quinta-feira, 16 de Abril de 2015 11:04h Atualizado em 16 de Abril de 2015 às 11:12h. Lorena Silva

Mau uso da voz pode afetar o desempenho e a saúde de profissionais

No Dia Mundial da Voz, comemorado hoje, especialista alerta para o problema

Dados do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) revelam que, de janeiro a agosto de 2011, 4.318 pessoas foram afastadas do emprego por distúrbios no sistema vocal, sendo 324 casos em razão da profissão que exerciam. Em 2010 foram 3.601 registros. Os números podem não ser recentes, mas trazem para hoje, data na qual é comemorado o Dia Mundial da Voz, uma preocupação oportuna: como cuidar corretamente da voz?
O número de profissionais que utilizam a fala como instrumento de trabalho é grande. É o caso, por exemplo, de professores, cantores, atores, jornalistas, locutores e operadores de telemarketing. “Hoje, 80% da população é formada por pessoas que trabalham com a voz, que a gente chama de profissionais da voz”, relata a fonoaudióloga Carolina Braga Amaral. Para ela, vem desse dado a necessidade de conscientizar as pessoas sobre a importância de cuidar da saúde vocal.
“A saúde vocal é o equilíbrio na utilização da voz, seja ela de uso profissional ou social. Ter uma boa saúde vocal significa ter uma voz clara, limpa, emitida sem esforço e agradável ao ouvinte. A voz consegue nos passar uma emoção. Às vezes uma pessoa te liga e pelo tom da voz você já consegue perceber se ela está alegre ou triste”, explica a fonoaudióloga.
Ricardo Silva realiza diversas atividades profissionais, sendo que em todas ele tem a voz como o principal instrumento de trabalho. Além de atuar em espetáculos teatrais, Ricardo é garoto propaganda de um título de capitalização, faz spots comerciais – também na TV – e até a semana passada fazia um programa de rádio diariamente em uma emissora de Carmo do Cajuru, que agora será feito somente na segunda-feira.
O ator e locutor conta que depois que percebeu que a sua profissão dependeria da voz, de uma forma natural já aprendeu que precisaria de diversos cuidados para manter a qualidade da fala. “Mas aí depois eu fui procurar um especialista, confirmei algumas coisas que eu já sabia de alguma forma ou até mesmo aprendendo coisas novas. Coisas que eu não sabia ou que eu fazia errado e pude corrigir.”

 

CUIDADOS
Ricardo diz que nunca teve problemas com a voz, mas por utilizá-la com muita frequência adquiriu vários hábitos que o auxiliam, como o aquecimento. “Hoje eu não começo uma apresentação ou uma gravação sem fazer um aquecimento da voz. O aquecimento é uma coisa simples, porque a sua corda vocal está lá, quietinha, porque você dormiu e não falou nada, obviamente. Aí de repente você liga o microfone e começa a falar do nada. Vai dar algum problema.”
O ator também diz que toma cuidado para não gripar. Ele explica que se acorda já sentindo dor de garganta, naquele dia vai tomar um pouco mais de cuidado. “Eu particularmente evito de cara a farmácia. Prefiro fazer uma coisa mais caseira, achar uma romã na casa da minha avó, alguma coisa com gengibre”. Além disso, em dias que vai utilizar muito a voz, evita refrigerantes, alimentos ácidos e procura comer uma maçã. “Fumar eu nem preciso dizer que não fumo, né?”, brinca.
Para preservar a saúde da voz, Carolina também dá outras dicas: dormir e descansar bem – já que o cansaço físico reflete na voz –, manter a voz natural – evitando o esforço e a mudança no tom de voz –, manter sempre uma boa postura para não atrapalhar a respiração e comer uma maçã por dia – porque a fruta tem propriedade adstringente e limpa todo o trato vocal.
Além, é claro, de beber muita água diariamente. “A água é o combustível da voz também. Do mesmo jeito que um carro precisa do óleo para lubrificar o motor, a voz precisa da água para hidratar. Isso porque à medida que você vai falando, vai entrando ar na sua boca e isso vai ressecando”. Segundo a fonoaudióloga, ao observar indícios de problemas na voz, como muita tosse, pigarros, rouquidão por mais de 15 dias e sensação de corpo estranho na garganta, o recomendado é procurar o auxílio de um profissional da saúde.

 

PROBLEMAS NA VOZ
De acordo com Carolina, é muito comum ela receber profissionais que apresentam esses problemas na voz, principalmente que atuam na área da educação. “Para esses profissionais os problemas são mais incidentes devido ao barulho na sala de aula. Os professores têm que ficar gritando, competindo com a voz dos alunos, principalmente na educação infantil. Quando eles chegam para [consultar] a gente, eles tanto não são orientados que já desenvolveram a patologia, porque deixam a voz chegar naquele estado”, diz.
Esse foi o caso da professora Graziela Vaz, que leciona há seis anos. No ano passado, Graziela, que dá aulas em uma faculdade de Divinópolis, perdeu a voz devido a uma crise alérgica e precisou ficar quase uma semana afastada do trabalho. “Foi a pior sensação que eu já tive”, afirma.
Ela conta que depois de alguns dias com a voz falha, procurou um otorrinolaringologista, fez uma videolaringoscopia e o médico identificou que as cordas vocais estavam inflamadas.  Constatado o problema, o médico pediu que ela ficasse totalmente sem falar durante cinco dias.
Depois de liberada para voltar ao trabalho, Graziela passou por diversas recomendações do médico, inclusive sobre utilizar um microfone para dar aulas. Mas ela confessa que não segue as indicações como deveria. “Eu usei o microfone três dias. Achei esquisito, não me adaptei, achei que estava alta a voz. Os alunos falaram que estava normal, mas eu achei que estava ruim. E também pela preguiça de carregar mais um ‘kitzinho’. Mas eu tive uma experiência que ficar sem falar não é interessante. Nada. Você escrever aquilo que você tem que falar para o outro é muito ruim.”
A professora admite que deveria cuidar melhor da voz. “Parece uma frase feita o que eu vou falar, mas é que a gente só dá valor realmente para a voz no dia que a gente fica totalmente sem ela. Eu que já tive um problema me esqueço de fazer todas as orientações que me foram dadas, imagina quem nunca recebeu essas orientações e também precisa utilizar a voz todos os dias. Eu acho que a gente tem que ter um cuidado maior e até uma conscientização maior do que a população em geral”, finaliza.

 

Crédito: Bruna Costa

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