segunda-feira, 7 de Abril de 2014 10:24h

A Colômbia no Brasil: inspiração em diversos campos

Na infância, no início da década de 1940, o escritor Gabriel García Márquez havia tentado a sorte como goleiro em times da cidade de Aracataca, mas sua paixão pelo futebol só se consolidaria mesmo nos primeiros meses de 1950.

escrevendo um capítulo de sua tumultuada carreira na mesma Barranquilla. Em agosto de 1968, Garrincha faria uma aparição relâmpago pelo Júnior que entraria mais para a história do futebol colombiano do que para a do próprio Mané – mas que também serviria para estreitar os laços entre os países.

Perto de completar 34 anos, com a carreira em declínio após deixar o Botafogo, Garrincha foi contratado a peso de ouro pela equipe alvirrubra. O alvoroço que provocou na cidade parecia suficiente para confirmar que o investimento era válido. O problema é que o atacante já não era mais aquele que conquistara dois Mundiais da FIFA, em 1958 e 1962: comprometido fisicamente, havia ido à Colômbia mais pela promessa de que sua amada Elza Soares o encontraria por lá.

Apenas seis dias após desembarcar em Barranquilla, o astro entrou em campo no Romelio Martínez, enlouqueceu a torcida com algumas poucas arrancadas pela direita e recebeu aplausos mesmo sem ter grande atuação, sem impedir a derrota para o Independiente Santa Fe por 3 a 2. Pouco depois, a incontrolável saudade de Elza forçou sua saída do Hotel Majestic e, mesmo dizendo que se sentia em casa na Colômbia, viajou ao Brasil para nunca mais voltar.

A curta história não teve um final feliz, mas o episódio foi significativo no imaginário colombiano do futebol. Ainda mais porque tantos outros brasileiros, como Dida, Quarentinha, Paulo César Caju – levado a Barranquilla pelo pai adotivo, o então treinador Marinho Rodrigues –, Tim, Teixeira Lima, Mengálvio, Othon da Cunha, Reinaldo da Silva, entre outros, acabariam deixando, cada um à sua maneira, marcas indeléveis naqueles que viveram os anos dourados do campeonato local.

Um destes, o jornalista local e poeta Hugo Illera, relembra um caso em particular. “Quando era pequeno, carregava as malas para o Dida ao entrar no estádio. Nunca me esquecerei daquilo”, conta, emocionado, ao FIFA.com. “Um dia, depois de uma partida, o convidei a vir à minha casa. Foi um escândalo no bairro e um carnaval em casa. Dida chegou com Quarentinha, Roberto do Amaral e Paulo César Lima. O Dida era o 10 da Seleção até o Pelé aparecer e tinha um carinho muito grande pelas crianças.”

Inspiração e superação
O período em que craques brasileiros – e também de toda América do Sul e até da Polônia – desfilaram pelos campos do país foi inspirador e fundamental na evolução do futebol colombiano. E a prova de que a equipe cafetera cresceu nos anos seguintes está nos próprios números do confronto entre os países.

De freguês e saco de pancadas – como registram as goleadas por 5 a 0, 9 a 0 e 6 a 0 em 1949, 1957 e 1977, respectivamente, e as oito vitórias do Brasil em dez partidas até a primeira derrota, em 1985 –, a Colômbia conseguiu recentemente equilibrar o duelo, com os quatro empates nos últimos jogos mostrando que a admiração se transformara em superação.

E não é coincidência que este crescimento tenha sido concomitante à ida dos colombianos a times brasileiros. Enquanto Rincón, Asprilla – que fez sucesso no Palmeiras –, Aristizábal – herói de São Paulo e Cruzeiro – e Muñoz marcaram época entre os anos 1990 e início dos 2000, mais recentemente foi a vez de outros como Fabián Vargas, Pablo Armero, Edwin Valencia, Wason Rentería, Edixon Perea e, o últimos deles, Dorlan Pabón aprofundarem esta relação.

Assim como a antiga geração, esta nova leva – e provavelmente muitas outras que se seguirão – também cresceu admirando os craques brasileiros, como comprova Jackson Martínez, estrela da atual seleção colombiana que, se prefere não arriscar respostas em português, entende perfeitamente a língua.

“Sempre gostei muito do futebol brasileiro e, desde pequeno, o jogador que mais admirava era o Ronaldo. Também quando o Aristizábal e o Muñoz estiveram lá, via muitos jogos do Santos, São Paulo e das equipes que jogavam a Libertadores”, explica o atacante do FC Porto ao FIFA.com. “É um futebol com um talento incrível. Diria mesmo único em todo o mundo. E, claro, o sucesso brasileiro teve influência no crescimento do futebol colombiano.”

Ao fim desta temporada, Jackson voltará à América do Sul para disputar a Copa do Mundo da FIFA. No país vizinho, a seleção colombiana chegará mais uma vez em grande fase, como cabeça de chave do Grupo C, e ainda terá uma razão a mais para sonhar com campanha superior àquelas dos três Mundiais dos anos 1990.

“Motiva demais jogar no Brasil”, garante Rincón. “Essa afinidade pode ajudar bastante. Os colombianos conhecem bem o país, que não é tão diferente do nosso. Tenho certeza que a Colômbia será muito bem recebida e se sentirá em casa", completa. E nesta casa, que já é o lar de mais de 10 mil imigrantes colombianos, os dois países esperam mostrar que a paixão que dividem pelo futebol bem jogado pode levá-los ainda mais longe.

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