segunda-feira, 10 de Março de 2014 05:15h Redação

Brasil, o país do... volante?

Ser médio-volante, no futebol do Brasil, não é exatamente o caminho mais seguro para se ser popular.

E no entanto, parece impossível negar que, em cada um dos cinco títulos mundiais brasileiros, quem ocupava a cabeça da área não foi apenas um mal necessário, mas teve um papel absolutamente fundamental na vitória. Na terra dos camisas 10, do drible e do futebol ofensivo - onde ganhar sem jogar bonito às vezes nem é bem tratado como ganhar -, muito do sucesso histórico se deve a quem não é propriamente defensor, mas está mais preocupado em marcar.

“É só você pensar”, já disse Zagallo, participante em quatro desses cinco títulos, ao FIFA.com. “Em 58 e 62 nós tínhamos o Zito, que era um dos grandes líderes daquele time. Era o capitão do Santos do Pelé. Em 70, eu passei o (Wilson) Piazza para a quarta-zaga, porque sabia que tínhamos no Clodoaldo um cara com ótimo passe e que recuperava a bola. E em 94 ninguém ganhava nosso meio-campo, com o Mauro (Silva) e o Dunga, nosso capitão.”

Some-se a isso o quanto o trabalho operário de Gilberto Silva e Kleberson possibilitava o apoio dos laterais Cafu e Roberto Carlos em 2002 e temos o panorama completo dos volantes como protagonistas dos títulos brasileiros. Quer dizer, a não ser pelo adendo que o próprio Zito faz ao FIFA.com. “No meu tempo não tinha essa de volante: meio de campo era meio de campo. Só que você tinha liberdade para atacar e para defender. Era a mesma coisa com os laterais”, explica ele, sobre seu papel no Santos e nos títulos mundiais do Brasil na Suécia 1958 e no Chile 1962. ”Em certos momentos, se você pegasse um time de jogadores qualificados, jogava mais atrás. Contra um time mais tranquilo e tal, até atacar a gente atacava. Não tinha essa obrigação só de defender.”

Se a Tchecoslováquia de Josef Masopust era “um time mais tranquilo e tal” é algo a se discutir com calma, mas o fato é que, na final da Copa de 62, Zito foi ao ataque, com a bola rolando, e fez um dos três gols brasileiros na vitória por 3 a 1. Coisa de “meio de campo”, não de volante.

Mudou a vida, não os volantes
Observar essa evolução na posição é um bom caminho para entender as mudanças que houve, ao longo do tempo, no futebol de modo geral e no do Brasil, especificamente. Ao analisar para o FIFA.com a conquista no México, em 1970, Clodoaldo já identifica um passo além: ele já era, sim, volante e pensava primeiro em marcar. “Para mim isso era simples; não precisava o Zagallo me mostrar. Por mais que eu tivesse qualidade para sair jogando, se eu olho para a frente e vejo Jairzinho, Gérson, Tostão, Pelé e Rivellino, seria muita pretensão querer superar esses monstros lá na frente”, sorri o Corró, camisa 5 daquele time. “Na época, eu era o único volante a dar aquela proteção defensiva. Hoje os esquemas táticos jogam com dois, até três volantes de origem.”

É mesmo a partir dali que as coisas mudaram de vez. O preparo físico evoluiu, e o jogo ficou mais rápido. Os espaços, menores. Foi preciso buscar novas armas, como os laterais, e, para isso, alguém – os médio-volantes – precisava fazer a cobertura. Aí, então, a velocidade do jogo aumentou tanto que, em muitos casos, o sujeito que marca e faz cobertura é o mesmo que depois se apresenta para atacar. É o tal “volante moderno” – como Paulinho ou Ramires, para ficar em exemplos brasileiros.

Só que o surgimento dessa função não significa, necessariamente, abrir mão daquele elemento protetor, responsável essencialmente por roubar a bola, passá-la adiante e esperar pela próxima ocasião em que seja necessário roubá-la de novo. Pelo menos é o que defende quem fez esse papel na Coreia do Sul e no Japão em 2002, Gilberto Silva, numa entrevista publicada pelo FIFA.com em novembro de 2012. “Esse conceito mudou, sobretudo aqui no Brasil, onde você sempre ouve, nos programas de televisão, gente falando de ‘volante moderno’. Quem não participa do ataque, não faz gol, não é moderno”, conta o ex-capitão do Arsenal, hoje no Atlético Mineiro. “Mas a questão é observar quantas vezes os meias da equipe adversária deixam de trabalhar por conta de um jogador assim. Acho que antes havia, sim, mais volantes com essa incumbência de fazer o ‘trabalho sujo’: realizar a cobertura defensiva, sem prejudicar o lado ofensivo da equipe.”

Mas e agora?
Eis que chegamos à Copa do Mundo da FIFA 2014. Os tempos são modernos, assim como os volantes. Mas que não haja dúvidas: a lógica apresentada por Gilberto Silva é 100% válida para aquele que o comandou na Seleção em 2002 e, agora, está de novo à frente do Brasil. Pouco antes da Copa das Confederações da FIFA 2013, Luiz Felipe Scolari foi mais do que enfático ao falar sobre isso.

“A seleção ganhou em 1994 e quem eram os volantes? Mauro Silva e Dunga. Em 2002? Gilberto Silva e Kleberson. Essa história de volante goleador é muito bonita para a imprensa. É bonito. Só não é bonito para o técnico e o time. Quando tu tens laterais como os nossos, Daniel Alves e Marcelo, tem que ter proteção.”

Descontado o quanto há da habitual esperteza de Felipão em exagerar seus recados quando contestado, é fato que, por muito que conte com a versatilidade de gente como Paulinho e Ramires, ele nem pensa em abrir mão de também ter em campo alguém cuja primeira e única função seja proteger a defesa. O ex-gremista Fernando, do Shakhtar Donetsk, já foi testado. Lucas Leiva, do Liverpool, também. Recentemente, Fernandinho, do Manchester City, entrou na briga por um lugar entre os 23 convocados justamente por ser, vá lá, moderno, mas também saber jogar como cão de guarda convencional.

Estão todos esperando para ver quem se junta a um inesperado titular absoluto, Luiz Gustavo, que ganhou vaga em junho de 2013 e não a largou mais. Tudo à base de vigor, boa marcação e discrição. Além de um desapego que detalhou ao FIFA.com no início do ano: “Não tenho vergonha de ficar marcando para os outros aparecerem na frente e marcarem gols.”

Simples, não? Na Copa, garotinho nenhum deve fazer questão absoluta de vestir a camisa de volantes como Luiz Gustavo, e eles sabem disso. Mas também sabem que, se o próximo modelo de camisa da Seleção tiver uma estrela a mais, vai ser em boa parte por causa daquele trabalho silencioso no meio-campo.

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