sábado, 10 de Novembro de 2012 05:19h Amilton Augusto

O Mapa do Crack em Divinópolis

Cerca de 1% a 1,3% do PIB nacional são gastos no combate ao crack. Segundo estatísticas do IBGE, o número de usuários desta droga no Brasil está em torno de 1,3 milhão e a idade média para início de seu uso caiu para 13 anos. Os números assustam e a realidade vivida por pessoas de cidades de médio e grande porte mais se parece com um filme de ficção. Em Divinópolis o consumo exagerado de crack incomoda a população. Princípios de overdose podem ser presenciados à luz do dia e o esmolar incessante afasta pessoas das praças e locais públicos.
Mas o que leva um indivíduo a experimentar este entorpecente? Quais os perfis destes usuários? Como funcionam as bocas de crack na cidade?

 


A equipe da Gazeta do Oeste conheceu de perto a rotina de casas de recuperação; conversou sobre o tema com psicólogos e autoridades policiais e se infiltrou na região do Carrapateiro - a Cracolândia de Divinópolis - para tentar mostrar esta realidade que é tratada com desconhecimento pela sociedade.

 


Casa de Recuperação

 

“Aqui só os guerreiros permanecem!” é o que se lê logo na entrada da Casa Dia em Divinópolis.  A determinação do próprio adicto é a peça-chave para uma terapia de sucesso, por isso o incentivo àqueles que enfrentam uma guerra interna. A casa de recuperação instalada em Divinópolis recebe hoje 27 internos envolvidos com crack, álcool e cocaína. Vivem sob uma rotina direcionada por profissionais e seguem regras para uma terapia que não visa apenas que ele largue a droga, mas que reorganize sua vida diante de sua doença.

 


É impossível traçar um único perfil e uma única causa que levam uma pessoa a entrar neste submundo. De acordo com a psicóloga Carolina Valinhas, há 11 anos trabalhando com dependentes químicos, não existe um padrão para o dependente de crack. “Nós temos na Casa Dia pessoas com curso superior completo e também pessoas que não concluíram o ensino fundamental. Temos pessoas de diversas condições financeiras e de diferentes realidades sociais, desde caseiros de sítios até empresários. Existem usuários de drogas em todas as esferas sociais”, explica a psicóloga.  A dependência química é tratada pelos profissionais da área, pela Polícia Militar e pelo Poder Público como uma patologia. O viciado não é visto mais como um bandido que será afastado do mundo das drogas a partir da prisão, pelo menos para estes setores.

 


Os fatores que levam uma pessoa a entrar no submundo das drogas pesadas são diversos e em cada caso existe uma história diferente. Geralmente são histórias de vidas frustradas ou pessoas que precisam ser aceitas por determinados grupos sociais. Desde uma simples necessidade de perder a timidez até para superar problemas com a morte, a separação e a fome podem ser causas que despertam esta patologia. Portanto, caiu por terra o senso comum de que usuários são simplesmente pessoas vadias e sem trabalho.

 


Na terapia de recuperação não há mágicas. Geralmente a procura para a internação parte da família e deve ter a aceitação do dependente, já que 90% do sucesso da dependem do próprio interno. A família, juntamente com o adicto, passa por uma entrevista de triagem com psicólogos da comunidade. Se o caso for de internação, uma estratégia de recuperação é traçada por todos os profissionais da casa e cada paciente segue recomendações específicas para seu tratamento.

 

Os internos seguem uma rotina que dura entre 5 e 6 meses. Acordam às 6h30m e durante o dia desenvolvem atividades como laborterapia, reuniões, momentos de espiritualidade, momentos de recreação e estudo. A visita dos familiares é permitida a cada quinze dias e o tratamento não utiliza remédios, nem expõe o interno a torturas, como imaginam alguns dos próprios usuários antes de entrarem para a casa.

 


Para a psicóloga Valinhas, o uso de uma droga não vai estimular, necessariamente, o vício por drogas mais pesadas. “Na grande maioria dos casos o usuário começa usando álcool ou maconha, raramente ele vai para o crack primeiro. O fato de uma pessoa se tornar um dependente químico não quer dizer que foi por ela ter bebido ou fumado maconha. Isso envolve uma série de fatores biopsicossociais. Não existe uma causa específica para a dependência”, analisa a psicóloga.

 


Questionada sobre o fato de não haver dependentes de maconha na casa, Carolina Valinhas avalia que geralmente o usuário apenas de canabis não é uma realidade de internação. “ Claro que existem existam pessoas que usam maconha, que tenham problemas e que precisem de tratamento. Mas, normalmente não é caso para internação. Já tivemos casos na entrevista de triagem em que a pessoa fazia apenas uso da maconha e não havia comprometimento biopsicossocial. Essa pessoa trabalhava normalmente, convivia normalmente na sociedade, então não é um caso de internação. Nesses casos nós encaminhamos para grupos de mútua ajuda”, explica.

 


Testemunho

 

Durante a reportagem vários internos procuraram nossa equipe para dar seu depoimento. A entrevista se tornou parte da terapia dessas pessoas. Os depoentes, dos mais diversos níveis sócioeconômicos, dependentes de álcool, crack ou cocaína, contaram suas histórias de vida e tentaram a cada momento alertar as pessoas para os problemas das drogas. Trouxeram a droga para si com o intuito de suportar desafios que a vida lhes colocou, fizeram da possível válvula de escape uma tormenta em suas vidas e nas vidas de seus familiares.

 


Fabrício Teixeira, 34 anos, mora na região metropolitana de Belo Horizonte, tem dois filhos e é casado. Desde os dois anos de idade foi criado pela avó e aos 13 descobriu que sua mãe tinha sido assassinada. A partir dessa descoberta, Fabrício se refugiou no álcool até chegar, 14 anos depois, ao crack. Mesmo sendo um alcoolista, teve determinação e formou-se no curso técnico de eletromecânica e tinha um bom emprego em uma multinacional.

