sábado, 9 de Janeiro de 2016 04:24h Jotha Lee

São João de Deus não cumpre acordo com o Estado para liberação de R$ 17 milhões

Superintendente de Saúde contesta declarações do promotor Sérgio Gildin

A Superintendente Regional de Saúde, Gláucia Sbampato, contestou ontem as declarações do promotor Sérgio Gildin, curador das Fundações e responsável direto pela intervenção ocorrida no Hospital São João de Deus (HSJD), com o objetivo de estancar a crise que afeta a instituição. Com uma dívida que já se aproxima dos R$ 130 milhões, o hospital já suspendeu serviços, os salários dos médicos continuam atrasados e a gestão, sob responsabilidade da Dictum, empresa interventora indicada pelo promotor, ainda não apresentou resultados para equilibrar o hospital. Após a intervenção, a situação agravou-se ainda mais, pois os recursos que chegam não têm sido suficientes para garantir os serviços que o HJSD sempre ofereceu com qualidade ao longo de 42 anos e a dívida tem um crescimento mensal próximo de R$ 3 milhões.
Em entrevista concedida ao Portal Centro-Oeste, Sérgio Gildin praticamente transferiu para o Estado a responsabilidade de um eminente fechamento do HSJD. “O hospital pode fechar daqui um mês, dois anos, como pode fechar hoje e poderia ter fechado antes. O que temos feito é fazer que continue a assistência ao SUS e ele não feche […] Pode ser tarde quando o Estado quiser socorrer, porque a situação vai se desequilibrando, a estrutura sucateando”, declarou. Gildin tratou com desdém o anúncio feito pelo governo estadual da liberação de R$ 17 milhões para compra de serviços e reabertura de 20 leitos de UTI (até agora somente cinco foram disponibilizados) . Segundo ele, o dinheiro está sendo usado como “propaganda enganosa”, já que nenhum centavo será utilizado para abatimento da dívida.
O promotor admitiu, anda, que os demais leitos não foram abertos porque o hospital não consegue formar as equipes médicas. Uma das razões para isso, segundo o próprio promotor, é o atraso no pagamento de salários.

 


DESCUMPRIMENTO
Ao contestar ontem as afirmações do promotor Sérgio Gildin, a superintendente regional de Saúde, Gláucia Sbampato, esclareceu alguns pontos sobre a relação do Estado com o HSJD que ainda não haviam sido devidamente explicados. Segundo ela, com o agravamento da crise, no ano passado o Estado, representando pelo Secretário de Saúde, Fausto Pereira dos Santos, reuniu-se com representantes do município, o Ministério Público e a direção do HSJD. Nesse encontro, através de números apresentados pelo próprio hospital, concluiu-se que seriam necessários R$ 17,1 milhões para a manutenção de serviços de urgência e emergência. Em outubro do ano passado foi publicada a Resolução 4.944, da Secretaria de Estado da Saúde possibilitando a liberação dos recursos para ativação e custeio de 20 leitos de UTI e ampliação do acesso às internações de urgência e emergência. Segundo a resolução “o repasse ao beneficiário se dará a título de ressarcimento da produção a ser realizada”.
Ao contrário do que afirmou o promotor Sérgio Gildin, Glaucia Sbampato explica que o dinheiro somente será liberado mediante a prestação de serviços, já que não é função do Estado quitar as dívidas do HSJD. “O Estado não tem que abater dívida do hospital ou do município. O Estado tem a obrigação de comprar serviços para a população”, explicou. “Os R$ 17 milhões foram liberados para a compra de serviços de leito de terapia intensiva, mais procedimentos de cardiologia, neurologia e ortopedia, não apenas para os leitos de CTI. Mas a liberação desse recurso está vinculada à prestação de serviço. O dinheiro não iria cair diretamente na conta do Hospital. O serviço sendo feito e a Autorização de Internação Hospitalar (AIH) sendo apresentada, o Estado paga”, garantiu.
A superintendente de Saúde disse ainda que o acordo não foi cumprido pelo hospital, já que a instituição não conseguiu formar as equipes médicas para colocar todos os leitos de UTI em funcionamento. “Porque não tem credibilidade e não tem dinheiro para contratar equipe para isso”, assegurou. “O Estado fez um pacote para comprar todo o serviço, agora se o hospital não consegue montar a equipe, é um problema de gestão. O Estado tem que garantir o serviço à população seja onde for. A gente está esgotando todas as possibilidades para que seja no Hospital São João de Deus. Não sendo, temos que partir para outra unidade hospitalar”, ameaçou.
Gláucia Sbampato disse ainda que o Estado continua pronto para participar da recuperação do Hospital São João de Deus. Segundo ela, a Secretaria de Estado da Saúde está realizando estudos para viabilizar o pagamento dos salários atrasados dos médicos que prestam serviços à instituição. “Foi solicitada uma planilha com detalhamento dos valores da dívida e a Secretaria de Saúde está aguardando o retorno do hospital para dar encaminhamento à liberação dos recursos”, garantiu.

