terça-feira, 7 de Agosto de 2012 16:39h Gazeta do Oeste

Através do basquete, adolescentes mudam a mentalidade de um bairro inteiro

 É comum ouvirmos que o esporte salva e modifica vidas. A frase pode parecer um mero clichê e a utopia daqueles que sonham com dias melhores, mas histórias como a da Escola Municipal José Serafim de Lavras ilustram perfeitamente a magia esportiva.

Adolescentes do bairro Novo Horizonte, um dos mais pobres de Lavras, encontraram no basquete uma maneira de lazer e logo alcançaram resultados expressivos, mudando toda a cultura do local onde moram. As meninas deram um motivo aos moradores para se orgulharem do Novo Horizonte e o desempenho alterou até mesmo a taxa de gravidez entre as jovens: queda de 80% para 20%, de acordo com dados da Secretaria de Saúde da cidade.

"O bairro sempre foi muito discriminado pela sociedade, mas agora com as conquistas das meninas melhorou muito a autoestima dos moradores e algumas pessoas, principalmente os familiares das atletas, já sentem orgulho de residirem no bairro das meninas do basquete", disse Ricardo Pacheco, idealizador do projeto e treinador da equipe, que comentou sobre o desempenho escolar das participantes.

"Não temos exigência de nota, mas, sim, um acompanhamento e uma orientação no que diz respeito ao desempenho escolar. Sem duvida o aproveitamento melhorou muito", destacou.

Mas não foi só fora de quadra que os resultados apareceram. Dentro dela, as meninas do Verde Campo Lavras conquistaram o bicampeonato mineiro na categoria sub-15, detonando todas as rivais que passaram pela frente (90 x 7 sobre Belo Horizonte, 81 x 21 sobre Santa Luzia, 80 x 9 na semifinal sobre Janaúba e 60 x 23 na grande final sobre a Araguari). Isso para garotas que sequer conheciam o basquete antes de começar a praticá-lo.

"No início, a maioria nunca tinha visto um jogo de basquete e foram para os treinos por falta de lazer no bairro", afirmou Pacheco, que contou como se deu a ideia de começar o projeto, em setembro de 2007.

"Como o bairro Novo Horizonte tem uma  grande população de crianças e não tinha nenhuma atividade para esses jovens, solicitei à prefeitura, o meu encaminhamento para a E. M. José Serafim com o objetivo de montar um projeto de basquete no bairro", revelou.

O basquete no Novo Horizonte tem dado tão certo que algumas das meninas já se destacam individualmente. A equipe tem sete atletas na Seleção Mineira sub-15. Os bons resultados abriram os olhos do empresariado de Lavras, e uma fábrica de latícinios da cidade já patrocina as meninas, oferecendo lanches e pagando as despesas para competição nos campeonatos - além de ceder o nome à equipe.

"O apoio ao projeto foi motivado por dois fatores principais. Um é a filosofia da empresa, de retornar para sociedade parte do nosso conhecimento, a maior parte do apoio está na alimentação das meninas. Segundo, é apoiar a iniciativa do treinador, em um trabalho em um bairro carente e isso foi um estímulo para entrar no projeto", disse Alexandre Carvalho, dono da Verde Campo Laticínios, que completou, reforçando o orgulho do bairro Novo Horizonte com as campeãs.

"A importância das conquistas é difícil de descrever. Primeiro, porque temos vários depoimentos de que as vitórias deste time são importantes para a cidade. Esse time mudou a autoestima do bairro. Temos depoimentos de pessoas que falavam que mudavam o endereço quando iam procurar emprego pelo estigma que o bairro tinha e esse projeto trouxe orgulho aos habitantes. Os índices de violência e desempenho escolares melhoraram no bairro. O projeto é muito bonito por tudo que eu falei", afirmou.

Por fim, com todo este trabalho iniciado em Lavras, vale uma reflexão no âmbito esportivo. O investimento e a boa vontade são capazes de mudar todo o panorama do esporte nacional, que ainda carece de incentivo. Em tempos que o basquete feminino brasileiro teve uma campanha pífia na Olimpíada de Londres, vale a esperança de que as meninas do Novo Horizonte, além de outras garotas espalhadas por todo o Brasil, sejam o futuro esportivo nacional. E é possível que isso ocorra, como alerta Ricardo Pacheco.

"Para a melhoria do nosso basquete, o primeiro passo seria a massificação do esporte ataves das escolas, principalmente na rede pública, que é onde encontraremos grandes talentos", afirmou.

Resta torcer!

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