sexta-feira, 13 de Março de 2015 11:09h Atualizado em 13 de Março de 2015 às 11:30h. Pollyanna Martins

Repórter e cinegrafista da TV Candidés são intimidados por assessores da Secretária Estadual de Educação

Fato ocorreu durante uma visita à Escola Estadual Monsenhor Domingos em Divinópolis

Era uma manhã comum para a repórter da TV Candidés, Nayara Lopes e seu cinegrafista Yan D’masoyy, a pauta era simples: cobrir a visita da atual Secretária Estadual de Educação, Macaé Evaristo, à Escola Estadual Monsenhor Domingos, em Divinópolis. Porém, o que era algo simples para qualquer equipe de redação fazer, se transformou em momentos de revolta e humilhação para a repórter e o cinegrafista. Durante a visita, estavam presentes apenas as equipes da TV Candidés, da Rádio de Divinópolis, que iriam fazer um perfil sobre a atual Secretária, e profissionais do Movimento Unificado Negro de Divinópolis (MUNDI).
Segundo Nayara, não houve um aviso prévio da presença da equipe da TV à assessoria de imprensa da Secretária, mas a diretoria da Escola estava ciente que os jornalistas estariam presentes para a cobertura da visita. A repórter conta ainda, que ao avisar uma das assessoras de presença da equipe, esta questionou qual era a pauta. “A assessora da Macaé chegou a mim e falou ‘me deixa ver a sua pauta’, só que a gente sabe que isso não pode no jornalismo. Então eu falei que não tinha pauta, e que estava ali só para cobrir o evento. Quando acabou o pronunciamento da secretária, eu cheguei perto dessa mesma assessora e perguntei se eu poderia entrevistar a Macaé. Ela me perguntou sobre o quê, e eu informei que era sobre a visita da escola, e ela me disse que sobre isso, podia”, descreve.
A jornalista ressalta que após concordar em deixarem que ela entrevistasse Macaé Evaristo, a própria assessoria arrumou o local para a entrevista, e colocaram ainda, um jarro com flores para que o cenário ficasse agradável. “Eles [assessoria] colocaram um jarro de flores para que o cenário ficasse bonito, e eu fiz as perguntas sobre a visita na escola, sobre as prioridades do governo, e a última pergunta, onde tudo começou, foi sobre a lei n° 10639, que fala sobre a inserção da disciplina sobre a cultura africana nas escolas públicas”, conta.

 

RESPOSTA
A pergunta que desencadeou toda a confusão foi: “me explica sobre a lei 10.639”, ao que a secretária respondeu: “nada foi feito sobre isso nos últimos doze anos”. Com o intuito de melhorar a declaração, Macaé Evaristo solicitou à repórter que regravassem a entrevista. A equipe se disponibilizou a atender ao pedido da secretária, mas foi impedida pela assessoria com a alegação de que editassem antes da reportagem ser exibida. “A Macaé queria regravar, falando que pouco havia sido feito nesse sentido, para não ofender a oposição, mas a própria assessora não quis deixar que ela gravasse de novo, e falou que eu cortava depois. Eu falei que tinha essa possibilidade, que a gente cortava depois, não tinha problemas. Só que quando eu saí da sala onde a secretária estava, eu e o cinegrafista fomos abordados por essa assessora”, lembra.

 

CONFUSÃO
A repórter relata que após sair da sala, a assessora abordou os jornalistas com hostilidade, exigindo que eles apagassem a entrevista. Assustados com o rumo que a situação estava caminhando, a repórter e o cinegrafista tentaram apagar o material direto na câmera, mas não conseguiram. “A gente ficou muito assustado na hora, nós tentamos apagar de verdade, a gente já estava com raiva daquilo, mas não conseguimos apagar. Nós ligamos para o nosso diretor de jornalismo, que nos orientou a ir embora e não apagar o material”, detalha.
De acordo Nayara, quando a assessora percebeu que a equipe iria embora sem apagar a entrevista, ela começou a ameaçar que iria processá-los, chamar a polícia e que eles não poderiam fazer isto, porque estavam desobedecendo a uma lei do governo. “Nesse momento, o diretor da escola começou a falar que também ia nos processar, ele falava ‘eu também processo, porque eu falei com eles que tinha visita, mas não falei que podia entrevistar a secretária’. No momento tinha um militante do PT, que até então, eu não conhecia, o Humberto Pozzolini, que já foi Secretário Municipal do Meio Ambiente, e começou a colocar lenha na fogueira, querendo ensinar o cinegrafista como mexia na câmera, tentando apagar a entrevista. Eles nos ridicularizaram o tempo inteiro”, enfatiza.

