por meio de projetos culturais. A casa possui um tutor, o sobrinho do Sr. Gabriel, que cuida da conservação da propriedade e da recepção aos visitantes.

De acordo com o parecer do Iphan, entre as justificativas para o tombamento da Casa da Flor está o ineditismo criativo, que instiga ao debate sobre os processos de produção cultural. O documento destaca que “a Casa da Flor condensa esse esforço de ordenar a desordem, a fragmentação e as oposições, de acordo com um conhecimento do valor das coisas e não da sua utilidade meramente funcional”.

O Conselho Consultivo
Órgão colegiado de decisão máxima do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) para as questões relativas ao patrimônio brasileiro material e imaterial. Conselho que avalia os processos de tombamento e registro pleiteados ao Iphan é formado por especialistas de diversas áreas como cultura, turismo, arquitetura e arqueologia. Ao todo, são 22 conselheiros que representam o Instituto dos Arquitetos do Brasil (IAB), o Conselho Internacional de Monumentos e Sítios (Icomos), a Sociedade de Arqueologia Brasileira (SAB), o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), o Ministério da Educação, o Ministério das Cidades, o Ministério do Turismo, o Instituto Brasileiro dos Museus (Ibram), a Associação Brasileira de Antropologia (ABA), e mais 13 representantes da sociedade civil, com especial conhecimento nos campos de atuação do Iphan.

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