quarta-feira, 27 de Abril de 2016 13:01h Atualizado em 28 de Abril de 2016 às 12:05h. Secretária de Cultura de Minas Gerias

Zona da Mata inaugura equipamentos e artefatos culturais no próximo final de semana

A abertura de dois cineclubes e a instalação de um novo cruzeiro de martírio movimentam a semana na região, que também recebe rodada do Fórum Técnico do Plano Estadual de Cultura

O poder de mobilização dos Fóruns Técnicos do Plano Estadual de Cultura, que percorrem todo o Estado de Minas Gerais desde fevereiro, chega a Zona da Mata na primeira semana de maio. No final de semana que antecede o encontro, a região começa a ser agraciada com boas novidades no ramo da cultura: as inaugurações de dois cineclubes e também a instalação de um cruzeiro de martírio - artefato cultural que tradicionalmente marca os cumes das montanhas mineiras. As atividades contam com a presença do secretário de Estado de Cultura, Angelo Oswaldo.

No sábado (30), dia em que é celebrado o aniversário do cineasta Humberto Mauro, acontece a inauguração dos cineclubes Cinemação e Stella Perez Botelho, ambos na cidade de Cataguases. Um dos principais nomes da história do cinema nacional, Humberto Mauro morou na cidade mineira quando criança. No mesmo dia acontece em Sobral Pinto, distrito de Astolfo Dutra, município vizinho a Cataguases, a instalação do cruzeiro de martírio confeccionado pelo artista e artesão Virgínio Rios, sob coordenação do produtor cultural Pedro Marcos. O local abriga a antiga colônia italiana de Santa Maria.

 

 

 

A REDE DE CINECLUBES

Os dois cineclubes a serem inaugurados fazem parte de uma rede de 12 espaços de exibição, que integram o Projeto Escola Animada - Edição Ver e Fazer Filmes. Os primeiros a serem entregues ao público são o Cineclube Cinemação, na Escola Estadual Marieta Soares Teixeira, e o Cineclube Stella Perez Botelho, no Museu Energisa. As atividades voltadas para aplicação do audiovisual e das tecnologias digitais nos processos de ensino e aprendizagem se prolongam durante todo o final de semana.

A articulação da nova rede de cineclubes surge da participação de coletivos de professores, estudantes e agentes culturais locais em oficinas de capacitação para a gestão de cineclubes e curadorias de filmes.

 

 

 

O projeto é coordenado pelo Instituto Fábrica do Futuro, em parceria com a Fundação Cultural Ormeo Junqueira Botelho e o Polo Audiovisual da Zona da Mata. “A rede de cineclubes em escolas e centros culturais é a nossa principal ação na busca de relacionar em várias dimensões a cultura e a educação”, conta Cesar Piva, diretor executivo da Agência do Polo Audiovisual da Zona da Mata e Presidente do Instituto Fábrica do Futuro.

A inauguração do “Cinemação” conta com a exibição de “A Velha a Fiar”, um dos clássicos do cineasta homenageado, Humberto Mauro. A programação segue com exibição de “O Plano de Peçanha”, uma produção do coletivo Fábrica Animada.

 

 

 

Já no Cineclube Stella Perez Botelho dois documentários do premiado diretor Marcos Pimentel estreiam o espaço: “A Arquitetura do Corpo” e “Sanã”. No dia seguinte acontece a exibição de “A Noiva da Cidade”, último roteiro de Humberto Mauro, cuja restauração da película, feita por André Borges, foi possível graças ao incentivo do programa Filme em Minas, da Secretaria de Estado de Cultura.

A homenageada que nomeia o Cineclube Stella Perez Botelho estará presente ao lado de sua filha Mônica Botelho, presidente da Fundação Cultural Ormeo Junqueira Botelho, grande apoiadora do desenvolvimento do audiovisual em Cataguases.

Clique aqui e confira a programação completa do Projeto Escola Animada, que conta ainda com a participação da Secretária de Estado de Educação, Macaé Evaristo.

 

 

 

O CRUZEIRO

O novo cruzeiro de martírio irá compor a paisagem montanhosa da Zona da Mata. Um cortejo conduzido pela Charola marca sua instalação, cuja festa continua noite adentro com a apresentação de Oswaldinho do Acordeon, entre outros músicos.

A festa é repleta de simbologia e funciona como uma espécie de narrativa visual do suplício na cruz, segundo explica o secretário Angelo Oswaldo. “Os instrumentos são habilmente confeccionados em madeira, representando, entre outros, a tabuleta com a inscrição INRI (Jesus Nazareno Rei dos Judeus), a coroa de espinhos, o galo que marcou a traição de Pedro, os cravos, o chicote, o martelo, a torquês, as lanças, a escada, o sudário, os dados do sorteio do manto, o cálice, a esponja de fel, o saco de moedas dado a Judas e uma caveira, a vanitas, que simboliza a vanidade da vida”. 

