terça-feira, 15 de Março de 2016 13:17h Agência Minas

Quase cinco décadas de arte no Grande Teatro do Palácio das Artes

Aniversário de 45 anos de um dos mais importantes palcos no estado é comemorado nesta semana

‘Macunaíma’ marcou pela exuberância da montagem teatral, do dramaturgo Antunes Filho; Milton Nascimento e Som Imaginário, grupo formado nos anos 70 para acompanhar Bituca, emocionou a plateia com o espetáculo ‘Milagre dos Peixes’. Em ‘Missa do Orfanato’, do Grupo Corpo, o bailarino e coreógrafo Rodrigo Pederneiras encantou olhares com seus intensos e fluidos movimentos, elaborados a partir de música do austríaco Wolfgang Amadeus Mozart (1756-1791), a voz única de Elis Regina, por sua vez, embalou a viagem pelo ‘Transversal do Tempo’ e 'Trem Azul', álbuns lançados em 1978 e 1982. Ao som do seu bandoneon, Piazzola recriou o tango argentino, Madredeus emocionou com as vozes de além mar e Sebastião Salgado trouxe imagens para eternizar um mundo de luz e sombras.

 

 

Artistas célebres, milhares de atores, cantores, músicos, maestros, poetas, bailarinos, fotógrafos, diretores, escritores, artistas plásticos, técnicos e, claro, o respeitável público, fazem a história do Grande Teatro do Palácio das Artes, da Fundação Clóvis Salgado (FCS), estrela maior que, em 2016, completa 45 anos de trajetória.

Parte integrante de um recém inaugurado Palácio das Artes, o Grande Teatro foi o segundo espaço entregue ao público, um ano após a Grande Galeria, e se tornou um dos equipamentos mais notáveis, por abrigar toda a diversidade da cultura mineira. O tão sonhado Grande Teatro foi entregue à população no dia 14 de março de 1971.

 

 

 

Considerado um dos maiores do Brasil por suas excepcionais dimensões, o palco possui 18,80 metros de profundidade, do proscênio ao ciclorama, e uma boca de cena com 18 metros de largura por 7 metros de altura. O Grande Teatro consolidou-se como o principal espaço para shows e espetáculos em Belo Horizonte a partir de suas características peculiares: palco italiano, fosso para orquestra com capacidade para até 80 músicos e elevadores, que lhe conferem grande versatilidade para espetáculos de dança, teatro, música e importantes eventos de literatura.

Do início das obras do Grande Teatro do Palácio das Artes, em 1940, até a inauguração, em 1971, foram 30 anos de espera para que o público pudesse frequentar um dos mais importantes espaços voltados a circulação da arte em Minas Gerais. Para marcar a festiva celebração, foi executado O Messias, de Haendel, sob regência de Isaac Karabtchevsky, com participação da Orquestra Sinfônica Nacional e do Coro da Associação de Canto Coral do Rio de Janeiro.

 

 

 

Os 45 anos de trajetória inspiraram programação especial centrada numa série de apresentações. De acordo com o presidente da Fundação Clóvis Salgado, Augusto Nunes-Filho, a programação foi elaborada de forma a dar destaque aos artistas mineiros com projeção internacional que por aqui se apresentaram e têm o Grande Teatro como marco significativo em suas carreiras. Também foi definida série de espetáculos a preços populares, além do encontro com Adélia Prado, que será gratuito.

“Foi com grande alegria que elaboramos esta comemoração com belos espetáculos e uma exposição contando a história desse espaço tão estimado pelo público”.

 

 


Celebração

A ‘Semana Comemorativa’, aberta na segunda-feira (14/3) com o Grupo Corpo, apresentou dois espetáculos criados por Rodrigo Pederneiras: Onqotô e Parabelo. A perplexidade e a inexorável pequeneza do homem diante da vastidão do universo é o tema central de Onqotô, balé. Assinada por Caetano Veloso e José Miguel Wisnik, a trilha sonora tem como ponto de partida uma bem-humorada discussão sobre a “paternidade” do Universo. O figurino é assinado por Freusa Zechmeister e a iluminação é de Paulo Pederneiras.

Em Parabelo, a inspiração sertaneja e a transpiração pra lá de contemporânea da trilha composta por Tom Zé e José Miguel Wisnik, de 1997, permitiram ao coreógrafo do Grupo Corpo dar vida àquela que ele mesmo define como a “a mais brasileira e regional” de suas criações.

 

Nesta terça-feira (15/3), o Coral Lírico de Minas Gerais, sob regência de seu maestro Titular, Lincoln Andrade, apresenta Carmina Burana, obra coral baseada em poemas profanos e musicados pelo compositor Carl Orff. Esta que é a obra mais popular e conhecida do artista em todo o mundo, será executada com participação dos solistas Maíra Lautert (soprano), Jean Nardoto (tenor) e Eduardo Sant’Anna (baixo-barítono). Já o acompanhamento musical será feito pelo Grupo de Percussão da Escola de Música da UFMG e pelos pianistas Islei Correa e Wagner Sander.

