segunda-feira, 11 de Novembro de 2013 10:34h

Aluna das Artes Aplicadas compartilha experiência na China

No romance Mongólia, de Bernardo Carvalho, um dos personagens, tentando desesperadamente compreender o estado das coisas e da cultura numa cidade tão desconhecida quanto Pequim, escreve em seu diário: “Os artistas chineses oscilam entre o academicismo e o

No romance Mongólia, de Bernardo Carvalho, um dos personagens, tentando desesperadamente compreender o estado das coisas e da cultura numa cidade tão desconhecida quanto Pequim, escreve em seu diário: “Os artistas chineses oscilam entre o academicismo e o pastiche, o mimetismo da arte ocidental. Como não houve realismo, não conseguem entender o que há por trás da ruptura da arte moderna. Foram educados para fazer bem um ofício, mas não para refletir sobre esse ofício e transformá-lo.”

Em que pese o tom provocador desta caricatura etnocêntrica que o estrangeiro se esforçava por impor à China, ele próprio reconhecia que neste país “nada é simples. O caminho do sentido na China é tortuoso.” Para a ceramista Bárbara Anderáos, aluna do curso de Artes Aplicadas da UFSJ, tortuosos foram os caminhos para se chegar à Província de Shandong, onde era uma das três brasileiras presentes ao Simpósio Internacional Macsabal de Queima a Lenha de Zibo 2013.

Bárbara viajou com recursos repassados pelo Programa de Intercâmbio e Difusão Cultural do Ministério da Cultura, ao qual se habilitou por meio de concorrência nacional. “Foi um privilégio poder estar presente a este evento, que me permitiu estudar mais profundamente a cerâmica em todos os seus aspectos, não só artísticos, mas também técnicos”, declara a artista, que tem formação em Educação Artística desde 2003, e resolveu “polir” sua paixão pela cerâmica “encarando mais uma graduação.”

De volta à Academia, Bárbara, sempre atenta às oportunidades de intercâmbio, participou, em 2010 e 2011, do 1º e do 2º Encontro Internacional de Ceramistas na USP, trabalhando como assistente e tradutora voluntária. Em meio a artistas do mundo inteiro, conheceu a argentina Vilma Villaverde, responsável por organizar o grupo de ceramistas da América Latina que iria a Zibo este ano. O Simpósio Internacional Macsabal de Queima a Lenha foi criado pelo ceramista coreano Kim Yongmoon em 2011. Anual, já teve edições na Coréia do Sul e na Turquia. O evento reúne artistas dos quatro continentes, que produzem peças em argila, queimadas coletivamente em forno tradicional a lenha, comum no Oriente. Cada artista viajou com duas peças próprias, que foram doadas a museus chineses, e visitaram feiras de cerâmica e ateliês locais. As peças produzidas pelos 40 ceramistas de todo o mundo reunidos em Zibo durante o Simpósio foram expostas em coletiva.

Contrapartida

Consciente da necessidade de compartilhar a experiência vivida entre artistas de tradição milenar, Bárbara vai falar aos colegas de curso, a artistas locais e a quem mais se interessar pela arte cerâmica nesta terça-feira, 11 de novembro, a partir das 19h, no Laboratório Escola de Cerâmica (Campus Tancredo Neves), do qual é monitora. Além da palestra, está agendada oficina de cerâmica no Fortim dos Emboabas dias 9 e 16 deste mês (leia matéria neste site).

Da conversa com Bárbara, percebe-se que o personagem de Bernardo Carvalho foi extremamente severo ao julgar os artistas chineses. Se nada é simples, pode ser desconstruído, ressignificado, apropriado e transformado. Mesmo que por vias tortuosas.

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