quarta-feira, 5 de Setembro de 2012 09:49h Gazeta do Oeste

Alerta para perigo de contaminação na Lagoa da Pampulha é ignorado

Na enseada onde deságua o Córrego do Tejuco, e nos remansos na altura do Bairro Jardim Atlântico, a camada de algas mortas se espalha sobre o espelho d’água

Com uma barra de sabão azul numa mão e uma vara com uma bucha amarrada na ponta, como se fosse um escovão, na outra, o desempregado Ailton de Aguiar Silva, de 72 anos, usa as águas poluídas da Lagoa da Pampulha para tomar banho e lavar as duas mudas de roupa que tem. “Minha mãe me ensinou a tomar banho todos os dias. Não é porque estou morando nas ruas que vou deixar de me limpar”, justifica o baiano de Juazeiro, que veio para a capital mineira estudar e trabalhar, mas não se acertou na vida por aqui. Ailton e um punhado de pescadores de plantão são os poucos que ainda se atrevem a entrar em contato com as águas imundas do reservatório que é um dos símbolos da capital mineira. A ameaça à saúde pública é séria e vem de muito tempo. Ontem fez 44 anos que o então prefeito de Belo Horizonte, Luiz de Sousa Lima, assinou a Lei 1.523, de 4 de setembro de 1968, que prevê multa para quem usa as águas poluídas. A legislação vigora até hoje, mas ninguém é punido.

 

 

Esta é uma das piores épocas para o espelho d’água da lagoa, e mesmo assim as pessoas insistem em nadar e pescar no local. De acordo com especialistas, a estação seca reduz o volume d’água e aumenta a concentração de poluentes e algas. Na enseada onde deságua o Córrego do Tejuco, próximo à Igreja de São Francisco de Assis, e nos remansos na altura do Bairro Jardim Atlântico, a camada de algas mortas se espalha sobre o espelho d’água de forma mais intensa. Como calotas flutuantes de matéria orgânica em decomposição, impregnada de garrafas PET usadas, embalagens plásticas e todo tipo de lixo descartado no lago, esse mosaico cobre grandes extensões e exala um cheiro muito forte e desagradável.

 

O perigo de envenenamento está presente não apenas para quem tem contato frequente com as águas poluídas. De acordo com o mestre em ecologia aquática e consultor de recursos hídricos especialista na Lagoa da Pampulha Rafael Resck, foram identificados no reservatório algas que produzem toxinas capazes até de matar uma pessoa. “Foram encontradas na lagoa cianobactérias que produzem as cianotoxinas. É a mesma substância responsável pela morte de 60 pacientes que faziam hemodiálise em Caruaru (PE), em 1996”, conta. Segundo o biólogo, as águas da Pampulha representam um grave risco para a saúde da sociedade. “Os sintomas vão desde a irritação e a urticária, quando ocorre o contato com a água, até diminuição de movimentos, prostração, cefaleia, febre, dor abdominal, náuseas, vômitos, diarréia e hemorragia intra-hepática, uma vez que as algas atacam o fígado e o sistema nervoso central”, afirma Resck. “Não são raros os casos de óbitos de mamíferos e seres humanos causados pela ingestão de águas com cianotoxinas”, reforça.

 

 

 

 

 

 

 

 

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