sábado, 12 de Março de 2016 06:34h Pollyanna Martins

Moradores pagam para limpar lotes vagos em Divinópolis

Moradores pagam a limpeza dos lotes, pois o mato, em alguns casos, já tampa as residências

Os lotes vagos de Divinópolis viraram criadouros do mosquito Aedes aegypti e esconderijo de criminosos. Sem qualquer tipo de limpeza, o mato cresceu e, muitas vezes, ultrapassam os muros das residências. Quem paga a conta? Os moradores das casas vizinhas. A designer de moda, Priscila Carvalho Coelho, mora no bairro Dona Rosa há mais de três anos e, ao lado de sua casa, tem um lote vago. A designer de moda foi surpreendida há pouco mais de um mês, quando teve a sua casa arrombada. Segundo Priscila, os criminosos invadiram a residência quando ela estava na maternidade, e seu marido a acompanhava. “Quando eu saí da maternidade, e vim em casa com o meu marido para buscar umas roupas para passar alguns dias na casa da minha mãe, nós vimos que a casa tinha sido invadida”, conta.

 


Priscila conta ainda, que notou que a janela da sala estava aberta, e quando entrou na casa, tudo estava fora do lugar. Conforme a designer, os criminosos entraram no lote vago ao lado de sua residência, fizeram um buraco no muro e, enquanto ela estava na maternidade, os assaltantes “fizeram a festa” em sua casa. “Eles levaram o carrinho de bebê da minha filha, fraldas, roupas do meu marido, roubaram dinheiro, comeram, experimentaram roupas. Eles tiveram tempo para fazer o que queriam aqui em casa e ninguém escutou”, detalha. Com medo de que a situação se repita, Priscila e o marido reforçaram a segurança da casa. O casal instalou alarme, câmeras de segurança, aumentaram o muro da casa e colocaram grades nas janelas. “A gente vai ficar prisioneiro dentro de casa. Os bandidos estão soltos e nós estamos presos dentro de casa”, lamenta.

 

 


MEDO
Além do medo da violência, a família tem que conviver com o medo das doenças transmitidas pelo mosquito Aedes aegypti – dengue, Chikungunya, Zika vírus – pois os lotes vagos do bairro estão cheios de recipientes com água parada. Com um bebê recém-nascido em casa, a designer relembra o pânico que viveu quando estava grávida de seis meses, e os primeiros casos de microcefalia relacionados ao Zika vírus foram divulgados pelo Ministério da Saúde. “Durante a gravidez dela, fiquei com muito medo, porque até nascer e a gente ver que está tudo bem é angustiante”, ressalta.

 

 

Para piorar a situação da família, vários insetos, roedores e cobras entraram na residência. Segundo Priscila, ela e o marido já entraram em contato com a Prefeitura solicitando a limpeza dos lotes, mas nada foi feito. A designer conta que o dono do lote mora em outra cidade, e para diminuir a invasão de ratos, baratas, e cobras em casa, ela e o marido pagam para limpar o lote. “Em 2014, nós pagamos para passar a patrola, no ano passado, nós pagamos uma pessoa para capinar o lote dos outros, para poder eliminar os focos da dengue, diminuir os insetos aqui em casa, e também para evitar de gente esconder aqui, porque já esconderam uma moto aqui no lote”, detalha.

 

 


Apesar de todos os esforços do casal para manter a segurança da casa, o medo de entrar e sair de casa ainda existe, pois o mato cresceu mais uma vez e já toma conta de parte do muro da residência. “Nós temos que pagar para manter o lote dos outros limpo. Dessa vez que nós não pagamos para limpar, eles [os criminosos] entraram aqui em casa. Nada, nada, cada vez que a gente paga para limpar é em torno de R$ 100, R$ 200”, informa.

 

 


PROLONGAMENTO BOM PASTOR
A situação da auxiliar de serviços gerais, Luzia Aparecida Santos Santiago, não é muito diferente da situação de Priscila. A auxiliar de serviços gerais mora no bairro Prolongamento Bom Pastor, e a sua casa é cercada por lotes vagos nos fundos e dos dois lados. A casa fica em um morro, e quem chega no início da rua não consegue enxergá-la, pois o mato alto do lote de cima da residência está alto, e o mato da calçada tampam o imóvel. Luzia mudou-se para o endereço há cinco anos, e também tem que pagar para limpar os lotes que estão no entorno da casa. “Meu marido que fica limpando em volta da casa, os donos deixam os lotes aqui para eles valorizarem e ganharem dinheiro”, reclama.