Na quarta-feira (16/3), é a vez da literatura. O 'Projeto Sempre Um Papo', que comemora 30 anos, participa da festa recebendo a escritora e poeta mineira Adélia Prado, que conversará com o público e lançará sua 'Poesia Reunida'.

 

Com teatro e show e participação especial do Pato Fu, na quinta-feira (17/3), o Grupo Giramundo faz estreia nacional de 'Alice Live', baseado na obra de Lewis Carrol Aventuras de Alice no País das Maravilhas, com performance de bonecos e trilha sonora ao vivo.

Para encerrar a semana, a Fundação Clóvis Salgado preparou uma exposição sobre os 45 anos do Grande Teatro, composta por fotografias desde a construção do teatro até as atuais. Além de imagens em vídeo e gravações raras, a exposição vai lembrar também os principais artistas nacionais e internacionais que passaram pelo grande palco. A mostra acontecerá na CâmeraSete – Casa da Fotografia de Minas Gerais.

 

 

Infraestrutura

A Fundação Clóvis Salgado investiu no ano de 2015 em obras de infraestrutura para melhorias do seu complexo cultural. Uma delas, a mais aguardada, por se tratar da materialização de uma das mais antigas reinvindicações dos frequentadores do Palácio das Artes, é a disponibilização de 16 novos banheiros destinados aos usuários masculinos e femininos do Grande Teatro, dobrando-se, assim, a oferta de toaletes aos seus frequentadores.

O local escolhido é o antigo depósito do Espaço Mari’Stella Tristão, viabilizado por meio da reativação da escada de acesso ao pavimento inferior. O local foi totalmente reformado e ganhou uma grande parede dividindo os ambientes. De um lado ficarão os banheiros e, do outro, as obras de arte do Espaço Mari’Stella Tristão.

 

 

 

História, arte e emoção

Para entender melhor os muitos atos dessa história, é preciso voltar no tempo, mais exatamente à década de 1940, quando os ares modernistas sopravam sobre BH. Após 30 anos desde que foram iniciadas as intervenções, a população de Minas Gerais finalmente foi presenteada com a inauguração do Grande Teatro do Palácio das Artes, idealizado para atender à demanda de um estado carente de espaços culturais para grandes espetáculos.

A história do Grande Teatro começa quando Juscelino Kubitschek, além do complexo arquitetônico da Pampulha, propõe mais uma grande e ousada obra para Belo Horizonte. O projeto de um novo teatro, concebido por Oscar Niemeyer, iria substituir o antigo teatro da rua Goiás – restaurado e transformado em cinema – e previa um edifício com acesso pelo Parque Municipal ligado à avenida Afonso Pena por uma passarela de concreto.

 

 

Por motivos diversos, as obras foram paralisadas em 1945. Com poucas tentativas de conclusão e nove prefeitos após JK, o projeto elaborado por Niemeyer foi reformulado e redimensionado pelo arquiteto Hélio Ferreira Pinto, em 1955. Esse novo projeto deslocou o acesso para a avenida Afonso Pena por meio das galerias que foram incorporadas ao programa inicial.

Uma das principais preocupações de Peri Rocha França, indicado pelo governador Israel Pinheiro para presidir a Comissão Especial do Palácio das Artes, criada para acompanhar as obras do complexo cultural, era dar condições de acústica perfeita ao Grande Teatro, isolando-o de todo som externo. Assim, os projetos acústicos ficaram sob responsabilidade do técnico russo Igor Sresnewsyk e os cenotécnicos a cargo do especialista Aldo Calvo, italiano radicado no Brasil.

 

 

 

Para os serviços de iluminação e efeitos especiais, foi convocado o grupo japonês Toshiba – o mesmo que projetou o Teatro Imperial Japonês – que esteve em Belo Horizonte, em janeiro de 1969, para realizar os projetos que fizeram do Grande Teatro do Palácio das Artes um dos mais modernos do mundo e o primeiro da América Latina a possuir o aparelhamento mais avançado da época.

Para marcar a festiva celebração, foi executado 'O Messias', de Haendel, sob regência de Isaac Karabtchevsky, com participação da Orquestra Sinfônica Nacional e do Coro da Associação de Canto Coral do Rio de Janeiro.

 

 

Foi esse primeiro concerto que inundou de emoção e magia o Grande Teatro do Palácio das Artes, misteriosa alquimia que une artistas e público assim que se abrem as cortinas e que mantém, ainda hoje, o charme e o diferencial de ser o palco mais representativo de Minas Gerais.

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