quinta-feira, 28 de Janeiro de 2016 11:53h Secretária de Cultura de Minas Gerias

Mostra ‘Universo Pulsante da Blaxploitation’ reúne filmes dedicados à inserção e à visibilidade da cultura negra no cinema

Serão exibidas 22 obras sobre o movimento norte-americano da década de 1970 que abordou temas como violência, sexo e protagonismo negro nas telas

Celebrar a própria identidade e se colocar como protagonista da indústria cinematográfica. Esse é o mote dos filmes produzidos pelo movimento Blaxploitation, estilo que fez sucesso nos Estados Unidos na década de 1970, revelando um cinema feito majoritariamente por negros e direcionado a um público negro, que revelou grandes nomes do cinema. O Cine Humberto Mauro resgata esse importante momento cultural durante a mostra Universo Pulsante da Blaxploitation, um recorte que reúne obras icônicas como Sweet Sweetback's Baadasssss Song (1971), Shaft (1971) e Foxy Brown (1974).

 

 

Apesar de controverso, o movimento remete a uma apropriação do dispositivo cinematográfico, como forma de inserção e visibilidade, como explica o gerente de cinema da Fundação Clóvis Salgado e curador da mostra, Philipe Ratton. Para ele, a principal motivação de atores, diretores e produtores da época era reivindicar o espaço do negro dentro e fora das telas. “Havia um sentimento profundo de pertencimento e afirmação. Aqueles que estavam envolvidos na produção desses filmes, assim como o público, gostariam de se ver como protagonistas, de ver sua cultura, seus anseios e questões, pulsando na tela do cinema”, destaca.

 

 

Serão exibidos 22 filmes em formato digital e que marcaram a década de atividades da Blaxploitation. Entre os títulos selecionados pela curadoria da mostra, destaque para Sweet Sweetback's Baadasssss Song (1971), de Melvin Van Peebles, e considerado o precursor do gênero; O Chefão de Nova York (1973) e Inferno no Harlem (1973), de Larry Cohen; Mandingo - O Fruto da Vingança (1975), dirigido por Richard Fleischer; Coffy: Em Busca da Vingança (1973), de Jack Hill; e o único documentário da mostra, Wattstax (1973). Dirigido por Mel Stuart, a obra narra a história do festival de música de mesmo nome realizado em Los Angeles, em 1972, e que é considerado o Woodstock Negro.

 

 

A origem do estilo se confunde com acontecimentos que transformaram a sociedade norte-americana na segunda metade do século XX. Após o movimento migratório dos afro-americanos do sul, fugindo da onda segregacionista que a região ainda vivia, muitos passaram a morar em comunidades das grandes cidades do norte dos EUA. Com esse êxodo, surgiram os guetos que abrigavam uma pulsante manifestação cultural e étnica da sociedade americana e que, em pouco tempo, seriam inspiração para muitos roteiristas e diretores.

 

 

Sexo, violência e outros elementos – Para refletir a cultura negra nas telas do cinema, os diretores usaram uma série de recursos que conquistaram audiências ao redor do mundo, aponta Philipe Ratton. A maioria das produções era de baixo orçamento, esbarrando nos filmes Lado B da época. A exploração da violência barata estava presente em quase todas as obras, assim como o apelo sexual dos atores e atrizes que protagonizavam os filmes. Também houve espaço para a produção de paródias, com Blácula, o Vampiro Negro (1972) e Os Gritos de Blácula (1973).

A própria imagem do herói, na Blaxploitation, foge à regra e retrata um protagonista menos maniqueísta, sempre duvidoso em relação às regras e leis estabelecidas. Os filmes conseguiram inverter os valores e inserir o negro em uma realidade que, até então, ele não havia tido oportunidade de vivenciar. “Atores negros começam a interpretar gângsteres calcados na estética dos chefões da máfia italiana, agentes especiais, heróis que reagiam à violência de policiais brancos e tantas outras personagens. Era um momento de abertura do cinema e as produções Blaxploitation se aproveitaram deste momento”, afirma Philipe Ratton.

Outra característica marcante é que, nos filmes, as instituições de ordem não são confiáveis, já que elas demonstram total desinteresse pelos problemas das comunidades negras. E caberia aos próprios membros do grupo resolver essas questões.

Uma nova safra de ídolos – Responsável por dar mais visibilidade aos negros no cinema, a Blaxploitation também revelou uma série de atores e diretores que, posteriormente, se tornariam grandes ícones da cultura pop. Pam Grier e Tamara Dobson representam a síntese das divas do cinema Blaxploitation. Ambas conquistaram uma série de fãs ao protagonizar Foxy Brown (1974) e Cleópatra Jones (1973), respectivamente. O ex-jogador de futebol americano Jim Brown é outro representante desse movimento e também protagonizou diversas obras. Nos bastidores, o maior exemplo é Gordon Parks, diretor de Shaft (1972) e primeiro negro a assinar a direção de um filme com um grande estúdio.

Influências para o cinema – Além de abrir espaço para um novo campo aos negros no cinema, a Blaxploitation inspirou uma série de diretores. A filmografia de Quentin Tarantino, por exemplo, possui uma série de referências ao movimento. A mais clara delas está no filme Jackie Brown (1997), que traz todo o clima da Blaxploitation ao colocar Pam Grier no papel principal da trama. O mais recente exemplo do diretor é Django Livre (2012), uma mistura de faroeste, escravidão e vingança.

© 2009-2016. Todos direitos reservados a Gazeta do Oeste. Este material não pode ser publicado, transmitido por broadcast, reescrito ou redistribuído sem autorização.