sexta-feira, 24 de Agosto de 2012 11:06h Gazeta do Oeste

Aos 20 anos, Belas Artes é o único cinema de rua em BH e deve passar por modernização

Último cinema de arte e de rua de Belo Horizonte, o Belas Artes chega aos 20 anos de olho no futuro. “Estamos atrás de recursos para torná-lo mais contemporâneo em termos de instalação”, anuncia o proprietário Pedro Olivotto, cujo projeto, orçado em R$ 1 milhão, foi aprovado pela Agência Nacional de Cinema (Ancine) e já está em processo de captação.

 

 

Além do aumento da inclinação das salas, para melhor conforto visual do público, o projeto de renovação do espaço da Rua Gonçalves Dias, no Bairro de Lourdes, região Centro-Sul de Belo Horizonte, prevê o restauro da fachada original (1940), do arquiteto Sílvio Vasconcellos, e a repaginação do foyer, onde estão instalados café, galeria de arte e livraria.

 

“Se um dos pés cai, o cinema cai também”, diz Pedro a respeito do tripé responsável pela sobrevivência do Belas Artes. Refazer o projeto do café e montar uma loja de suvenires com a marca BA estão nos planos do empresário, que também cultiva projeto de expansão da rede de salas de exibição.

 

 

Inaugurado em agosto de 1992, o Cinema Belas Artes foi propriedade de vários grupos empresariais, chegando a legar a Belo Horizonte o título de cidade com maior número de salas (13 na época) sob uma mesma chancela (Unibanco). “Claro que com esse número de salas não dava para manter todas como cinema de arte, mas ainda assim Belas Artes e Usina tinham uma programação mais fechada, enquanto Ponteio, Nazaré e Jardim se abriam mais”, recorda Pedro.

 

Antes de retomar para si, há pouco mais de um ano, a propriedade das três salas do Belas Artes, com capacidade para 353 pessoas (144 na sala 1, 129 na sala 2 e 80 na sala 3), que havia vendido, o empresário acabou responsável por aproximar os grupos Usina e Belas Artes. Fundidos em 1996, se transformaram nos Cinemas Usina-Liberdade, então responsáveis pelo Usina (três salas), Savassi Cineclube (uma sala), Belas Artes (três salas), Ponteio Lar Shopping (duas salas) e Nazaré (duas salas).

 

 

“Logo em seguida fundamos o Cine-Jardim, com mais duas salas, no Luxemburgo”, recorda Pedro Olivotto, que, com o desmembramento da sociedade no fim dos anos 1990, se uniu a Leon Cakoff e Ademar Oliveira para criar mais duas salas no Espaço Cultural Dragão do Mar, em Fortaleza, que também encerrariam as atividades. Já unido ao grupo Embracine, ele cria os cinemas Paragem (Bairro Buritis) e Casa Park (Brasília), além de manter o Belas Artes.

 

Em 2009, o empresário negociou o cinema de Belo Horizonte, cuja venda acabou não se concretizando, mudando-se para os Estados Unidos, para onde foi em tratamento de saúde. Dois anos depois, a Justiça devolveu a ele o Belas Artes. Ele encontra uma casa bem diferente da que havia sido entregue ao então comprador. “Foi um momento difícil”, diz, admitindo que “o respaldo de público maravilhoso e da imprensa” lhe proporcionaram dobrar o público das três salas, que, de junho de 2011 para junho de 2012, passou de 9 mil pessoas/mês para 20 mil pessoas/mês”.

 

 

Adepto da prática de não exibir uma obra sequer que não tenha assistido, Pedro Olivotto diz selecionar a programação de suas salas com filmes que o convençam de que está oferecendo o melhor produto ao público. “O que configura o meu trabalho de intermediário”, posiciona-se, anunciando também que irá retomar em novembro a programação musical do café, com shows acústicos nas noites de quinta-feira e sábado.

 

Com capacidade para 22 mesas, o espaço comporta cerca de 70 pessoas, com direito à montagem de pequeno palco para apresentações musicais. Já a galeria de arte, inaugurada sob curadoria de Rui Santana, com o Projeto Mural, posteriormente sediou o Fotograma, que está de volta agora com exposição de Fernando Fiúza.

