terça-feira, 9 de Dezembro de 2014 04:20h Atualizado em 9 de Dezembro de 2014 às 04:27h. Lorena Silva

No dia em que saíram de casa...

Filhos saem de casa cada vez mais cedo para estudar e pais precisam lidar com a saudade e a preocupação

Quando a estudante Bruna Xisto deixou Divinópolis e foi morar sozinha em Belo Horizonte para fazer um cursinho e tentar o curso de Medicina, sua mãe, Keila Xisto, deu todo o apoio. Mas precisou abdicar de uma grande parte do cuidado excessivo e da proximidade que tinha com a filha para que ela pudesse correr atrás do seu sonho.
“Eu acho que é nesse momento que o cordão umbilical se rompe. Não é na hora que nasce, é nessa hora”. Keila define assim o instante em que viu a filha sair de casa pela primeira vez. E essa tem sido uma sensação comum para outros pais que, assim como ela, passam pelo momento doloroso de ver seus filhos partirem para estudar em outras cidades – seja em cursinhos, universidades ou até mesmo em intercâmbios – cada vez mais cedo.
Ao sair da cidade para estudar, a maioria dos jovens está deixando a casa pela primeira vez. Isso significa que muitos saem sem saber cozinhar, lavar ou passar, por exemplo – tarefas que não precisavam se preocupar em fazer quando moravam com a família. Por isso, morar fora acaba se tornando um exercício de aprendizagem para o jovem e motivo de preocupação para os pais, que também sofrem com a falta do filho dentro do lar e precisam driblar a saudade de algum modo.

 

 

SER INDEPENDENTE
O estudante Gustavo Costa se forma no fim do ano em uma faculdade de Divinópolis, no curso de Comunicação Social, e já no próximo ano vai fazer um intercâmbio para o Chile para estudar disciplinas ligadas à sua área. Com 22 anos, Gustavo, que até pensou em ter feito o ensino superior em uma universidade federal fora da cidade, é um exemplo de um jovem que nunca saiu de casa antes e, em breve, vai precisar cuidar de si próprio.
“Sempre estive dentro de casa, então não sei cozinhar, não sei lavar, não sei fazer nada. Ainda não sei como vou fazer, porque sempre estive perto dos meus pais. Mas estou indo com a cara e a coragem”, destaca o estudante, que fica seis meses fora do país. Como só viaja em fevereiro, ele espera que ainda consiga lidar com essa situação até que se mude. “Falo que eu tenho um prazo ainda para aprender, até ir. Espero conseguir aprender alguma coisa, né?”, brinca.
Quem mais se preocupa com o fato de que o estudante vai morar sozinho é sua mãe, Vânia Costa, que irá passar pela primeira experiência com um filho fora de casa e diz que prefere não pensar nisso agora. “Falo com ele que ele tem que aprender a lidar com essa questão de morar fora, de ser mais independente. Porque não é fácil morar sozinho, ainda mais em um país diferente, onde tudo é estranho. E mãe sempre tem uma preocupação, na questão da adaptação, de amizades, com tudo. Dá aquele aperto no coração, mas é algo que dá para lidar.”
Já Keila conta que já percebeu um grande amadurecimento por parte da filha, que mora em Belo Horizonte desde fevereiro deste ano. “Ela está se saindo bem, muita coisa ela resolve sozinha. No início que foi mais difícil, porque se ela sentia alguma dor, por exemplo, eu tinha que ficar questionando como era essa dor, onde doía e o que ela estava sentindo. Tentando acalmar ela de longe, mas totalmente preocupada, tentando imaginar o que podia ser”, relata.

 

 

SAUDADE CONSTANTE
Se a preocupação com o modo como o filho vai estar ou com o que ele está fazendo e sentindo é constante, a saudade também. Para Keila, ela já começou a ser sentida logo no primeiro dia, quando deixou a filha em BH. “Foi muito doloroso. Eu chorei demais, ela chorou muito. Eu acho que eu fiquei até pior do que ela e tentava ser forte porque eu não podia transmitir aquilo para ela.”
Agora, ela tenta ver a filha sempre que pode. “Mas sinto a falta dela em casa, não gosto de chegar no quarto dela e ela não estar, dar boa noite para as duas [irmãs de Bruna] e ver a cama dela vazia.”, conta. Para Gustavo, o momento de despedir da família e dos amigos para ir para o Chile será um dos mais difíceis. “Toda vez que eu penso no intercâmbio, no momento de ir, o coração já dá aquela apertada. Eu tenho a cena na cabeça de eu no aeroporto, todo mundo despedindo de mim e eu indo chorando para o avião. Sou muito chorão”, admite.
Vânia também admite a saudade antecipada, mesmo tendo a consciência de que a viagem será uma grande experiência para o filho. “A gente cria os filhos, mas cada um tem o seu caminho a seguir. Mãe tem que conscientizar disso. Cada um tem sua própria vida. A gente tem que acompanhar de perto, mas deixar eles crescerem.”

 

 

INTERNET
Principalmente no caso de Gustavo, que vai para outro país e dificilmente conseguirá vir para o Brasil durante os seis meses do intercâmbio, o apoio da tecnologia e da internet será de grande ajuda. “É o único recurso que eu vou ter. Porque até ligação fica caro. Então vou contar totalmente com essa ajuda de aplicativos, de redes sociais, que eu acho que vai ser a forma mais viável de manter contato”, explica o estudante.
No caso de Keila, que depois que Bruna saiu de casa, também criou o hábito de ligar para ela todos os dias, a internet é também uma forte aliada na hora de matar a saudade e mantê-la próxima da filha. “O Whatsapp facilita muito. Qualquer coisa no meio do dia que ela precisa, me manda uma mensagem. Ou vice-versa, eu precisando deixo a mensagem e depois ela me retorna.Porque às vezes ela está dentro da sala de aula, ou eu fazendo alguma coisa aqui e não tem como responder. Ou gente entra no Facetime, uma vendo a outra pela foto. Isso ameniza a saudade um pouco”, conclui.

 


Crédito: Lorena Silva
Crédito: Arquivo Pessoal

© 2009-2017. Todos direitos reservados a Gazeta do Oeste. Este material não pode ser publicado, transmitido por broadcast, reescrito ou redistribuído sem autorização.