segunda-feira, 18 de Janeiro de 2016 12:18h Agência Brasil

Luta e protagonismo de mulheres é tema de programação cultural em SP

As mulheres e suas questões, tanto na sociedade como na arte, são o foco da programação Arte – Substantivo Feminino, que começou na última sexta-feira (15)

As mulheres e suas questões, tanto na sociedade como na arte, são o foco da programação Arte – Substantivo Feminino, que começou na última sexta-feira (15), no Sesc Belenzinho, capital paulista, e segue até o mês de abril, com espetáculos de teatro, debates e oficinas. O projeto apresenta situações de luta, opressão e protagonismo da mulher por meio de diferentes linguagens.

 

 

A estreia da peça teatral Guerrilheiras ou para a Terra não há Desaparecidos, da diretora Georgette Fadel, abriu o evento ontem (15), apresentando os acontecimentos da Guerrilha do Araguaia, ocorrida na região amazônica no período de 1967 a 1974, durante a ditadura militar. O conflito armado resultou na morte de doze mulheres. Sobre o tema, haverá debates com a diretora do espetáculo.

Um dos objetivos do trabalho é mostrar o que significa ser mulher numa guerrilha e, para além disso, apresentar a mulher como porta-voz de grandes conflitos. A idealizadora e atriz da peça, Gabriela Carneiro da Cunha, disse que historicamente é possível perceber que aqueles que contam as histórias de conflitos são homens na maioria. “Na peça, quisemos dar o primeiro plano para as mulheres para que elas pudessem nos contar o que foi esse conflito armado, o que foi viver no meio da selva amazônica e passar nove meses sozinha e perdida no meio da selva”, explicou.

 

A perspectiva da mulher na Guerrilha do Araguaia permitiu que o grupo revelasse histórias que não existiriam em um recorte masculino. Um exemplo disso é a história das guerrilheiras responsáveis por partos de mulheres moradoras da região. “As mulheres sofriam muito nesse momento [do parto] porque a assistência médica lá era precária e muitas das guerrilheiras foram responsáveis pelos partos e conseguiram manter as mães e seus bebês vivos”, contou a idealizadora da peça.

 

 

Durante o processo de pesquisa para a redação da peça, camponesas da região onde ocorreu a guerrilha disseram que as guerrilheiras as ensinaram o que era o direito da mulher. “Tivemos contato com mulheres que viveram um processo de empoderamento enorme a partir do contato com essas guerrilheiras vindas das grandes cidades”, disse Cunha.

 

Ainda no teatro, o projeto Arte – Substantivo Feminino apresenta o espetáculo Carne, da Kiwi Companhia de Teatro, que é inspirado no teatro documentário e mostra um panorama da opressão de gênero e situações de violência contras as mulheres no Brasil. A estrreia será no dia 26 de fevereiro. “[O trabalho] foi feito a partir das técnicas do teatro documentário, utilizadas há muitos anos pela companhia. Isso significa que, para o trabalho cênico, usamos material e documentos da realidade”, explicou Fernanda Azevedo, atriz e pesquisadora da companhia.

 

Para ela, é importante discutir não só o papel das mulheres, mas as diversas violências que sofrem na sociedade atual. A peça trata ainda das relações entre patriarcado e capitalismo e como isso se reflete na questão da mulher. “A opressão das mulheres, o patriarcado são anteriores ao capitalismo, mas [a peça vai discutir] como isso ganha uma nova forma depois da ascensão do sistema capitalista”, acrescentou. Além disso, o espetáculo conta com músicas e projeção de vídeo, o que torna o trabalho mais dinâmico e atraente, segundo a atriz.

 

Fernanda destaca a importância de um projeto como o Arte – Substantivo Feminino porque acredita que as mulheres sempre estiveram à margem da história e também da cultura. Grandes escritoras, artistas plásticas, do século XIX para trás, ficaram apagadas e esquecidas na história, segundo ela.

 

“Nas últimas décadas, algumas delas começaram a despontar. E elas despontam não porque de repente elas aparecem, mas porque elas vêm de uma série de influências de outras mulheres que antigamente não apareciam”, explicou. “A arte não pode ter o olhar de só uma parte da população mundial e as mulheres estão produzindo pensamento há muitos anos”, completou a atriz.

 

A programação de espetáculos, oficinas e debates está no site do Sesc Belenzinho

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