terça-feira, 17 de Dezembro de 2013 04:46h Amilton Augusto

Dona Oralda completa 90 anos!

A maior carnavalesca de Divinópolis completou 90 anos de vida e a Gazeta do Oeste presta sua homenagem a quem ajudou a escrever a história da nossa cidade.

No último dia 07 de dezembro, Dona Oralda Andrade Rosa, personalidade notável da história de Divinópolis, completou 90 anos de vida.
Dona Oralda é viúva de “Seu Nonô”, carnavalesco responsável pelos anos dourados das festividades em Divinópolis, entre 1945 e 1994. No último sábado (07) ocorreu a festa de aniversário da porta-bandeira que criou raízes em Divinópolis e ajudou a escrever as páginas da história da cidade centenária.
A Gazeta do Oeste foi à simpática casa de Dona Oralda, no bairro Esplanada, para conhecer um pouco da vida de uma mulher de destaque. Ainda em vida, a Matéria Especial presta uma homenagem à esta dama que, entre tantos homens, fez e aconteceu no carnaval divinopolitano.

História
Dona Oralda recebeu esta reportagem em sua casa, em uma tarde tranquila, para nos contar um pouco de sua vida. Já experiente diante das câmeras e das entrevistas, a sambista se apresentou de batom e brincos, com um sorriso largo, alegre e bastante simplicidade: “Pode entrar, já estava esperando vocês. Venha cá, “meu filho”, vai entrando”, nos convidou.
Filha de José Fortunato de Andrade e Maria Eugênia de Andrade, de Entre Rios (MG) e esposa de Antônio Venâncio Rosa, “Seu Nonô”, Dona Oralda Andrade Rosa morava em São João Del Rey, quando aos 20 anos se mudou para Divinópolis, em 1945.
Na cidade colonial seu marido era marceneiro e trabalhava na Mobiliadora Natividade, quando em 1945, apenas 15 dias depois de se casarem, Nonô se mudou com a esposa para Divinópolis para trabalhar na filial da empresa são-joanense. 
“Aqui em Divinópolis já moramos em muitos lugares, éramos conhecidos na cidade toda. O primeiro lugar que moramos, quando chegamos aqui, foi na Rua Itapecerica. De lá pra cá nos mudamos igual cigano, fomos para Rua Minas Gerais, Rua Rio Grande do Sul, Avenida Sete de Setembro, bairro Porto Velho (quando o Nonô abriu a própria mobiliadora) e finalmente viemos para o bairro Esplanada”, conta Dona Oralda.
Cinco anos após se instalarem em Divinópolis, a família abriu seu próprio negócio no bairro Porto Velho, a Mobiliadora Tupy. Ao questionar Maria de Nazaré Rosa, filha de Nonô e Oralda, o motivo da predileção do pai pelo nome indígena, a resposta foi certeira: “Ele gostava muito do nome Tupy porque ele tinha “sangue” de índio. Era descendente de índio e por isso deu o nome à mobiliadora de Tupy. Depois foi o nome da escola de samba. Ele sempre se fantasiava de índio e aparecia montado também em cavalo”, contou a filha.
Mulher de pulso firme e muitas batalhas, Oralda traz consigo uma fé em Deus bastante admirável por seus vizinhos. É benzedeira e ora pelas pessoas que necessitam. “Aprendi a rezar com minha avó, quando ainda era criança. De lá pra cá eu aumentei a minha fé e rezo pelas pessoas que me pedem. Hoje em dia eu estou com dificuldades por causa da idade e da saúde, mas quando é uma criança que precisa de oração eu ainda atendo, porque sinto dó”, explicou a mãe de 11 filhos, cinco ainda vivos, 14 netos e 7 bisnetos.
A cena mais marcante na vida de Dona Oralda, carnavalesca por quase 50 anos, foi o último desfile de seu marido, um dia antes de morrer. “O Nonô nunca deixou de sair um carnaval sequer. Se a prefeitura não ajudava com dinheiro ele mesmo patrocinava, corria atrás dos empresários para ajudar a colocar o carnaval nas ruas de Divinópolis. Em 1994, já bastante debilitado pela diabetes, enfisema pulmonar e um AVC (Acidente Cardio-Vascular), eu e o Nonô vestimos nossas fantasias de carnaval e desfilamos sentados em um sofá, no carro alegórico. No outro dia ele faleceu. Essa cena com certeza é a mais marcante”, emocionou-se.
 
Carnaval em Divinópolis
A ligação do carnaval com Divinópolis remonta antes mesmo da emancipação política da cidade. De acordo com o memorialista e ator Osvaldo André, logo quando a sociedade divinopolitana começou a se organizar em torno da igreja matriz, as casas começaram a surgir, a cidade a tomar forma, os carnavais de rua aconteceram.
No início as pessoas formavam cordões no Largo da Matriz, onde hoje é a Praça da Catedral e desfilavam fantasiadas em ritmo de alegria através da avenida Primeiro de Junho.  A festa sempre foi de iniciativa popular, os próprios moradores do arraial se organizavam de última hora e improvisavam uma comemoração informal, porém bem estruturada.
Com o passar dos tempos o carnaval de rua conquistou a elite da cidade, já emancipada, e ganhou novas formas nos clubes. Conta Osvaldo André que as casas noturnas como a Mocambo e K-Samba, de Ivan Silva, bem como o Divinópolis Clube, foram as primeiras a organizarem os bailes de carnaval.
Com o crescimento e a organização dos bailes em clubes, nos anos de 1960 os blocos começaram a ser formados lá e rapidamente ganharam as ruas. A partir daí começa um novo estilo de carnaval. A festa passa a ser institucionalizada e as escolas de samba se formam para a disputa.
Em 1935, Halim Souki foi escolhido rei Momo da cidade. Vestido como um rei oriental, chegou em um carro da administração, usado pelos diretores da Rede Mineira de Viação. Uma rainha só viria a acompanhar o rei momo muitos anos depois.
Nesta época surgiram várias escolas que marcaram o nome na história: Os Metralhas, Escola de Samba Unidos do Guarani, Monte Líbano, Unidos do Divino, Unidos da Vila, Acadêmicos da Santa Cruz e a mais tradicional de todas, Escola de Samba Tupy, criada pelo lendário carnavalesco seu Nono e sua esposa dona Oralda.
A Escola de Samba Tupy, mais conhecida na época como a “Escola do seu Nonô”, começou no bairro Porto Velho, em 1947, e depois foi transferida para o bairro Esplanada, onde ficou por muitos anos. A Tupy foi a maior escola de samba, possuía grandes carros alegóricos e fazia sol ou chuva, seu Nono e dona Oralda eram presença certa nas ruas durante a festa.
A partir de 1970, o governo de Antônio Martins passou a incentivar o carnaval nas ruas e oficializou-se a disputa entre as escolas. O rei Momo passou a ser Nelson Pelegrino, lançado por Seu Nonô assim como foram lançados também Mestre Ivan Silva e Jorge Miranda. Tio Nelson foi guardião do carnaval da cidade, até sua morte, quando foi substituído por Antônio Mimoso.
Em 45 anos da Escola de Samba Tupy, Seu Nonô e Dona Oralda nunca ficaram um ano sequer de fora da festa. Foram 45 troféus conquistados e exibidos nas estantes da casa da viúva.

Leia Também

Imagem principal

© 2009-2017. Todos direitos reservados a Gazeta do Oeste. Este material não pode ser publicado, transmitido por broadcast, reescrito ou redistribuído sem autorização.