quinta-feira, 13 de Dezembro de 2012 04:07h Daniel Michelini

Crianças com câncer são transferidas para Belo Horizonte por falta de pediatra

Divinópolis não possui tratamento pediátrico especializado em oncologia, o que faz com que as crianças sejam transferidas para a Santa Casa.

Nos últimos meses, o Hospital São João de Deus, que é o hospital mais requisitado de toda a região centro-oeste, atendendo em algumas áreas, pacientes de mais de 80 cidades, vem enfrentando grave crise financeira. No entanto, a situação está sendo, desde então, estudada pela instituição e pelas autoridades que buscam recursos para que o hospital não seja obrigado a decretar falência.
Muito se fala em diminuição no corpo médico da unidade em diversas áreas. Somente em 2012, a questão do atendimento ortopédico e os leitos neonatais foram postos em xeque, após funcionários confirmarem o déficit no atendimento em ambos os setores. Por mês, eram realizados no HSJD uma média de 1.800 atendimentos na área de ortopedia. Desses pacientes, pelo menos 70 necessitavam de intervenção cirúrgica. Em matéria feita pela reportagem da Gazeta do Oeste no dia 17 de julho, o Deputado Federal Jaime Martins confirmou que a dívida ultrapassava os R$70 milhões. A redução no salário dos médicos é uma medida tomada pela administração para contenção de gastos.
Assim como essas duas áreas, a oncologia também vem sofrendo nos últimos meses. Porém, segundo os profissionais, não é devido apenas à crise financeira vivida pelo HSJD. A oncologista clínica e coordenadora do Hospital do Câncer, Doutora Aline Lauda, fala sobre as perspectivas para o local nos próximos meses: “Resolvendo essa crise e em comum acordo com a Associação de Combate ao Câncer do Centro-Oeste de Minas (ACCCOM), a intenção é de que, nos próximos anos, se estabeleça um centro de tratamento pediátrico aqui na unidade. Isso é a médio prazo”, confirma, ressaltando que tanto a ACCCOM quanto o Hospital do Câncer não deixam de assistir seus pacientes, seja adulto ou criança: “Procuramos parceiros, como a Fundação Sara e a Santa Casa, ambas de Belo Horizonte. Chegou uma demanda pediátrica, o paciente não fica desassistido: ele é imediatamente encaminhado para os parceiros, que recebe qualquer paciente”, afirmou.
Sendo assim, os boatos de que a ACCCOM e o Hospital do Câncer pararam de atender as crianças com câncer não procedem. Segundo Dra. Aline, as duas parcerias são de ampla importância: “Temos todas as parcerias para que nossos pacientes não fiquem desassistidos. A Fundação Sara entra dando suporte para a ACCCOM, como hospedagem, alimentação e outras ajudas. Os tratamentos na Santa Casa são de extrema qualidade. Todos os pacientes recebem 100% de suporte”, garante a médica.
Dra. Aline fala também sobre uma das causas do não atendimento por completo, classificada por ela com uma das principais: “A pediatria foi se especializando nos últimos anos. Uma das coisas que tivemos que decidir é que precisávamos reestruturar algumas áreas, como dermatologia e oncologia, trazendo um oncologista pediátrico para trabalhar aqui.”. A reestruturação citada por ela envolve aparelhagem e corpo médico que, atualmente, está em falta na região, justamente devido à especialização feita nos últimos anos: “Antigamente, um oncologista tratava criança e adulto. Hoje, há a especificação em uma área”, enfatiza.
A oncologista faz questão de dizer que os pacientes são encaminhados para uma das melhores instituições do estado, dando prioridade ao bom atendimento do paciente que dá entrada no Hospital: “Existe uma demanda muito grande para um cuidado especializado. Criança não é um adulto pequeno. Não é só reduzir a dose do remédio e está tudo pronto”, alertou.
Apesar de não oferecer o tratamento, as instituições divinopolitanas praticam o acompanhamento da situação do paciente: “Não fazemos o tratamento, mas damos suporte, como transporte”, exemplifica Dra. Aline.
Outro problema apontado pela oncologista é a formação de uma equipe médica, que seja suficiente para tender toda a demanda, para fazer com que o Hospital tenha condições de oferecer o tratamento completo: “Trazer um oncologista pediátrico a ACCCOM traz com facilidade, mas necessita-se de toda uma equipe, de um corpo clínico. A pediatria atual não nos permite atender toda a demanda. O Hospital do Câncer nunca teve oncologista pediátrico. Por isso, sempre teve a parceria com a Santa Casa”, disse. Os profissionais que atendiam eram oferecidos pelo Hospital São João de Deus: “O HSJD passou por uma crise nesse ano e que graças a Deus está resolvendo. Por questão estratégica, não temos pacientes novos. Eles não são internados aqui em Divinópolis. Até conseguirmos nos organizar, será desta maneira”, reafirma.
Dra. Aline conta como acontece todo o encaminhamento, por exemplo, de um paciente de Divinópolis que recebe o tratamento fora da cidade: “Um pediatra o encaminha para Belo Horizonte, a assistência social da ACCCOM entra em contato com a Fundação Sara e já estreita os lados. O que o paciente necessita aqui na região, nós assistimos. A ACCCOM e o HSJD são parceiros”, conta.
O processo de reestruturação já está sendo feito pelos profissionais das instituições e há expectativa de que, em alguns meses, Divinópolis tenha condições de aplicar o tratamento completo: “Decidimos em comum acordo entre as diretorias da ACCCOM e do HSJD que iríamos reestruturar para voltarmos a atender as crianças. Não é assim que tratamos, temos toda uma especialização. Por causa dessa reestruturação que já estamos fazendo, por enquanto não estamos atendendo”.
Sobre as chances de cura, Dra. Aline enfatiza que uma criança possui uma possibilidade maior do que um adulto: “Mesmo com metástase, há chances de cura”, conta.
Sendo assim, a oncologista resume o trabalho da ACCCOM e tranquiliza os pacientes: “A situação atual é: a ACCCOM nunca vai deixar de assistir seus pacientes, seja criança ou adulto”, concretiza.

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