sábado, 9 de Janeiro de 2016 04:38h Pollyanna Martins

Moradores do Cacôco de Baixo aguardam asfalto há mais de quatro anos

Ordem de serviço foi assinada em junho de 2011, autorizando o asfaltamento de dois quilômetros da comunidade

Barro e isolamento em época de chuva, e muita poeira em tempo de seca. É essa a rotina que os moradores da comunidade rural, Cacôco de Baixo, enfrentam. Os moradores, que aguardam o asfaltamento de dois quilômetros da comunidade, desde junho de 2011, já estão descrentes da situação. Há mais de quatro anos, o prefeito de Divinópolis, Vladimir Azevedo, assinou uma ordem de serviço autorizando o asfaltamento e a drenagem pluvial de dois quilômetros da comunidade. Obra que nunca sequer foi iniciada.
A dona de casa, Nathália Cristina Ribeiro, mora na comunidade há cinco anos e lembra-se do dia em que o prefeito esteve na igreja do local e assinou a ordem de serviço. “Eles [autoridades] vieram aqui na igreja, o prefeito assinou o papel mandando asfaltar isso tudo aqui. Colocaram vários tratores aqui, manilha, até placa indicando a obra na entrada da comunidade. No outro, vieram aqui, levaram os tratores embora e nunca mais mexeram em nada”, conta. O então superintendente de Usina de Projetos, Lúcio Espíndola, afirmou na época que a previsão de conclusão da obra seria de aproximadamente oito meses. “Essa é uma obra muito sonhada, reivindicada e esperada pela população e que essa administração, através da sensibilidade do prefeito Vladimir, vem atender, trazendo qualidade de vida e desenvolvimento para a região”. Mais de quatro anos se passaram, e a situação é a mesma do dia em que a ordem de serviço foi assinada.
A obra seria realizada com um investimento de R$ 1,3 milhão. Sendo R$ 1,1 milhão por intermédio do Deputado Federal, Domingos Sávio (PSDB), e os R$ 200 mil seriam de responsabilidade da prefeitura. Durante a solenidade de assinatura da ordem de serviço, o prefeito destacou que quando era Deputado Estadual, Domingos Sávio deixou pronto um repasse de R$ 6 milhões, e que a comunidade havia sido escolhida a dedo para ser beneficiada com o asfalto. “O deputado Domingos Sávio, quando era estadual, deixou pronto um repasse de R$ 6 milhões e, com muito critério, selecionamos esta região para ser beneficiada. Estamos trabalhando e devolvendo os recursos em obras, somando com a população. Essa parceria com os deputados é fundamental para que possamos continuar a levar melhorias para a população”.
Nossa reportagem esteve no local na tarde de ontem, e após as chuvas do final de semana, o que encontramos foram muitos buracos. A entrada da comunidade por meio do bairro Jardinópolis está precária. O cuidado deve ser redobrado, para que não ocorra nenhum acidente, ou algum dano ao veículo. Segundo a dona de casa, em época de chuva, o ônibus não vai à comunidade, pois atola. Os moradores têm que fazer uma caminhada de mais de 40 minutos até o bairro Jardinópolis, para ter acesso ao transporte coletivo. “Muita gente pergunta como que a gente dá conta de morar aqui. Se chover muito, o ônibus não vem e a gente vai a pé até o Jardinópolis para poder pegar ônibus, porque com esses buracos, muitos ônibus quebram ou atolam no meio do caminho”, detalha.

 


ESTUDANTES
Conforme a dona de casa, a sorte é que as crianças estão de férias neste período chuvoso, pois em época de aula e chuva, os alunos precisam enfrentar a caminhada de mais de 40 minutos para poderem ir à escola. Um filho de Nathália estuda na Escola Municipal Hermínia Corgozinho, no bairro Bela Vista, e o outro na Escola Municipal José Carlos Pereira, no bairro Belvedere. Ambos vão às escolas de ônibus. O filho mais velho da dona de casa será transferido este ano para alguma escola do centro da cidade, e a preocupação permanece. “Agora é só transporte coletivo que vai levá-lo para a escola. Quando chega época de chuva, é aquele ‘Deus nos acuda’, porque tem que levantar bem cedo, por volta das 5h e ir a pé até o [bairro] Jardinópolis, com adulto acompanhando”,

 


MEDO
A dona de casa revela que foram poucas as vezes que ela se arriscou a ir até o bairro vizinho para pegar ônibus. O medo de andar em meio ao mato alto que cerca a comunidade faz com que Nathália fique em casa. “Eu tenho medo de andar até o [bairro] Jardinópolis. Tem muito mato, e está muito perigoso. Já teve tiroteio aqui no ponto final do ônibus, tem muitos sítios que são assaltados aqui na região, então eu fico com muito medo”, afirma.

