quinta-feira, 31 de Outubro de 2013 08:39h

Maria Cândida

Uma mulher de verdade

Uma mulher de verdade

Qualquer divinopolitano curioso que se preze, mesmo com pressa, ao passar pela rua São Paulo entre as avenidas Antonio Olímpio de Moraes e 21 de Abril já parou para ler o interessante Jornal do Jardim. A autora do jornal é Maria Cândida Guimarães Aguiar (81), figura curiosa, intrigante, inteligente e, diga-se de passagem, muito corajosa. Maria Cândida foi descoberta no mundo da escrita com 15 anos por sua professora de redação no curso de magistério no colégio INSSC. Sua primeira matéria publicada foi a redação de uma prova sobre ciência e a virtude no jornal divinopolitano “1ª Semana”.

Já trabalhou nos jornais “Diário do Oeste”, “1ª Semana”, “Aqui pra nós”, onde atuou também na parte financeira do jornal, e atualmente escreve para o “Jornal Agora” e também o Jornal do Jardim, que é semanal e fica em exposição no jardim de sua casa. Já trabalhou como professora e era feliz, mas como jornalista se sente melhor ainda. Formada em Pedagogia e Filosofia, sente-se pesarosa por não possuir o diploma de Jornalista, embora acredite que não necessite mais.

Nascida no Cercado, antigo nome da cidade de Nova Serrana, e criada em Divinópolis, Maria Cândida se casou com o bancário Juarez Barros de Aguiar. Para acompanhar o marido já morou em Ituiutaba e Formiga. Viúva e mãe de quatro filhos, hoje mora em Divinópolis.

Maria tem uma coleção de corujas trazidas de vários lugares do mundo, umas ganhadas, outras compradas, de todos os tamanhos e formas. Essa foi a forma encontrada por ela para superar e passar por cima do “bullying”, pois tinha o  apelido de “coruja” porque usava óculos, e acredita ter sido a primeira a usar o adereço na cidade. Além disso, ela coleciona folhas secas recolhidas do chão, trazidas de viagens feitas pelo mundo. “É mais fácil de guardar, não ocupa espaço, vira decoração e não tenho com o que me preocupar”, explica.

Maria Cândida adora viajar. Seus passeios preferidos foram Cuba, Peru, França, Alemanha, Espanha, mas a mais emocionante, segundo ela, foi para a Argentina, somente ela e os filhos. É adoradora de teatros, filmes e uma boa música.

Opiniões fortes
Um de seus assuntos preferidos é a política. Acha indispensável a qualquer cultura, mas está longe do ideal – falta o básico, a ética e o conhecimento. Mas ainda resta um pouco de esperança desde que melhore a educação, tanto para o eleitor quanto para o eleito. Cita “O Pequeno Príncipe” para dizer que acredita que “ao tentar modernizar, a educação acabou perdendo o essencial pelo caminho, continua invisível aos olhos despreparados.”

Não acredita em esquerda ou direita na política, e sim que, não sendo selvagens, as partes se completam. Assim como um patrão precisa de um empregado, o empregado também precisa do patrão, eles se interdependem, mas são volúveis. “Por exemplo, a Dilma, guerrilheira da esquerda, se tornou hoje uma autêntica presidente de direita”, pondera.

É religiosa, mas ainda não tem nenhuma doutrina, e gosta de ter sido batizada na Igreja Católica Apostólica Romana. Agora, quando o assunto é futebol, diz não ter aprendido a gostar. Seu pai não gostava, casou-se com um bancário que também não gostava, e assim seguiu a vida, sem sentir falta da bola. “De futebol, só sei que a bola não é quadrada”, brinca.

Ao falar sobre ética, Maria Cândida disse ser um bem desejável nos costumes vigentes da época. Já a cultura, vive-se sem ela, se identificada com o intelectualismo. Quando o assunto é música, foi bem direta: “Deus que me livre viver sem música (risos). Adoro o Chico Buarque, é um de meus favoritos”. Ela cita Noel Rosa, para quem a sabedoria não se compra, não se vende, “é inata, não se aprende na escola.”

