quinta-feira, 4 de Agosto de 2016 15:28h Pollyanna Martins

Catadores de recicláveis são retirados à força do lixão

Cerca de 30 catadores foram retirados pela Polícia Militar (PM) quando catavam materiais recicláveis no aterro controlado

POR POLLYANNA MARTINS

pollyanna.martins@gazetaoeste.com.br

 

Catadores de recicláveis foram retirados à força na manhã de ontem (3) do antigo lixão. Cerca de 30 trabalhadores invadiram o local, e foi necessário acionar a Polícia Militar (PM) para retirá-los do aterro controlado. Desde que foi desativado, no final de 2012 e transformado em um aterro controlado, vários catadores ficaram sem trabalho e contam com a ajuda de terceiros para sobreviver. Muitos ainda cobram a criação da Usina de Triagem, prometida com a transformação do lixão, sem saber que na cidade foi criado, em 2011, o Centro Municipal de Triagem. Hélio Fernando Machado é catador há 25 anos e conta que o fechamento do lixão dificultou a sua vida e de vários colegas. De acordo com o catador, o sustento da família é tirado dos papeis, alumínios, plásticos e outros materiais reciclados encontrados no lixão. “Eu não encontro serviço em lugar nenhum. A Prefeitura chegou aqui e falou que ia arrumar em três meses a usina [de triagem] para nós, mas não arrumou nada”, relata.

Conforme Hélio, as doações que recebem não são suficientes para manter a família. Para driblar a falta de dinheiro, o catador e outros colegas sempre vão ao local em busca de materiais recicláveis para vender. O catador afirma que, mesmo juntando muito material, o retorno financeiro é pouco. “Um saco desses, que a gente junta reciclável o dia inteiro, nós vendemos por R$ 10”, informa. Inconformado por ter sido retirado do local de onde tira o sustento da família, Hélio diz que ganha dinheiro honestamente e não tem para onde recorrer. “Eu tenho três filhos, de onde eu vou tirar o sustento deles? Chega à noite, eles pedem um leite e não tem, tem que pedir vizinho. Isso é muito triste para a gente”, lamenta.

Assim como Hélio, Maria Eliana de Souza é catadora há 25 anos, e foi retirada do aterro na manhã de ontem pela Polícia Militar. Segundo Maria, a entrada dos catadores no aterro controlado foi proibida há cinco anos, mas, mesmo assim, ela e alguns colegas voltavam ao local para procurar material reciclável para vender e comida para levar para casa. “A gente reaproveita mantimentos, roupas, sapatos. Nós reaproveitamos de tudo. Muita coisa boa que o povo joga fora, a gente leva para casa, lava e reaproveita”, narra. Conforme a catadora, antes da proibição da entrada no aterro, ela e os colegas tinham uma renda mensal de aproximadamente R$ 1 mil. Com a proibição, o jeito foi contar com a solidariedade de terceiros. “Os outros estavam ajudando a gente com cesta [básica]. Trabalhando poucas horas por dia, com os seguranças tirando a gente daqui toda hora, não tem como tirar muito [dinheiro]”, reclama.

 

LEGISLAÇÃO

 

O inciso cinco, do artigo segundo da Deliberação Normativa COPAM n° 52, de 14 de dezembro de 2001, determina que haja a proibição da permanência de pessoas no local para fins de catação de materiais recicláveis. “devendo o Município criar alternativas técnicas, sanitárias e ambientalmente adequadas para a realização das atividades de triagem de recicláveis, de forma a propiciar a manutenção de renda para as pessoas que sobrevivem dessa atividade, prioritariamente, pela implantação de programa de coleta seletiva em parceria com os catadores”.

De acordo com a Prefeitura de Divinópolis, o Centro de Triagem Municipal fica na Avenida Autorama para atender os catadores, e os materiais com possibilidade de reciclar estão neste espaço. Sem saber que existe o Centro, o catador Warley Cleyton dos Santos cobra do Executivo a Usina de Triagem prometida. “Tirou a gente daqui e prometeram que iriam fazer uma usina para a gente trabalhar dentro de três meses, mas já vai fazer cinco anos que nós estamos sem trabalhar, passando dificuldade dentro de casa”, reclama. Hélio, Maria Eliana e Warley reivindicam o trabalho que lhes foi tirado e era o sustento da família. “A vida inteira eu trabalhei aqui e sustentei a minha família. Ninguém dá trabalho para a gente, nós estamos trabalhando aqui, vem a Polícia e tira a gente daqui”, protesta Warley.

 

OCORRÊNCIA
 

De acordo com o Tenente Welington, a Polícia Militar foi acionada pelos seguranças do aterro controlado durante a manhã, pois cerca de 30 catadores haviam derrubado parte da cerca do local e estavam recolhendo materiais recicláveis. Conforme o Tenente, como a prática é ilegal, foi necessário solicitar a retirada dos catadores do aterro. “Tendo em vista que existe uma determinação do Ministério Público proibindo o serviço dos catadores no aterro controlado, nós fizemos a retirada de todos eles do local”, esclarece. Conforme o Tenente, houve resistência dos trabalhadores no início, porém, após algumas horas de conversas, os catadores deixaram o local. “Eles [os catadores] ficaram um pouco revoltados, mas nós tivemos que cumprir a lei. A princípio houve um pouco de resistência, mas eles acabaram acatando à nossa determinação”, conclui.

 

PREFEITURA

 

Segundo a Prefeitura de Divinópolis, os catadores de reciclados podem procurar a Associação de Catadores de Divinópolis (Ascadi), com a atuação no local do Centro Municipal de Triagem, para se informarem sobre como exercer a profissão em Divinópolis.

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