quinta-feira, 1 de Setembro de 2016 16:39h Pollyanna Martins

Na última reportagem da série “Precariedade dos Bairros”, mostramos a situação do Centro

As calçadas não têm acessibilidade, pois muitas estão quebradas e com bueiros abertos e os toureiros que conseguem driblar a fiscalização da Prefeitura dificultam mais ainda a passagem dos pedestres

POR POLLYANNA MARTINS

pollyanna.martins@gazetaoeste.com.br

 

Na última reportagem da série “Precariedade dos Bairros”, o Gazeta do Oeste vai mostrar a situação do Centro de Divinópolis. Mais de 70% da população da cidade passa por lá todos os dias, mas a região tem problemas com a acessibilidade, camelôs espalhados pelas principais ruas e avenidas, e o trânsito é caótico. Nossa reportagem percorreu as principais ruas do Centro da cidade e encontrou calçadas quebradas e bueiros abertos. A secretária Bruna Lacerda sabe bem o que é andar com um cadeirante na região.

Conforme Bruna, sua irmã é cadeirante e quando precisa ir ao Centro de Divinópolis é uma verdadeira novela. A secretária diz que muitas vezes nem desce com a irmã do carro para evitar os transtornos causados pelas calçadas quebradas. “A gente evita ao máximo levá-la ao Centro, mas às vezes não tem como fugir, pois todos os médicos que ela faz tratamento são no Centro. Quando dá para esperar no carro, nós esperamos, só que em certas situações temos que descer com ela”, conta.

Segundo Bruna, além das calçadas quebradas, há ainda os prédios em construções, que dificultam mais ainda a ida da jovem ao Centro. A secretária conta que um dos médicos da irmã atende no prédio do Pioneiro e, bem ao lado, outro prédio está sendo construído. Com toda a calçada interditada pela construção, a atenção para empurrar a cadeira de rodas da jovem no espaço deve ser redobrada. “Fica ruim para estacionar o carro e tirá-la de lá de dentro. Nós temos que parar em área proibida, com aquela tensão de outros carros atrás buzinando, abrir a cadeira de rodas e tirá-la do carro. Isso quando conseguimos parar depois da construção, mas quando paramos antes, aí a coisa piora, porque ainda temos que empurrar a cadeira em meio a terra e pedras que ficam na porta”, reclama. Bruna relata que, em algumas solicitações, contou com a ajuda de terceiros para andar com a irmã no Centro de Divinópolis, pois as rodas da cadeira muitas vezes agarram em algum buraco das calçadas. “As calçadas são todas quebradas e desniveladas, é um sacrifício empurrar uma cadeira de rodas no Centro. Você sai de um buraco e cai em outro, além das inúmeras construções e calçadas isoladas no Centro da cidade”, frisa.

A estudante Letícia Ferreira sabe bem o que Bruna passa com a sua irmã. Letícia é cadeirante e conta que já caiu em frente à construção de um prédio no quarteirão fechado da Rua São Paulo. De acordo com estudante, a obra é ao lado da Câmara Municipal, e ela escorregou com a cadeira de rodas e caiu no meio do quarteirão. “Eu já escorreguei em frente a essa obra, na calçada, porque ela está cheia de buracos e desnível, e fui parar no meio da rua. Essas obras que estão no Centro são muito perigosas”, critica. Segundo Letícia, os bueiros também dificultam a passagem de cadeirantes no Centro da cidade. A estudante relembra o dia em que quase caiu no chão por causa de um bueiro. “Eu fui passar e a roda direita da frente da cadeira agarrou no bueiro, e a cadeira chegou a inclinar, mas eu segurei e não cai. Depois disso, eu nunca mais atravesso algum buraco maior sozinha. Se não tiver como eu fugir dele, sempre peço para alguém me passar”, conta.

