segunda-feira, 1 de Fevereiro de 2016 12:11h Atualizado em 1 de Fevereiro de 2016 às 12:12h. Agência Brasil

Intérpretes contam preparação para cantar samba das escolas do Rio

Responsáveis por dar voz ao samba das escolas, os intérpretes são peça-chave para envolver os componentes da escola e também o público

Após vários carnavais, mesmo os mais experientes, relatam que é sempre uma nova emoção entrar na Avenida. É o que conta Ito Melodia, intérprete desde 1996.

O pai do cantor, Aroldo Melodia, morreu em 2008 e é considerado como um dos melhores intérpretes que já passaram pela Marquês de Sapucaí. O grito de Aroldo para animar os componentes no início do desfile da União da Ilha do Governador: Segura a marimba!, inspirou outros intérpretes a adotarem uma forma específica de incentivar a escola na entrada da Passarela do Samba.

 

Seguindo os passos do pai, Ito Melodia estreou em 1996 como intérprete oficial da Ilha e conduziu o samba-enredo da azul, vermelho e branco da zona norte por dois anos. Foi substituído por Rixxah, mas em 2002, voltou ao posto na escola do coração.

 

Para o cantor, apesar de tantos anos de experiência, a entrada na avenida ainda é emocionante. “Até com o Neguinho [Neguinho da Beija-Flor, que desde 1976 é intérprete oficial da escola], isso acontece. É como se fosse a primeira vez, porque aquela avenida é um momento especial. Um momento muito mágico e a gente tem que controlar a emoção”, revelou.

Enquanto passa na avenida, Ito gosta de interagir com o público e entre uma parte e outra do samba solta um: Canta, minha Ilha, ou então: Ah! Moleque, e com isso vai brincando com os foliões. “Tem que se envolver com o povo. Chamar a comunidade. É energia trocada. Dizem que eu incorporo. É uma energia muito boa e me faz lembrar muito o meu pai. Chamo muito por ele na avenida”.

A energia começa no Setor 1, o de ingressos populares e com presença forte de torcidas das escolas. “É onde tudo acontece. Se você disparou bem no Setor 1, pode contar que o desfile está garantido”, garante.

 

 

Preparação

Apesar dos anos de experiência, Ito Melodia destaca que aderiu a preparação trazida pelos novos intérpretes. “Essa rapaziada nova que está chegando muito bem preparada, procurando fazer fono, aula de canto. Isso é importante. Até eu estou seguindo este ritmo agora, porque se a gente quer ser o melhor e continuar no topo tem que fazer o melhor para a nossa voz e para a nossa garganta”.

Um dos novos é Leozinho Nunes, que este ano faz sua estreia no Grupo Especial, à frente da São Clemente. A preparação começou em abril do ano passado com uma fonoaudióloga, aulas de canto e tratamento para ter boa respiração, sem dispensar, ainda, o trabalho de uma psicóloga. Na avaliação dele, a organização da escola também é importante, principalmente o apoio da equipe do carro de som e os músicos dando o tom adequado e os cantores auxiliares.

 

No ano passado, Leozinho já tinha sido um dos compositores do samba, para o enredo desenvolvido pela carnavalesca Rosa Magalhães em homenagem ao também carnavalesco Fernando Pamplona, que fez história na Passarela do Samba. O convite para ser a voz oficial da amarelo e preto de Botafogo  foi uma surpresa. O anúncio foi feito pelo presidente sem que ele fosse avisado. “Eu não sabia de nada, mas foi uma boa surpresa, né? Eu não sei como vai ser na hora, mas a emoção vai ser a máxima possível. Estou me preparando para este dia”, disse.

Uma coisa o cantor tem certeza: durante o desfile vai lembrar sua trajetória até conquistar o posto. “Eu sempre sonhei desde criança. Em breve, vou cantar como um cantor de uma escola do Grupo Especial”.

Outro cantor que, pela primeira vez, será intérprete oficial de uma escola do Grupo Especial é Marquinhos Art'Samba, que vai conduzir a Imperatriz Leopoldinense. Depois de três anos seguidos na Unidos de Padre Miguel, no grupo da Série A, ele recebeu o convite para se mudar para a verde, branco e dourado da zona norte do Rio e está empolgado com o apoio da comunidade e com a qualidade do samba-enredo. “Fui agraciado com um samba desse, escolhido como um dos melhores da safra e estou adorando. Fui muito bem-aceito pela comunidade quando cheguei, muito abraçado pelas pessoas da Imperatriz e estou trabalhando firme e forte”.

Na avaliação de Marquinhos, um samba bom pode ajudar o intérprete na comunicação com o público e na empolgação dos componentes, mas é preciso cuidado. “A gente tem vários de grandes sambas que não passaram bem na Marquês de Sapucaí no dia do desfile. Foram grandes sambas no CD, durante o pré carnaval e no carnaval não passou bem. Não adianta nada o carro de som ter um bom desempenho se a comunidade não cantar o samba, então, é um divisor de águas. Se a comunidade não cantar, o samba vai passar frio na avenida”, disse.

 

 

Cuidados especiais

Para o dia do desfile, tanto os mais acostumados com o grupo especial como os novatos, apostam em boas horas de sono nos momentos que antecedem à apresentação. “É muito descanso. Procuro me desligar. Faço as minhas orações. Acho que é assim que a gente consegue chegar na hora preparado”, contou Marquinhos.

A alimentação também é uma preocupação antes do desfile. “Procuro me alimentar bem, com comidas saudáveis. Nada que possa dar um problema digestivo”, disse o veterano Ciganerey. Depois de desfilar por sete anos como cantor auxiliar de Luizito, que morreu no ano passado, Ciganerey será o intérprete oficial da Mangueira e lembrou que o posto é uma função de respeito. “Assumi o microfone número um, em uma posição em que já tivemos Jamelão e tínhamos um cantor consagrado, que ganhou um prêmio como melhor intérprete do ano em 2015, então, a responsabilidade é muito grande de manter o nível no alto”.

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