quinta-feira, 8 de Outubro de 2015 10:20h Atualizado em 8 de Outubro de 2015 às 10:24h. Lorena Silva

Casos de violência nas escolas apontam para a necessidade de se discutir o problema no município

Ela trabalhava nessa escola há mais de 20 anos. Praticamente a tinha visto ser construída e, como ela mesma definiu, sabia de todos os acertos e desacertos da instituição

No entanto, um episódio fez com que toda sua história com o local fosse bruscamente interrompida: no começo do ano, ela foi ameaçada de morte pelo pai de um de seus alunos e, por medidas de segurança, foi remanejada para outra escola.
Essa é a história de Rosângela Morais Silva, ocorrida em maio deste ano. Segundo a professora, o caso teve início com a reclamação de pais de alunos, que teriam dito à diretora que ela estaria se relacionando com o marido – também funcionário do local – dentro do ambiente escolar. “Fiquei intrigada com aquilo porque era uma mentira. Trabalho nessa escola há mais de 20 anos e a gente mal se cumprimenta lá dentro, justamente para não dar motivos para esse tipo de coisa.”
Se sentindo desrespeitada, Rosângela quis tirar satisfação com os envolvidos, pedindo que os pais fossem à escola para conversar com ela. “Tomou uma dimensão muito grande. À noite, a diretora foi à minha casa, me comunicando que não era para eu ir para a escola mais, porque o pai tinha ido à escola e falado que ia me matar, e eu deveria me dirigir à Semed [Secretaria Municipal de Educação] no outro dia”, relata.

 

 

O QUE FICA
Contra sua vontade, Rosângela se deslocou no dia seguinte para a Secretaria, onde, em uma reunião, a aconselharam que sequer voltasse à escola e mudasse de local de trabalho. “Nesse meio tempo o pai estava na portaria me esperando. Toda hora alguém ia avisar que ele estava alterado e eu amedrontada. Não quiseram deixar eu sair, eu cheguei 7h30 e saí de lá 11h. A partir dessa saída minha vida transformou.”
Desde então, a professora faz tratamento com psiquiatra e precisa tomar medicamentos. “Até a cor e o corte do meu cabelo eu mudei para poder ver se eu tenho um perfil diferente. Eu não durmo às vezes, acordo em pânico, sentindo que alguém está querendo me dar um tiro. Minha indignação é essa: qual a segurança que eu tive? O que fizeram por mim?”.

 

 

UM PROBLEMA, VÁRIOS CONTEXTOS
O que houve com Rosângela não foi um caso isolado em Divinópolis. Muitas vezes abafada, a violência escolar ocorre diariamente, manifestada de diferentes formas. No último mês, inclusive, uma aluna de 18 anos foi detida após agredir uma professora na Escola Estadual Henrique Galvão. A garota teria tido um ataque quando a professora pediu que ela se retirasse da sala de aula por mau comportamento.
A questão esbarra em um grande número de escolas e alunos – são mais de 21 mil estudantes distribuídos nas 34 escolas estaduais, mais de 15 mil nas 55 municipais e mais de 9 mil em escolas privadas. Diante disso, fica difícil entender porque a violência de fato ocorre, já que está envolta em diversos contextos. “A família, a escola e o Estado são todos agentes encarregados de melhorar o relacionamento entre professores e alunos, evitando dessa forma atitudes de violência de ambos os lados e o desgaste nas relações”, opina a secretária de Educação.
Para o presidente da União Estudantil de Divinópolis (UED), João Paulo Barros, o sistema de educação é que está defasado. João afirma que os muros da escola ainda são muito altos, impedindo que haja envolvimento da comunidade – e da família – dentro da escola. “Esses casos de violência têm diversas razões, pelo que a gente percebe. Desde a violência familiar e de outros contextos que fogem dos muros da escola, como também os propiciados pelo sistema escolar, que é muito massacrante para o aluno.”
Para a diretora do Sindicato dos Trabalhadores da Educação Municipal de Divinópolis (Sintemmd), Maria Aparecida de Oliveira, falta apoio material e psicológico aos profissionais. “A localização da escola é relegada a ser a última prioridade do bairro. Os professores lecionam com os alunos, mas há aquela coisa: ‘vou dar a minha aula e ir embora’. Porque a gente não sente que tem um entrosamento do setor público, da comunidade, dos profissionais do magistério e de todos os funcionários para essa proteção.”

 

 

PROTAGONISMO DO ALUNO
Menos evidenciada ainda é a violência que parte do profissional para o aluno. E de acordo com João Paulo, que também é estudante e vê de perto essa situação, ela tem acontecido com frequência. “Às vezes, essa violência não se dá só fisicamente, mas também psicologicamente. Esses dias um menino contou que o professor às vezes os chama de burros, como se fosse natural. Isso não é considerado uma violência?”, questiona.
Para ele, falta abertura de diálogo e, mesmo quando a discussão ocorre, falta dar voz e espaço aos estudantes. “A gente [alunos] pratica a violência e a gente sofre com a violência, porém a gente nunca é ouvido, em ambos os casos. Então existe primeiro esse paradigma, que tem que ser quebrado. Quando se vai discutir as regras da escola, os regimentos escolares, muitas vezes os alunos não estão presentes. Falta desenvolver esse protagonismo.”
Segundo João, uma saída para ampliar esse protagonismo seria incentivar a liderança entre os alunos, com a criação de grêmios estudantis, por exemplo – que é uma das frentes de trabalho da UED. “A gente já sabe e tem pesquisa que comprova isso que, onde tem grêmio estudantil, onde os alunos são mais ativos dentro da escola, a violência escolar diminui. A gente sabe que quando os muros da escola se abaixam, se quebram, a violência diminui”, aponta.