 

 

Bem cultural

 


“O Belas Artes já não tem mais dono. Eu sou só o tutor. O cinema é de todo mundo, o bem cultural é um bem de todos”, defende Pedro Olivotto, cujo argumento justifica-se diante da crescente democratização do espaço. Apesar da popularidade da casa, no entanto, o empresário diz que no dia em que ele descobrir o perfil do cinéfilo belo-horizontino, estará realizado.

 

“São Paulo e Rio muito pouco interferem em Belo Horizonte. O belo-horizontino tem características próprias e insondáveis de seu gosto pelo cinema”, garante o empresário, citando duas experiências que justificariam a tese. A primeira ocorreu no Festival de Berlim, em 1998, quando, depois de assistir a Corra, Lola, corra (Lola Rennt), do diretor alemão Tom Tykwer, chegou à conclusão de que o filme era “a cara” da cidade. O filme vem para o Brasil, fica em cartaz por duas semanas em São Paulo e outras duas no Rio. “Em Belo Horizonte, foram 16 semanas”, recorda da carreira de sucesso do filme.

 

 

O mesmo teria ocorrido com Filhos do paraíso (Approx matches), do diretor iraniano Majid Majid, que, depois de três semanas em São Paulo e quatro no Rio, ficou em cartaz 52 semanas em Belo Horizonte. “O público belo-horizontino é muito personalizado e meio que incorruptível”, acredita o empresário. Para ele, o cinema brasileiro, por exemplo, é irmão siamês do Belas Artes.

 

“Temos a pretensão de ter um papel dentro da cinematografia de arte e dentro do benefício público. Assim sendo, não tem como não considerar uma prioridade a exibição do cinema brasileiro feito com recursos públicos”, justifica.

 

 

O Belas é uma ilha de bom cinema cercada de blockbusters por todos os lados. Um oásis em meio ao deserto cinematográfico que Belo Horizonte está virando.”
diz, Helvécio Ratton, cineasta.

 

O caminho de ida para o Belas Artes é sempre pra mim um momento de expectativa agradável. Além de saber que vou assistir a um bom filme, sei que vou encontrar pessoas interessantes. E nunca falha!”, diz Pedro Pederneiras, Grupo Corpo

 

Para mim, esse cinema sempre foi sinônimo de casa. Cresci aqui dentro. E acho que para todos os belo-horizontinos cinéfilos o Belas serve como segunda casa.”
diz,Zoe Olivotto, estudante, filha de Pedro Olivotto


Arte de exibir filmes

 

Um herói da resistência do cinema de arte em Minas, talvez no Brasil. Assim o professor e pesquisador Ataídes Braga vê o Belas Artes, depois do fechamento das salas do Savassi Cineclube e do Usina. Autor do livro O fim das coisas – As salas de cinema de Belo Horizonte (Crav/PBH, 1995), Ataídes lembra que a primeira sala alternativa ao crescente monopólio do cinema comercial na cidade foi o Cine Humberto Mauro, inaugurado em 1978, no Palácio das Artes.

 

 

“Foi uma consequência natural do cineclubismo, que, desde meados da década de 1940, desenvolvia-se em Belo Horizonte”, recorda o pesquisador, demarcando a fundação do Centro de Estudos Cinematográficos (CEC), em setembro de 1951. Trinta anos depois, essa tendência desaguaria no Cine Humberto Mauro, acrescido do Savassi Cineclube, uma década depois. “Um cinema de rua com tradição de cineclubismo”, recorda daquele que acabaria se transformando em um verdadeiro gueto do cineclubista mineiro.

 

Ataídes atribui à “decadência física das regiões” a perda de força dos cinemas de arte da capital, o que teria levado ao fechamento do Usina e do Savassi Cineclube – este, coincidentemente, reaberto anteontem com a proposta de dedicar os domingos ao cinema, paralelamente ao funcionamento de bar, restaurante e palco para shows.

 

 

Resultado: sobrecarregado para exibir toda a programação do cinema de repertório na capital, o Belas Artes resiste, enquanto o Cine Humberto Mauro mantém a programação de mostras e debates não focadas no mercado.

 

 

 

 

 

 

 

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