 


Ele, que está em sua segunda internação, foi receptivo e durante quarenta minutos relatou com detalhes sua vida no mundo das drogas. “A minha primeira internação foi no final de 2009. Eu comecei a beber desde 14 anos, por conta dos sentimentos de culpa que eu carreguei do passado. Eu não tive força nem preparação psicológica para agüentar a “barra” da morte de minha mãe. Eu comecei a entrar no “porre” para suportar essa dor. Comecei a beber nos finais de semana e perdia meu caráter. Tinha pensamentos e atitudes insanas. No final de semana eu perdia o controle da situação e me embebedava. Me relacionei por 7 anos com uma pessoa e não me casei por problemas de caráter meus. Quando ela me largou eu comecei a beber mais ainda.

 

Em 2005 eu conheci minha atual esposa, tivemos dois filhos, mas eu bebia. O que eu queria não era beber, mas saciar minha necessidade de ficar tonto. Não era o ato de tomar uma cerveja, mas o ato da embriaguez. Tentei suicídio três vezes: duas tentei pular do viaduto, mas a Polícia Militar me salvou. Depois pulei de um prédio e quebrei várias partes do meu corpo. Fui levado ao psiquiatra e ele me encheu de remédios. Acontece que eu não consegui parar de beber e ainda comecei a tomar esses medicamentos. Eu enlouqueci, agredia minha esposa e cheguei até a invadir a escola do meu filho. Nessa bebedeira toda eu tentei pela quarta vez o suicídio tomando todos os remédios de uma vez. Minha família, então, me internou num hospital psiquiátrico onde fiquei por 20 dias. Foi muito doloroso para mim, nos primeiros dias eu fiquei amarrado e tomava remédios pesados que me faziam até babar. Lá eu tive um despertar espiritual e Deus entrou na minha vida. Entrei para a igreja e fiquei por um ano longe de drogas. Foi quando comecei a ter novos problemas na minha vida e acabei experimentando o crack. Na primeira cachimbada foi amor à primeira vista. Foi uma coisa maravilhosa, eu esqueci todos os meus problemas e tudo me parecia maravilhoso. Comecei a fumar a cada três dias achando que conseguiria manter o controle. No final das contas eu estava consumindo cerca dois mil reais por mês, passava três dias diretos na Pedreira Prado Lopes. Cheguei a ter um princípio de overdose quando estava sozinho em casa, senti fortes dores nas costas e não conseguia respirar, nesta ocasião eu estava consumindo o crack por mais de dois dias sem parar. A primeira coisa que você perde é o “sentir”, você pare de sentir que é pai, que é marido, que é cidadão. Só sente vontade de usar e mais nada. Você vive em função da droga” conta Fabrício.

 


Denúncia

 

Um interno que chegou a pouco na casa de recuperação nos procurou para contar como é a vida no submundo do crack. Frequentador das regiões conhecidas como Carrapateiro, Canto da Mina e Biqueira, entre os bairros Porto Velho e Niterói, ele nos narrou cenas assustadoras.

 


“Lá já se reuniram mais de 100 pessoas para usar crack. Já vi até mãe amamentado o filho enquanto fumava a pedra. E também já vi mulheres grávidas fazendo programas por cinco reais para conseguir uma pedra. Por ali mesmo elas arrumam um jeito de fazer o sexo. O que mais me impressionou foi ver uma pessoa traqueostomizada fumando a pedra pelo cano que ele tinha. Tem muita gente que gosta de enrolar o crack com o fumo do tabaco, chamamos de bereu”, relata o adicto que iniciou o uso do crack com 30 anos na cidade de Pitangui.

 


O adicto ainda contou como funciona o tráfico de drogas e a abordagem policial na região do Carrapateiro. “Lá existem três repartições. Cada um é responsável por controlar cada pedaço. As pessoas compram a pedra por até dois reais, já vi gente comprando pedra de R$1,30, mas eles não gostam de vender pequenas quantidades, só de cinco reais para cima, mas acabam vendendo. A pessoa chega lá com as moedas que tem e compra aquilo que dá. Alguns não têm dinheiro e na hora da loucura acabam roubando para conseguir trocar qualquer coisa pela pedra”. Quando questionado sobre a ação da polícia, ele fez denúncias sérias: “sempre a Polícia Militar vai lá e dá até choque nas pessoas, tomam dinheiro. Não sei para onde esse dinheiro vai. Tomam cigarro também. E dependendo do movimento que você fizer eles dão até choque. Só que a polícia não está tendo muito trabalho com eles não, porque um está eliminando o outro”, explica.

 


Levamos as denúncias a Polícia Militar, e segundo o Capitão Leônidas, a PM treina seus homens desde a formação inicial para tratar o problema com a atenção devida para a patologia. Afirmou ainda que a abordagem policial segue um parâmetro gradual de força que é avaliado pelos policiais de acordo com a necessidade. A respeito das denúncias de roubo, Capitão Leônidas diz que a afirmação é grave, mas que não existem fatos palpáveis para abrir uma investigação, já que o adicto não soube informar dia nem horário do ocorrido.

 


Nos infiltramos na região para conhecer de perto da realidade a apurar as denúncias. Em um final de tarde havia 33 usuários de crack espalhados entre a ponte do bairro Niterói e o Estádio do Guarani fazendo uso livre da droga em plena luz do dia e com vários cidadãos transitando por ali. No momento não havia policiais no local, apenas um intenso movimento de pessoas que se escondiam até de baixo das pequenas pontes em frente ao estádio. Aparentemente a região concentra pessoas de baixa renda e pedidores da região central. 

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