 

CÁRCERE
Para tentar fazer com que o problema acabasse imediatamente, e a situação não tomasse proporções maiores, os jornalistas tentaram sair da escola, mas foram impedidos pelo diretor da instituição e assessora da secretária. “No momento em que o meu chefe pediu para eu sair da escola, eu saí na frente e o Yan veio logo atrás. Eu consegui sair da escola, mas o diretor de lá trancou o cinegrafista lá dentro”, explica a repórter.
Segundo o cinegrafista, após ser preso pelo diretor na escola, ele tentou conversar com os envolvidos, e pediu para que abrissem o portão para ele sair, o que foi negado. “Eu estava atrás, com o tripé e a câmera, quando o diretor me fechou lá dentro, e o questionei se ele estava me prendendo lá. Ele falou pra gente conversar, e abriu o portão de novo, e eu tentei sair mais uma vez. Nisso veio um homem que colocou a mão no meu pescoço, e quando eu tentei tirar a mão dele de mim, ele falou que era policial, mas ele não apresentou o distintivo ou se identificou”, relata.
Revoltada com a agressão que o colega sofreu, Nayara conta que empurrou o homem que alegava ser policial. A equipe ficou presa na escola de 11:30h às 13h, contando com a solidariedade de alguns funcionários da escola, que ficaram estarrecidos com a situação. “Na hora em que abriram o portão de novo, eu entrei, e fiquei estarrecida com o que o homem estava fazendo com cinegrafista, e eu empurrei ele, aí ele gritou que era policial. No tempo que nós ficamos presos, eles não acreditavam que nós não sabíamos apagar a entrevista. O Humberto Pozzolini começou a falar coisas como se a gente nunca tivesse feito grandes entrevistas. Eu já entrevistei dois governadores, eu não sou iniciante. As assessoras falavam que a gente tava agindo de má fé, nos trataram como se fossemos criminosos”, frisa.

 

NEGOCIAÇÃO
A equipe só pôde ir embora da escola quando o diretor de jornalismo da TV Candidés, Flaviano Cunha chegou ao local. De acordo com Flaviano, ao chegar à instituição, ele encontrou uma situação constrangedora. “A minha equipe estava realmente presa na escola, eu fui recebido na porta da escola, e a negociação foi feita antes de eu entrar na instituição, que é pública. A primeira coisa que eu expliquei a eles foi que, este é um procedimento do jornalismo, que fere o código de ética. O material não pode ser apagado, porque a TV não forçou a secretária a conceder entrevista. Se houve, em algum momento, uma falha de protocolo, que foi o que eles alegaram, a assessoria tinha a liberdade de falar que não era para gravar entrevista”, detalha.
Durante a conversa, o diretor de jornalismo alegou à assessoria que a equipe estava na escola apenas para cobrir a visita, e não para causar polêmicas com a secretária. “O que a assessora falou, foi que a pergunta que a Nayara fez não estava no protocolo. Mas eu falei com ela, que a assessoria tem o direito de sugerir e dialogar quanto ao formato que a reportagem vai ser feita, mas ela não pode interferir nos veículos de comunicação. O episódio foi extremamente indecoroso, extremamente deselegante. Agora, a TV Candidés não vai se sujeitar a esse tipo de pressão. A negociação durou 10 minutos, e eu não esperava passar por isso”, esclarece.

 

EDUCAÇÃO
Um dos fatos que surpreendeu toda a equipe da TV Candidés, foi o fato do episódio ter ocorrido com assessores de uma Secretaria de Educação, além de o diretor da escola ter tomado tais atitudes na frente de alguns alunos que estavam na instituição. “A gente fica preocupado, porque é uma escola estadual, onde os nossos filhos vão estudar. Se um diretor de escola, que cuida de várias crianças e adolescentes, em uma escola igual ao Monsenhor Domingos, que tem vários projetos culturais, ter uma postura dessas”, lamenta o cinegrafista.

 

AMIRT
O presidente da Associação Mineira de Rádio e Televisão (Amirt), Mayrinck Pinto de Aguiar Junior, repudiou o ato da assessoria da Secretária Estadual de Educação, e ressalta que o episódio demonstrou o despreparo dos profissionais. “Faltou respeito à liberdade de imprensa, à liberdade de expressão, que são pontos fundamentais da essência de qualquer ser humano. Tem que pregar isso na escola, para dar condições de termos cidadãos no futuro. O que me assustou é que a matéria era para promover a secretária, e não houve perguntas cobrando as promessas do governo. Essa assessoria está despreparada. O que eles cometeram foi cárcere privado, e é inadmissível”, garante.
Segundo o presidente da Amirt, a associação encaminhou para a Secretaria de Estado de Educação um relatório sobre o fato, solicitando um posicionamento do órgão. O mesmo documento foi encaminhado para a Associação Brasileira de Rádio e Televisão, e aos órgãos de imprensa. “A imprensa respeita as instituições, mas ela também deve ser respeitada. A associação não admite, de forma nenhuma, o cerceamento ao direito da imprensa, não concordamos com abuso, de lado nenhum”, enfatiza.

