terça-feira, 24 de Maio de 2016 12:06h Atualizado em 24 de Maio de 2016 às 12:13h. Secretária de Cultura de Minas Gerias

Fim da Partida, vencedor do Prêmio FCS de Estímulo às Artes Cênicas, aposta na juventude do elenco para interpretar texto de Beckett

Atores do grupo Teatro Diadokai, com média de 25 anos de idade, interpretam um dos clássicos do Teatro do Absurdo

Os jovens atores Adriana Maciel, Ana Lídia Durante, Daniela Fontana e Ricelli Piva, do grupo Teatro Diadokai, mergulharam no universo do Teatro do Absurdo, gênero que busca representar o desespero da condição humana no mundo moderno onde não existem mais verdades e certezas unificadoras, para encenar Fim de Partida, do dramaturgo Samuel Beckett. O espetáculo é vencedor do Prêmio Fundação Clóvis Salgado de Estímulos às Artes Cênicas – categoria Circulação do Interior – Teatro, e narra as obscuras relações de poder desenvolvidas em uma sociedade em destruição. O texto, denso e pesado, ganha diferentes contornos quando interpretado por um elenco com média de idade de 25 anos.

Em um cenário pós Segunda Guerra, Hamm, Clov, Nagg e Nell vivem uma rotina monótona, cíclica e sem significado. Isolados dentro de casa, eles se sentem os últimos sobreviventes da humanidade e se relacionam abusando um do outro, dentro do jogo de poder estabelecido silenciosamente entre eles. Cego, Hamm vive em uma cadeira de rodas, e trata Clov como seu mordomo. Insatisfeito com a situação, Clov ameaça constantemente partir, mesmo não tendo para onde ir. Enquanto isso, Nagg e Nell, pais de Hamm, vivem em um latão de lixo após terem perdido as pernas em um acidente de bicicleta.

 

 

 

Com direção de Ricardo Gomes, Fim de Partida é fruto de um trabalho de pesquisa em artes cênicas, iniciado no Laboratório Intercultural de Atuação da Universidade Federal de Ouro Preto. A montagem evidencia o silêncio, colocando-o em posição tão ou mais significativa que a própria palavra. O que as personagens não fazem ou não podem fazer, torna-se tão ou mais importante que suas ações, de acordo com o diretor. Ricardo Gomes também destaca que “a montagem ousa justamente ao colocar um elenco tão jovem para interpretar, com mais vigor, as situações absurdas escritas por Beckett”.

A proposta dessa montagem é misturar o frescor e a vitalidade dos jovens atores a um texto denso e pesado, comum às narrativas de Beckett, considerado de difícil interpretação até mesmo para atores com mais bagagem. Apesar disso, para o diretor, o frescor do elenco ajudará a deixar o trabalho mais potente. “O clássico é sempre delicado para trabalhar, pois exige um olhar diferente para um texto tantas vezes interpretado e discutido, e que ao mesmo tempo respeite a obra. Nessa peça, ao contrário do que já foi feito, o nosso mote é o frescor da juventude, o olhar inocente do elenco sobre um texto muito duro. Essa curiosidade, esse olhar quase inocente é o que vai dar leveza e intensidade à interpretação”.

 

 

 

 

A ousadia em Fim de Partida também está presente na trilha sonora. Incomum nas peças de Beckett, que raramente utiliza recursos de som para complementar o texto, a montagem traz composições autorais, criadas pelo músico argentino Rufo Herrera, que refletem o ambiente desolador onde vivem as personagens. O cenário da peça, criado por Daniel Ducato, é formado por uma série de objetos encontrados em ferros-velhos. São sucatas e outros materiais que dão a ideia de um local em ruínas. E o figurino, assinado por Priscilla Duarte, traz roupas em tons mais quentes, como o vinho e o terra, contrapondo às personalidades sombrias e apagadas das personagens.

 

 

 

 

Sobre o Teatro Diadokai – Criado há 20 anos, o Teatro Diadokai dedica-se à pesquisa sobre a Arte do Ator, convidando os espectadores a vivenciar experiências de conhecimento sobre si mesmos. Em uma visão intercultural e transdisciplinar, usa técnicas e princípios do teatro-dança clássico indiano e do treinamento do ator ocidental, tendo como principais referências Stanislávski, Grotowski e Barba. Atuou em diversos estados do Brasil (Rio de Janeiro, São Paulo, Minas Gerais, Goiás, Distrito Federal, Ceará, Alagoas, Pernambuco e Santa Catarina) e no exterior (Itália, Alemanha e Portugal). Atua no teatro de pesquisa, teatro de rua e teatro para crianças, com sucesso de público e ótima recepção da crítica especializada. Atua também na formação artística, por meio de atividades didáticas e da colaboração entre artistas jovens e artistas experientes.

Prêmio Fundação Clóvis Salgado de Estímulo às Artes Cênicas – O Prêmio Fundação Clóvis Salgado de Estímulo às Artes tem como objetivo o fomento ao teatro e à dança, buscando incentivar a criação, a montagem e a circulação de espetáculos. Importantes textos premiados obtiveram sucesso de público e crítica, como Bolsa Amarela, da Zero Cia de Bonecos; Todas as Belezas do Mundo, da Companhia Clara; Amores Surdos, do grupo Espanca! e Isso é Para Dor, da Primeira Campainha, entre outros. Nesta edição, o edital previu a distribuição de R$350 mil em prêmios para os projetos inscritos nas categorias Montagem (categorias Dança e Teatro), Circulação do Interior (categorias Dança e Teatro) e Montagem Marcello Castilho Avellar (espetáculo de Dança ou Teatro). A premiação também garante apoio em Assessoria de Imprensa, Mídias Digitais, impressão de programas e cartazes. Os projetos inscritos foram avaliados por uma comissão composta por profissionais das artes cênicas da Fundação Clóvis Salgado e da sociedade civil.

 

 

 

 

Premiação ameaçada – Em 2015, a Secretaria de Estado de Planejamento e Gestão, a Secretaria de Estado de Cultura e a Fundação Clóvis Salgado conseguiram reverter a delicada situação em que se encontrava o Prêmio Fundação Clóvis Salgado de Estímulo às Artes Cênicas. Sensibilizado com o problema, o Governo priorizou o pagamento de R$ 350 mil para cobrir as despesas previstas para as montagens. O secretário Angelo Oswaldo disse que esses recursos, que deveriam ter sido pagos ou liberados ainda em 2014, traduzem o esforço do Governo Fernando Pimentel de reconhecer e enfatizar a importância da produção cultural na vida de Minas Gerais.

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