A estudante diz que a construção de rampas e os elevadores ajudaram na acessibilidade, porém o maior problema está nas calçadas do Centro. Letícia diz que a Prefeitura de Divinópolis deve fiscalizar o estado em que as calçadas se encontram e cobrar dos proprietários dos imóveis que mantenham os passeios acessíveis. “Os proprietários das lojas têm que ter a consciência não só de fazer rampas, mas manter as calçadas arrumadas, porque nós cadeirantes também compramos. Na maioria das vezes, eu deixo de ir a algum lugar não só porque não tem rampa, mas também porque a calçada em si é ruim. Em alguns casos, as rampas são mal feitas e é muito complicado”, desabafa. Além da inacessibilidade das calçadas, a estudante faz um alerta para os comerciantes de Divinópolis. Letícia afirma que em muitas lojas não há rampas e, quando têm, são estreitas, e dificultam a entrada de cadeirantes no estabelecimento. “O segundo maior desafio são as lojas. Não têm rampas e, quando têm, são estreitas. Uma vez fui a uma loja, tinha a rampa, mas era estreita e o vendedor falou que eu ficava no meio do caminho. Eu saí chorando de lá. Ainda falta muita consciência, principalmente dos comerciantes de fazerem rampas e terem acessibilidade”, acrescenta.

 

TOUREIROS

 

Outro problema que atrapalha a acessibilidade do Centro da cidade é a permanência dos camelôs nas principais ruas e avenidas da região. Apesar de a Prefeitura ter intensificado o número de fiscalizações, alguns toureiros conseguem driblar os fiscais e continuam vendendo os seus produtos livremente. Desde o final de 2015, os toureiros invadiram as ruas do Centro com os seus produtos e viraram alvo constante da Fiscalização de Posturas da Secretaria Municipal de Meio Ambiente. Além de atrapalharem a passagem dos pedestres, cadeirantes e carrinhos nas calçadas, os toureiros prejudicam as vendas dos comerciantes e vendedores ambulantes do camelódromo, no quarteirão fechado da Rua São Paulo.

A falta de fiscalização foi duramente criticada por comerciantes do Centro e vendedores ambulantes do camelódromo. Meias, controles remotos, brinquedos, sombrinhas, redes, cobertores, brincos, pulseiras, bolsas, produtos fitoterápicos são expostos durante todo o dia nas calçadas, mesmo após as ações da Fiscalização de Posturas. A vendedora Andrea Oliveira Aguiar tem um box no camelódromo há oito anos e reclama da ineficiência das ações feitas pela Prefeitura. “Como não tem fiscalização na cidade, eles ligam para amigos e parentes, e falam para vir, porque a “barra” está limpa”, ressalta. De acordo com Andrea, o movimento de clientes no camelódromo caiu consideravelmente, trazendo como consequência a queda nas vendas. “Está um absurdo isso. A gente não consegue transitar na rua mais e fora que são pessoas que estão atrapalhando as vendas do comércio da cidade”, reclama.

 

PREFEITURA

 

A Prefeitura de Divinópolis informou, por meio de sua assessoria de imprensa, que construiu rampas em praças, espaços esportivos e unidades de saúde. “Nos últimos anos, importantes espaços públicos foram adaptados à acessibilidade, como o Ginásio Poliesportivo Fábio Botelho Notini, as praças Benedito Valadares (Santuário), Nelson Peregrini (Bom Pastor), São Vicente (Interlagos), Dulphe Pinto de Aguiar (Porto Velho), Praça da Locomotiva (Esplanada) e do Planalto”.

De acordo com a assessoria, a Prefeitura de Divinópolis, em parceria com as entidades representantes de pessoas portadoras de deficiência, busca saber as necessidades para atender às normas de acessibilidade e também, mediante fiscalização, busca, junto aos comerciantes, as adequações e o cumprimento da NBR 9050/04, que determina a acessibilidade.

Quanto à fiscalização dos toureiros, o órgão disse que a Fiscalização de Postura da Secretaria Municipal de Meio Ambiente mantém as operações contra os ambulantes. Desde julho já foram realizadas 16 ações dos fiscais municipais, acompanhados da Polícia Militar e de agentes da Secretaria Municipal de Trânsito e Transporte (Settrans).

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