 

SENTIMENTO
A repórter garante que irá tomar as providências cabíveis, com o apoio da TV Candidés, pois se sentiu humilhada diante da situação. “Você ficar trancada numa escola, durante uma hora, com todo mundo te olhando como se você fosse um criminoso, e você não fez nada, estava simplesmente fazendo o seu trabalho, é humilhante. A Macaé não viu nada, tanto que a assessora esperou que ela saísse da sala para vir falar”. Quanto ao partidarismo que dividiu a opinião de internautas, Nayara acredita que a atitude da assessoria seria a mesma, caso o governo fosse o da oposição. “Eu já entrevistei autoridades do PT e do PSDB, e sempre fui muito bem recebida. Já conversei com os governadores dos dois partidos, e foi a primeira vez que aconteceu isso comigo. Nunca passei por uma situação assim. Pela forma como tudo aconteceu, foi despreparo”, finaliza.

 

NOTAS
Em nota, a Secretária Estadual de Educação disse que “lamenta profundamente a situação, independentemente das razões que motivaram o mal entendido entre assessores da SEE e profissionais da TV Candidés. A SEE reitera seu reconhecimento e respeito ao trabalho da imprensa, com plena liberdade [...] Por fim, a SEE expressa seu respeito ao trabalho da repórter e do cinegrafista da TV Candidés, que faziam a cobertura desta pauta na quarta-feira”.
A assessoria de imprensa da Polícia Militar informou que vai apurar quem são os policiais envolvidos no ocorrido, para averiguar os fatos.
Nossa reportagem procurou o diretor da escola, e ele disse que iria falar em uma coletiva de imprensa, acompanhado do Superintendente Regional de Ensino, Silvio Faria, hoje.
Procuramos também, o ex-secretário municipal de meio ambiente, Humberto Pozzolini, e ele afirmou que entraria em contato com a nossa reportagem, mas até o fechamento desta edição, não houve posicionamento.

 

REPÚDIO
Durante toda tarde, vários jornalistas, profissionais da área e órgãos públicos emitiram notas de repúdio, apoiando a equipe da TV Candidés, através de notas e redes sociais.
O deputado federal, Jaime Martins, disse em nota “É um episódio lamentável. O cerceamento ao trabalho da imprensa agride a democracia, agride a todos nós. Quero manifestar minha solidariedade à equipe da TV Candidés e a todos os profissionais que se sentiram ultrajados por este fato. Cabe reiterar meu absoluto compromisso com a transparência e liberdade de imprensa. É importante que se apurem esses fatos, para que momentos lastimáveis como este não se repitam".
O também deputado federal, Domingos Sávio, também enviou uma nota à imprensa repudiando o ato da assessoria de imprensa da secretária, e informando que usou a tribuna da Câmara Federal para falar do assunto. “Quero manifestar minha solidariedade à repórter Nayara Lopes e ao cinegrafista Yan D'masoyy, extensivo aos demais profissionais da TV Candidés, vítimas desta agressão, e reiterar meu total compromisso com a plena liberdade de imprensa. Quero lembrar, que sou o autor do Projeto de Lei que agrava a pena para agressão a profissionais da imprensa no exercício da sua atividade. Agredir ou impedir o livre trabalho dos profissionais da imprensa é agredir a democracia e, portanto, é atentar contra a liberdade de toda população".
Os vereadores, Marcus Vinícius, Edimar Félix, Careca da Água Mineral, José Wilson – Piriquito, Adilson Quadros, Anderson Saleme, Edmar Rodrigues, Hilton de Aguiar, e Rodyson Kristnamurti assinaram uma moção de repúdio, aonde exigiam uma retratação “Através desta, manifestamos o repúdio ao comportamento adotado pela assessoria da Secretaria de Estado de Educação de Minas Gerais, que durante visita a Divinópolis feriu princípios constitucionais e à liberdade de expressão, ao impedir o trabalho jornalístico da TV Candidés, usando artifícios que não condizem com o Estado Democrático de Direito. Os Vereadores abaixo assinado, exigem retratação e manifestam apoio ao trabalho da imprensa de Divinópolis, que cumpre seu papel social de informar a população de Divinópolis e região Centro-Oeste”.
O deputado estadual, Fabiano Tolentino também deixou sua mensagem de apoio aos jornalistas. “A liberdade de expressão é uma das bases de uma sociedade livre e democrática, e entendo que não pode ser tolhida de forma alguma. Conheço o trabalho jornalístico realizado pela TV Candidés e sei da competência e do profissionalismo de todos aqueles que trabalham na emissora e espero que esse tipo de comportamento seja apenas um caso isolado”.

 


Crédito: Pollyanna Martins
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