 


NOTA
Ontem a tarde a Assessoria de Imprensa do Hospital São João de Deus encaminhou nota ao Gazeta do Oeste, contestando teor da reportagem publicada na edição do dia 5 de janeiro, com base em uma mensagem enviada ao deputado estadual Fabiano Tolentino (PPS), por um dos mais antigos médicos da instituição. Segundo o médico, “se não houver estancamento imediato da crise, a instituição não suportará os próximos três meses e terá que fechar suas portas”. Ainda de acordo com o médico, além de vários setores com atividade paralisadas, ainda faltam medicamentos e não há diálogo com a direção. O médico alertou ainda que faltavam até lençóis para os leitos disponibilizados aos pacientes.
Na nota encaminhada ontem, o hospital disse que, “diferentemente do que foi publicado, o Hospital possui atualmente um estoque suficiente de todos os medicamentos necessários para atender os pacientes que buscam por atendimento nesta instituição, além de contar com parcerias com outros estabelecimentos de saúde que já se prontificaram a ceder medicamentos ao HSJD caso isto se faça necessário. Reforça, ainda, ao contrário do que foi publicado, que os setores de Cardiologia, Urologia e Hemodiálise permanecem em plena atividade, prestando seus atendimentos normalmente, inclusive aos pacientes do Sistema Único de Saúde – SUS”.
Sobre a falta de lençóis, o hospital admitiu que o problema existiu, mas já foi solucionado. “Com relação à suposta falta de materiais, como roupa de cama, o Hospital esclarece que o cenário descrito na matéria não mais subsiste, estando regularizado. O curto período de tempo ao longo do qual se verificou a diminuição na disponibilidade destes materiais se deveu à dificuldade da empresa Lavanderia Atmosfera (contratada para coleta, higienização e devolução em tempo hábil dos enxovais do HSJD) em honrar os seus compromissos, tendo em vista o extravio de parte destes produtos (o que atraiu a necessidade de gravar as logomarcas do Hospital no material entregue em substituição) e, ainda, a greve dos caminhoneiros, que dificultou ou mesmo impediu o transporte destes materiais, situação já normalizada, vale repetir. Recentemente, inclusive, o Hospital recebeu um novo estoque de enxovais, que já estão disponíveis para uso”, afirma a nota.
A assessoria de imprensa finaliza a nota afirmando que “a Instituição tem se esforçado e mantido todos os itens básicos para atendimento aos pacientes, acompanhantes, visitantes e colaboradores, sendo absolutamente falsa a ideia de que a sua gestão e, especialmente, o atendimento aos seus usuários, têm sido realizado de modo não profissional”. A nota só não explicou o atraso de salários dos médicos da instituição, que já ameaçam suspender o atendimento em diversos setores.

 

 


Créditos: Jotha Lee

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