Acha a cota para negros um desserviço prestado à etnia negra, que acredita ter sim a capacidade de encarar uma prova para entrar em uma faculdade, sem sequer precisar apelar para sua raça. Segundo ela, nestas condições as mulheres e os gays também mereceriam este “pirulito”, facilitando o ingresso em uma universidade, sem sequer uma responsabilidade.

Para ela, as “bolsas” do governo seriam uma boa pedida caso fossem passageiras, até se tornarem dispensáveis. Mas, ao invés disso, perpetuaram o que é um prejuízo ao país e acabam roubando a dignidade de muitos brasileiros. “A manifestação em São Paulo e agora em todo o país era algo previsível, ela não é por alguns centavos, e sim uma revolta ideológica pelo excesso de gastos com a Copa e com a corrupção”, explica.  

Jornalismo
Ao falar sobre o jornalismo, Maria Cândida não consegue esconder o brilho nos olhos, apesar de desejar que os profissionais fossem mais unidos, pois assim teriam mais representatividade na sociedade. Ela considera lamentável que até hoje não se tenha uma associação da classe na cidade. “Já tentei várias vezes, mas não deu. Hoje trabalho em um jornal que me dá plena liberdade para exercer minha função, por isso trabalho feliz, mesmo sentindo falta da associação”, conta.

Já quando o assunto é a censura, é bem direta: “acho a censura abominável, mas às vezes necessária, dependendo das circunstancias. É bom evitar processos na justiça, afinal são desgastantes e inúteis. Nunca aceitei a censura, mas penso na sobrevivência do jornal. Prudência e caldo de galinha não fazem mal a ninguém”.    

Sem dúvidas, uma pessoa inteligente, sábia e muito espirituosa, Maria Cândida Guimarães não nega e nem esconde de ninguém seu passado. Como diretora financeira de um jornal afiliado a uma rede de Belo Horizonte, o “Aqui pra nós”, teve experiência em um dos jornais mais marcantes da época, pois encarava quem quer que fosse, seja ele político ou não.

Luciene Santos, antiga funcionaria do jornal, se diz muito fã e até hoje não se esquece de cada ensinamento passado pela chefe. Assim como Maria Cândida hoje se diz livre para escrever o que deseja, os funcionários do jornal também tinham essa liberdade. “Conto para meus filhos até hoje histórias que passei ao lado da Maria Cândida. Me sinto muito honrada em dizer que já trabalhei ao lado desta grande mulher, realmente sou fã dela, muito inteligente, esforçada e digna”, conta Luciene. A ex-funcionária guarda consigo até hoje um exemplar do jornal quando saiu sua primeira matéria falando sobre esporte, uma paixão na vida dela. Maria Cândida diz que nunca tinha visto mulher escrevendo sobre futebol, e acreditava que Luciene seria a primeira, pois mostrou entender do assunto e a estar apta a assumir a parte endereçada ao esporte.

Colhendo os frutos
Hoje com nove netos, um deles jornalista, não abre mão da felicidade e de poder desfrutar de tudo o que a vida pode lhe proporcionar. Adora assistir a filmes com os amigos e, por isso, realiza, todas as quintas-feiras, das 15h às 17h, a sessão Cine-Café na sala de sua casa. Ao final do filme todos se juntam para tomar café e comentar sobre o filme. “Quem não tem o que falar, escuta, mas está sempre presente”, diz Maria Cândida.

Está perceptível aos olhos de quem a conhece a felicidade. É uma senhora com a mentalidade jovem e uma saúde e físico de invejar qualquer jovem. Uma legítima mulher guerreira, que corre atrás de tudo que deseja, buscando somente realizar cada dia mais o sonho de todos nós, sermos felizes. Um orgulho!


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Reportagem/perfil produzido em junho de 2013 pela aluna do curso de Jornalismo da Faculdade Pitágoras Divinópolis/MG: Marina Assis (4º Período)
Fotos: Arquivo Pessoal e Arquivo G37
Edição e Supervisão: Professor Ricardo Nogueira (MG 11.295 JP)
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