terça-feira, 19 de Maio de 2015 11:48h Atualizado em 19 de Maio de 2015 às 11:51h. Mariana Gonçalves

Caminhada inicia ações da Luta Antimanicomial em Divinópolis

A comemoração da Luta Antimanicomial marca as mudanças fundamentais na assistência ao portador de sofrimento mental após a Reforma Psiquiátrica

A Secretaria Municipal de Saúde de Divinópolis (Semusa), por meio da Diretoria de Saúde Mental e de Atenção Primária, realizou uma caminhada que saiu do Sersam com destino à Praça Benedito Valadares (próximo ao Santuário de Santo Antônio). De acordo com a diretora de Saúde Mental da Semusa, Elzi Aparecida Oliveira Pereira, “a caminhada reforça a iniciativa da reforma psiquiatra brasileira de inserção do portador de sofrimento mental na sociedade, é um momento de reflexão e conscientização da população”, afirma.
Durante todo o percurso, os participantes expuseram faixas e cartazes alusivos ao tema, como também um apitaço. “O objetivo é mobilizar a população para um novo olhar sobre o portador de sofrimento mental. Eles são cidadãos comuns, e como tal merecem ser respeitados e acolhidos pela sociedade. Essa é uma das propostas desta ação”, pontua a diretora de saúde mental.
Ainda dentro da programação elaborada pela Diretoria de Saúde Mental, será realizado um encontro para a educação continuada, que envolverá a equipe do CAPS III/Sersam. O encontro acontece hoje, e terá como tema: “A Saúde Mental sob o Olhar da Literatura”. No dia 21, às 14h, será celebrada uma Missa no Sersam. No dia 22, também às 14h, será realizado um culto e a partir das 15h, ocorrerá uma confraternização.
Também no dia 21, será realizado o ‘Psicologia em Foco’, que vai abordar o tema - “Da Luta Antimanicomial ao Abuso Sexual Infantil: desafios e possibilidades de trabalho”. O evento irá ocorrer às 13h30 na Subsede Centro-Oeste do Conselho Regional de Psicologia. Localizada na Rua Fortaleza, n°. 34/2° Andar, Bairro Bom Pastor.

UNIDADES DE SAÚDE

Assuntos referentes à Luta Antimanicomial também serão discutidos em várias unidades de saúde de Divinópolis. “Vamos ampliar esta discussão com a comunidade através de vários eventos, levando informação e esclarecendo pontos que ainda hoje são motivos de dúvidas. Mais orientada, a população absorve o propósito da Luta, facilitando, assim, as ações inclusivas, que são a maior proposta da Reforma Psiquiátrica. Entendemos que estas ações na atenção primária, mobilizam a discussão com relação aos desafios que precisamos ultrapassar, ou seja, a Reforma Psiquiátrica corre riscos de retrocessos nos seus ideários e precisamos fazer estes esclarecimentos”, argumenta o apoio técnico da Saúde Mental na Atenção Primária, Irene Ferreira do Amaral.


ENTENDA

O Movimento da Luta Antimanicomial, caracteriza-se pela luta dos direitos das pessoas com sofrimento mental. Dentro disso, está o combate da ideia de que se deve isolar a pessoa com sofrimento mental em nome de pretensos tratamentos, ideia baseada apenas nos preconceitos que cercam a doença mental. O Movimento nos propõe a reflexão que como todo cidadão, estas pessoas têm o direito fundamental à liberdade, o direito a viver em sociedade, além do direto a receber cuidado e tratamento sem que, para isto, tenham que abrir mão de seu lugar de cidadãos.
Por esta razão, o Movimento tem como meta, a substituição progressiva dos hospitais psiquiátricos tradicionais por serviços abertos de tratamento e formas de atenção dignas e diversificadas de modo a atender às diferentes formas e momentos em que o sofrimento mental surge e se manifesta. Esta substituição implica na implantação de uma ampla rede de atenção em saúde mental, que deve ser aberta e competente para oferecer atendimento aos problemas de saúde mental da população de todas as faixas etárias e apoio às famílias, promovendo autonomia, descronificação e desinstitucionalização. Além dos serviços de saúde, esta rede de atenção deve se articular a serviços das áreas de ação social, cidadania, cultura, educação, trabalho e renda, etc., além de incluir as ações e recursos diversos da sociedade.
A Luta Antimanicomial teve início em 1987, em continuidade às ações de luta política na área da saúde pública no Brasil por parte de profissionais de saúde, que contribuíram na própria constituição do SUS. Naquele ano, a discussão sobre a possibilidade de uma intervenção social para o problema da saúde mental, especificamente, dos absurdos que aconteciam nos manicômios ganhou relevância, permitindo o surgimento específico deste movimento. Desde então, a participação paritária de usuários de serviços e seus familiares se tornou característica deste movimento. Em 1987, estabeleceu-se o lema do movimento: "Por uma sociedade sem manicômios", e o 18 de maio foi definido como o Dia Nacional da Luta Antimanicomial, data comemorada desde então em todo o país.
O Movimento, embora não tenha se instituído formalmente como pessoa jurídica, conquistou na área da saúde um caráter de forte representatividade e legitimidade, o que se confirma pelo fato de ter obtido três cadeiras na Comissão Intersetorial de Saúde Mental do Conselho Nacional de Saúde, sendo uma para um representante dos usuários, uma para os familiares e uma para um representante do movimento independente da categoria.
Outra conquista importante foi a aprovação, em 2001, da Lei 10.216, de autoria do então deputado, Paulo Delgado, após 12 anos de discussões e resistência dos setores mais retrógrados. Esta lei preconiza a reestruturação da atenção em saúde mental, defende os direitos das pessoas que necessitam de tratamento e propõe a criação de serviços que ofereçam este tratamento sem que isto signifique exclusão da vida social ou perda dos diretos e do lugar de cidadão. Como resultados, temos hoje várias portarias que regulamentam a criação de serviços diversos que, em seu conjunto e desde que implantadas de modo efetivo e suficiente, garantem a atenção necessária e a inclusão social das pessoas com transtornos mentais.

 

Crédito: Mariana Gonçalves

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