terça-feira, 30 de Outubro de 2012 05:29h Gazeta do Oeste

A regra é clara. Mas desrespeitada

Dezessete mandamentos compõem o livro de regras do futebol. Enxuto, o documento aprovado pela Fifa define das dimensões do campo de jogo aos detalhes sobre a cobrança de escanteios. Em julho, a Confederação Brasileira de Futebol (CBF) editou um material atualizado com todas as normas da modalidade. “Deus e as leis (do jogo) são as nossas inseparáveis proteções”, escreveu o chefe da Comissão de Arbitragem da entidade, Aristeu Tavares, no prefácio da publicação.

A maioria das regras existe há décadas. Mesmo assim, lances que podem mudar o resultado de uma partida acabam ignorados pelo quinteto de arbitragem, como ocorreu no clássico entre Cruzeiro e Atlético no encerramento do turno do Brasileiro, por exemplo. Depois de jogada que teve origem em uma falta não marcada pelo árbitro Nielson Nogueira Dias, do armador Montillo sobre o atacante Guilherme, a Raposa arrancou o empate nos acréscimos, para revolta dos torcedores alvinegros.

Normas são descumpridas também em situações menos importantes. Também há regras que dão brechas para várias interpretações e até acertos são discutidos como erros. O episódio ocorrido na derrota do Palmeiras para o Internacional por 2 a 1, no Beira-Rio, na última rodada, é um exemplo clássico. Depois de comunicado pelos assistentes, o árbitro Francisco Carlos Nascimento, que havia validado gol de mão do palmeirense Barcos, voltou atrás e marcou a falta do jogador. O tento asseguraria o empate ao Verdão, em risco iminente de ser rebaixado.

A cúpula palmeirense reclama de irregularidade na decisão do árbitro e vai recorrer ao Superior Tribunal de Justiça Desportiva (STJD) para tentar anular o jogo. Os dirigentes sustentam que Nascimento teve ajuda do delegado da partida, Gerson Baluta, que por sua vez recorreu às imagens de TV para concluir sobre o lance. Utilizar recursos eletrônicos em casos como esse é proibido pela Fifa. Um trecho do quinto parágrafo do livro de regras da entidade máxima do futebol mundial diz ainda que “o árbitro somente poderá modificar uma decisão se perceber que a mesma é incorreta ou, a seu critério, conforme uma indicação de um árbitro assistente ou do quarto árbitro, sempre que ainda não tiver reiniciado o jogo ou terminado a partida.”

A regra 5, que trata dos poderes e deveres do árbitro, diz ainda que ele controlará a partida em cooperação com os árbitros assistentes e, quando possível, com o quarto árbitro. Caso semelhante ocorreu na decisão do Mundial da Alemanha’2006. O delegado do jogo França x Itália foi fundamental na expulsão de Zinedine Zidane, por ter avisado o árbitro da cabeçada do francês no italiano Materazzi. Neste caso, o quarto árbitro recorreu ao monitor oficial da Copa para rever o lance e auxiliar o juiz na decisão.

O Estado de Minas levantou outros itens do documento da CBF para demonstrar que a regra pode ser clara, mas nem sempre é cumprida no Campeonato Brasileiro.


Apitaço
O árbitro tem de interromper a partida caso algum torcedor assopre um apito semelhante ao do mediador do jogo. Esse tipo de problema atrapalhou o andamento de Flamengo x Atlético, pela 14ª rodada. Camuflados entre os 30 mil apitos distribuídos pelo clube carioca para desconcentrar Ronaldinho, alguns apoiadores levaram equipamentos profissionais ao Engenhão. Quando eles eram utilizados em divididas, os atletas relutavam antes de seguir na jogada. Jailson Macedo de Freitas não tomou nenhuma atitude.

Sangue
Jogadores não podem ficar em campo se estiverem sangrando, e só retornam caso o ferimento estanque. Mas também não é permitido que eles usem uniformes manchados de sangue. Isso aconteceu com Leonardo Silva, na 15ª rodada. No jogo contra o Coritiba, o atleta do Galo levou uma cotovelada no supercílio e saiu para atendimento. Depois de voltar com a camisa suja, permaneceu no gramado até o fim da partida.

Fora da área?
Caso um atleta comece a ser puxado fora da área e a infração continue até a entrada dele na grande área, o árbitro deverá marcar pênalti. A própria a regra desconstrói o equívoco de que a falta tem sempre de ser anotada no início da jogada.

Agarrões
Os puxões de camisa que constantemente atrapalham o andamento das partidas poderiam ser mais raros caso os árbitros cumprissem as regras: um atleta que tenta impedir o rival de obter a posse de bola ou se colocar em posição vantajosa deve receber cartão amarelo. Norma desrespeitada diversas vezes por rodada.

Reposição
Nenhum atleta adversário pode estar na grande área no momento da cobrança do tiro de meta. Apesar de conhecida, a norma nem sempre é respeitada. Em momentos de pressa do time derrotado, os goleiros costumam colocar a bola em jogo rapidamente, sem observar a regra. No São Paulo x Grêmio da 16ª rodada, por exemplo, Rogério Ceni recomeçou o jogo com o gremista Kléber dentro da área e a jogada quase terminou em gol. Elmo Alves Resende deixou seguir.

Bola em jogo
Uma das condições para a marcação de uma falta é a bola estar em jogo. O pré-requisito escancara uma falha do árbitro Jailson Macedo de Freitas no lance mais polêmico de Atlético x Fluminense disputado pela 32ª rodada. O zagueiro atleticano Leonardo Silva empurrou a barreira tricolor antes de Ronaldinho Gaúcho cobrar a falta (foto) que terminaria em gol, posteriormente anulado. Neste caso, o juiz deveria advertir o jogador atleticano verbalmente e mandar R49 repetir a cobrança.

Bola na mão
Em casos de contato entre bola e mão, o árbitro só deve apitar falta caso avalie a existência de uma ação deliberada do atleta em levar o braço em direção à bola. “A posição da mão não pressupõe necessariamente uma infração”, alerta o livro de regras. Na 30ª rodada, contra a Ponte Preta, o Fluminense teve um pênalti marcado de forma errada a seu favor. A bola atingiu o braço de Luan depois de acertá-lo na coxa e o jogador do time de Campinas estava atrás do atacante tricolor. Ainda assim, Nielsen Dias viu uma infração, Fred converteu a penalidade e o tricolor venceu de virada.


STJD NO PARLAMENTO
A Comissão de Esporte, Lazer e Juventude da Assembleia Legislativa vai debater a relação da CBF e do STJD com os clubes mineiros, hoje, às 15h, no Plenarinho II. A reunião se deve a requerimento do presidente da comissão, Marques (PTB), e dos deputados André Quintão (PT), Gustavo Valadares (PSD), João Leite (PSDB) e Rogério Correia (PT). Os deputados foram motivados pela suspensão do armador Ronaldinho Gaúcho, aplicada pelo tribunal, sem o jogador ter sido sequer advertido pelo árbitro Heber Roberto Lopes (durante jogo contra o Grêmio, o craque alvinegro levantou o pé à altura do peito do atacante adversário, Kléber). Foram convidados para a audiência pública o presidente do STJD, Flávio Zveiter; o presidente da CBF, José Maria Marin; o presidente da Federação Mineira de Futebol, Paulo Schettino; e os presidentes do Atlético, Alexandre Kalil; do Cruzeiro, Gilvan de Pinho Tavares; e do América, Marcus Salum.

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