Leia, na íntegra, o texto do Secretário Angelo Oswaldo sobre a inauguração do cruzeiro às vésperas do dia 3 de maio, quando várias cidades históricas de Minas Gerais celebrarem o dia da Santa Cruz.

 

 

 

Um cruzeiro nos altos da Mata

Angelo Oswaldo de Araújo Santos

Secretário de Estado de Cultura de Minas Gerais

O viajante inglês Richard Burton, um dos descobridores das nascentes do Nilo, tomou de Minas a estrada, em 1867, para conhecer Morro Velho, a fabulosa mina de ouro explorada por seus patrícios da St.John del-Rey Mining Company. No relato da viagem, publicado em Londres, ele diz que, no Brasil colonial, bastava erguer-se um cruzeiro no topo de um morro para se fundar uma cidade. Os cumes da montanha mineira acolheram, desde a chegada das primeiras bandeiras e do alvorecer do ciclo do ouro, o cruzeiro que sugere bênçãos e proteção para os que passam e os que ficam. Cruz que traduz a convergência de pessoas que se instalariam em fazendas ou iriam criar um aglomerado urbano.

Foi assim que, de fato, nasceram muitas cidades, como as pioneiras Mariana (1696) e Ouro Preto (1698), cuja fundação se assinalou com a celebração de missas ao pé de cruzes levantadas, respectivamente, na praia do Ribeirão do Carmo e no topo do Morro de São João do Ouro Fino. Congonhas do Campo cresceu ao redor da cruz fincada no alto do Morro do Maranhão pelo eremita Feliciano Mendes, dando origem ao santuário do Bom Jesus de Matosinhos, patrimônio da humanidade.

 

 

 

Os cruzeiros passaram a ser ornamentados e a maioria deles recebeu os martírios da paixão de Cristo, quase uma espécie de narrativa visual do suplício na cruz. Os instrumentos são habilmente confeccionados em madeira, representando, entre outros, a tabuleta com a inscrição INRI (Jesus Nazareno Rei dos Judeus), a coroa de espinhos, o galo que marcou a traição de Pedro, os cravos, o chicote, o martelo, a torquês, as lanças, a escada, o sudário, os dados do sorteio do manto, o cálice, a esponja de fel, o saco de moedas dado a Judas e uma caveira, a vanitas, que simboliza a vanidade da vida.  

Na Zona da Mata mineira, em Glória de Cataguases, o artista e artesão Virgínio Rios divide seu tempo entre o ofício da madeira e as crônicas que escreve para o “Cataguases”, tradicional jornal da cidade. A maior parte de seus trabalhos atuais representa um monte sobre o qual está o cruzeiro, encimado pelo galo. É que a grande paixão de Virgínio Rios são os cruzeiros imensos, dominando a paisagem montanhosa da Mata. Ele acaba de fazer os martírios para o cruzeiro que vai ser erguido, dia 30 de abril, na antiga colônia italiana de Santa Maria, em Sobral Pinto, município de Astolfo Dutra, nas proximidades de Cataguases, no curso do legendário Rio Pomba.

 

 

 

Entusiasta dos cruzeiros de martírios, o produtor cultural Pedro Marcos coordena a confecção dos madeiros, e é em clima de festa que tudo transcorre. O sonho dele é fazer ou restaurar os cruzeiros na rota dos fogos (povoados) surgidos durante a penetração dos Sertões de Leste, que até a Independência eram as Áreas Proibidas, de modo a se evitar o contrabando de ouro pelo Espírito Santo. Pedro Marcos pensa numa sequência entre o antigo arraial do Rio da Pomba e Peixe do Padre Manuel de Jesus Maria (o Aleijadinho ali trabalhou na primitiva igreja de São Manuel) e Guidoval, onde viveu o desbravador Guido Marlière, às margens do rio Xopotó.

Às 17h do dia 30, sai o cortejo conduzido pela Charola, entoando músicas até o local do cruzeiro. Um padre procede à bênção do santo lenho, e entre músicas e fogos o povo aplaude o levantamento da cruz. Em seguida, tudo vira festa, com apresentação de Oswaldinho do Acordeon e vários músicos, noite adentro. Pedro Marcos já se emociona.

 

 

 

Virgínio Rios está feliz. Mais um cruzeiro aparecerá no horizonte da Mata mineira, ostentando os martírios que saíram de sua oficina. E em 3 de maio, quando várias cidades históricas de Minas Gerais celebrarem o dia da Santa Cruz, enfeitando com flores as cruzes de pedra de seus chafarizes e pontes, o artista estará em casa, no Glória de Cataguases, a preparar mais uma leva de martírios de cruzeiro para as celebrações do ano que vem.

 

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