 

 


De acordo com Luzia, insetos, roedores e cobras também entram em sua casa. A auxiliar de serviços gerais conta que, recentemente, uma cobra estava na varanda de sua casa. Para tentar driblar o problema, ela e o marido pagam para dedetizar a casa. “Eu já dedetizei aqui em casa várias vezes, já teve dia de a gente encher pá catando os insetos”, relata. Segundo a auxiliar de serviços gerais, ela já procurou a Prefeitura para tentar solucionar o problema. Luzia conta que tem vários protocolos feitos no órgão, mas até hoje a situação é a mesma. “A Prefeitura não resolve nada, já fui lá várias vezes, tenho vários protocolos, eu ligo lá direto e eles falam que os donos dos lotes já foram notificados, mas não vem ninguém para limpar”, reforça.

 

 


Assim como aconteceu na casa de Priscila, a residência da auxiliar de serviços gerais também foi invadida. Luzia relembra que o assalto ocorreu durante a tarde, quando ela e o marido estavam trabalhando. “Era por volta das 14h quando eles [os criminosos] entraram na minha casa. Eles reviraram as minhas roupas, reviraram a casa toda, nós encontramos as pás em cima da mesa. Eu já peguei três homens saindo do lote aqui, do lado da minha casa”. Com medo da situação, o marido de Luzia improvisou um portão para fechar o lote e, assim, tentar evitar que criminosos se escondam no local. “Se os donos mantivessem os lotes limpos não tinha perigo, mas o problema é que não mantêm limpo. Meu marido teve que colocar o portão provisório no lote dos outros, porque nós temos medo de entrar e sair de casa. Eu não sei mais o que vou fazer, nós temos que conviver com bicho dentro de casa, agora foco de dengue, porque o povo joga lixo nos lotes”, ressalta.

 

 


BELA VISTA

 

São incontáveis os lotes vagos, com mato alto e sujeira que existem em Divinópolis. Alguns deles estão na rua da casa do técnico de enfermagem, Jeander da Silva, no bairro Bela Vista. O técnico de enfermagem mora no bairro há oito anos e conta que o problema é recorrente. Assim como Priscila e Luzia, Jeander e os vizinhos precisam pagar para limpar os lotes vagos da região. O técnico de enfermagem não conhece nem Priscila, nem Luzia, mas divide o mesmo medo que as duas. “A gente fica com medo de dengue, da Chikungunya, da Zika. Eu trabalho em hospital e acompanho vários casos de dengue”, conta.

 

 


Segundo Jeander, ele já procurou a Prefeitura para solicitar a limpeza dos lotes, mas também não teve retorno do órgão. “A situação ficou assim há mais de um ano. O antigo dono limpava, mas aí o lote foi vendido e o atual dono não limpa, com isso, está cheio de focos do mosquito da dengue. O povo joga lixo lá, e vai ficando”, relata. O medo das doenças transmitidas pelo Aedes aegypti é tão grande que Jeander e a esposa adotaram o hábito de usar repelente todos os dias. O casal usa e aplica o produto de duas em duas horas na filha pequena. “Nós gastamos dois vidros de repelentes por semana aqui em casa”. 

 

 

 


Com o mato alto e a sujeira dos lotes, a casa de Jeander também é invadida por ratos, insetos e cobras. “A minha esposa já pegou uma cobra coral na entrada daqui de casa. Como a porta da casa é perto da rua, entra bicho direto aqui. O lote ao lado foi o vizinho quem pagou para jogar veneno e matar o mato, porque estava entrando tudo quanto é bicho lá, aranha, rato, barata”, conta.

 


PREFEITURA
Em nota, a assessoria de imprensa da Prefeitura de Divinópolis informou que as reclamações sobre os lotes vagos podem ser encaminhadas para o setor de protocolo da Prefeitura ou pelo site, no espaço cidadão. O reclamante receberá, então, um número por onde poderá acompanhar todo o processo. De acordo com a assessoria, após a reclamação, a Prefeitura notifica, em primeiro momento, o proprietário do lote e concede um prazo de 15 dias para realização da limpeza. “Caso o proprietário descumpra a ordem, ele recebe um comunicado de auto de infração e terá mais dez dias para fazer a limpeza. Não efetuando a limpeza, ele é multado e, se não pagar a multa, é encaminhado para dívida ativa por meio de processo administrativo”.

 

 


Quanto à limpeza dos focos do Aedes aegypti, a assessoria informou que a Semusa age nos casos em que há morador com alguma impossibilidade (idosos, deficientes físicos, mentais e etc.) e que não conseguem efetuar sozinho a própria limpeza do imóvel. O órgão afirmou ainda que a Vigilância Ambiental fará uma visita nos pontos mencionados na reportagem para avaliação.
 

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