 

 

MANDADOS JUDICIAIS
Apesar de terem o direito ao estudo, alunos que são encaminhados às escolas por mandados judiciais têm sido vistos, por vezes, como um problema à sociedade. “Os maiores envolvidos em violência são aqueles alunos que estão fora da faixa etária, alguns até menores infratores que vão para a escola com mandado judicial. Ameaçam alunos, profissionais e fica todo mundo de pés e mãos atadas”, reclama a diretora de uma escola estadual, que preferiu não ser identificada.
O Promotor da Vara da Infância e Juventude, Carlos José Fortes, rebate a declaração e explica que todo adolescente que tem direito à chamada liberdade assistida, só é encaminhado à escola com uma série de condições – dentre elas estudar, respeitar a família, não praticar outros delitos e ter o acompanhamento de profissionais do Centro de Referência Especializado em Assistência Social (Creas).
“Explicamos ao aluno que estudar é ter frequência absoluta, respeitar seus colegas e seus professores, não haver reclamação da parte dele pela escola. Porque se chegar aqui uma reclamação, ele vai imediatamente ser reconduzido ao centro socioeducativo, ou seja, vai preso”, pontua o promotor. “Agora, o que a escola faz? Recebe esse aluno, ele faz e acontece, ela não comunica [ao juiz], depois que passa um ‘tempão’ manda uma carta para mim dizendo que não suporta mais o aluno e quer providências. Se ela tivesse feito o que é certo, dentro da lei, já teria resolvido o problema no mesmo dia, porque ele vai preso.”

 

 

ESTRATÉGIAS
De forma unânime, todos apontam que uma das saídas para que a violência fosse reduzida é primeiramente abrir o diálogo e ampliar a discussão no município. Para a diretora do Sintemmd, uma possível forma disso acontecer seria construir uma rede de pessoas para discutir e criar estratégias de enfrentamento ao problema.
“E essa rede tem que ter como alvo a família, o que está em torno do adolescente no lugar que ele vive, a formação do professor que está com esse tipo de comunidade. Tem que equipar a escola com material, tem que equipar a escola com recurso humano”, ressalta. Segundo Maria Aparecida, está sendo discutida a possibilidade de realizar uma audiência pública sobre o assunto. “Se essa audiência não acontecer em outubro, acredito que aconteça em novembro para planejar o ano de 2016.”
No caso do Sindicato Único dos Trabalhadores em Educação de Minas Gerais (SindUTE-MG), a coordenadora do departamento de Políticas Sociais, Maria Catarina Vale, explica que o sindicato tem atuado fortemente nessa questão e, recentemente, iniciou uma pesquisa sobre o perfil do trabalhador. “As escolas todas receberam o material, que inclusive tem uma parte dedicada à violência no local de trabalho. Acho que esse é um dos caminhos que o SindUTE está tomando”, diz.
Já a Superintendência Regional de Ensino (SRE) criou desde abril um fórum menor, com o intuito de debater com outros órgãos do município porque a violência tem ocorrido e o que pode ser feito para enfrentá-la. Além da discussão, está sendo elaborada uma cartilha para ser distribuída à comunidade, contendo diretrizes de cada órgão nesse enfrentamento. “Estamos alinhavando todas essas contextualizações, porque não adianta a gente citar nomes e regras para cumprir sem que a gente conheça as realidades. Então estamos colhendo as orientações para fazer essa cartilha”, explica o superintendente, Sílvio Faria Novais. A previsão é que o material esteja pronto no início do próximo ano.
No caso da Semed, Rosemary diz que, com o intuito de coibir a violência e monitorar comportamentos, disponibilizou câmeras de monitoramento para todas as unidades escolares municipais. “Ainda no campo de ações no combate a violência podemos relacionar a Patrulha Escolar,  o Programa Educacional de Resistência às Drogas (Proerd) e o Projeto Família Escola desenvolvido pela Semed.”
 

 

OUTROS CAMINHOS
Português, Matemática, Geografia... Ensinar somente essas disciplinas nas escolas não é suficiente. Uma forma de ampliar o desenvolvimento dos alunos seria inserir cada vez mais arte, cultura e esporte nas escolas. É o que aponta o presidente da UED. “Não temos oficina de dança, teatro e esses espaços culturais e artísticos, de formação, dentro da escola. Onde o aluno pode expressar a sua agressividade, a sua violência, mas de uma forma subjetiva”, argumenta João.

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