 


MELHORIAS
Após as chuvas, os buracos se formaram na estrada de acesso à comunidade. Sem ter previsão ainda, a dona de casa conta que a Prefeitura manda patrolar as vias, mas a situação só piora. De acordo com Nathália, se chover após as ruas serem patroladas, o acesso à comunidade fica difícil até para os carros. “Se cair uma chuvinha depois de patrolar, aí não vem ônibus aqui, carro também não consegue subir, porque desliza muito, e é assim que a gente vive”, lamenta. Ainda segundo a dona de casa, o seu marido não vai ao trabalho de carro, pois tem medo de que o veículo estrague com as condições precárias que a estrada rural se encontra. “Meu marido trabalha na rodovia e não tem jeito de ir de carro. Como que vai de carro com essa estrada nesse estado?”, questiona.

 


PROTESTO
Para reivindicar as melhorias na comunidade, os moradores já fecharam a entrada no início de 2015. A poeira que toma conta da região em época de seca foi a responsável pela manifestação. Os moradores fecharam o acesso à comunidade na esperança de uma solução. “No dia da manifestação veio a Polícia Militar, veio gente da prefeitura prometendo que iam calçar as ruas. Aqui é um acesso para São Sebastião do Oeste, então passam muitos carros. Em época de seca, a gente não dá conta da poeira. No dia do protesto, o pessoal da prefeitura entrou em um consenso com o presidente da comunidade, falando que ia arrumar, mas até hoje nada”, reclama.
Cansada das promessas políticas feitas, e das expectativas criadas ao longo dos anos por melhorias na comunidade, a dona de casa garante que só “acredita vendo”. “Eu tinha uma esperança quando mudei pra cá. Um falava comigo ‘olha vai asfaltar’, e eu ficava doida. Agora se falarem comigo que vai asfaltar, aqui eu só acredito vendo”, afirma.

 


POSICIONAMENTOS
O Deputado Federal, Domingos Sávio informou, por meio de sua assessoria de imprensa, que a verba para o asfaltamento da comunidade rural foi viabilizada pelo Governo do Estado, e não é um recurso inteirado da Câmara dos Deputados. O deputado ressaltou ainda, que o dever de realizar a obra é do Executivo, ou seja, da Prefeitura. E que deveria ser informado na época, caso a verba não fosse liberada.
Em nota, a Prefeitura informou que a obra foi incluída no programa Caminhos de Minas, do Governo Estadual, em 2014, fato que torna a Secretaria de Estado de Transportes e Obras Públicas (Setop), responsável pela execução do asfaltamento.

 



O acesso mais rápido à comunidade rural Cacôco de Baixo é por meio do bairro Jardinópolis, que também acumula anos de problema. Um deles é o esgoto que escorre a céu aberto na Avenida Limeira, principal via do bairro. O que em julho de 2015 eram pequenos buracos com esgoto acumulado, quase seis meses depois virou uma verdadeira “piscina” de água suja. O Gazeta do Oeste acompanha a situação do bairro ano a ano, e a Companhia de Saneamento de Minas Gerais (Copasa) se limita a dizer sempre que “há necessidade de implantação de interceptor ao longo dos dois cursos d'água próximos (Interceptores Jardinópolis), previsto em projeto da Copasa e no Contrato de Programa, firmado entre a Companhia e o município de Divinópolis, com conclusão até 2016”.
Enquanto ia até a comunidade rural Cacôco de Baixo, nossa reportagem passou pela Avenida Limeira e constatou a gravidade do problema. Já é rotina ver motoristas se arriscando na contramão para evitar danos em seu veículo, caso passem pela poça. O mau cheiro chega a ser insuportável para quem passa pelo trecho. Além do esgoto a céu aberto, um bueiro está destampado, na mesma avenida. Os moradores tiveram que improvisar com o galho de uma árvore para impedir que acidentes aconteçam no local. Nossa reportagem entrou em contato com a Copasa, mas até o fechamento desta edição, não recebemos o posicionamento da companhia. Os moradores podem acessar o site www.arsae.mg.gov.br para fazer reclamações relacionadas a esgoto.

 

Créditos: Pollyanna Martins

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