quinta-feira, 12 de Junho de 2014 08:03h

Atletas paralímpicos de Minas Gerais são exemplos de superação

Durante a Copa do Mundo, turistas terão a oportunidade de conhecer o Estado e sua vocação para a prática esportiva, incluindo o paradesporto

A Copa do Mundo começa a reunir a partir desta quinta-feira (12/06) 32 seleções de todos os cantos do planeta e fará com que os olhos do mundo estejam voltados para o Brasil. Em Belo Horizonte, uma das 12 cidades-sede, além de assistir aos jogos no estádio mais testado do Brasil, o Mineirão, o turista poderá conhecer um dos estados com maior vocação no país para prática esportiva e celeiro de grandes competidores. Por essas cercanias também, destacam-se os paratletas que, mais que vencer uma prova, uma disputa nas quatro linhas, superam dia após dia os limites do corpo e da mente.

Rafael Medeiros, de 24 anos, é um exemplo dessa força de vontade. A mãe, Marina Medeiros Gomes, conta que, aos dois anos de idade, Rafael perdeu a mobilidade das pernas. “Meu filho dormiu andando e acordou paralítico. Era como se estivesse num buraco, lá no fundo, fiquei desesperada”, relata a mãe, que descobriu que um cisto na coluna havia imobilizado o garoto. Daí pra frente, Rafael passou por mais de 20 cirurgias, sendo a última em 2010, quando mais uma vez teve que ser operado. “Meu filho ficou entre a vida e a morte e só um milagre poderia salvá-lo e isso aconteceu”, conta.  Parte dessa recuperação foi em decorrência do tênis em cadeira de rodas, que Rafael pratica há nove anos. Ele coleciona vitórias e hoje é o segundo no ranking nacional e 40º no internacional. “Quando conheci o tênis, foi amor à primeira vista e não consigo me imaginar sem”, disse o atleta. Em 2012, participou pela primeira vez de uma Paraolimpíada, em Londres.

“Tive a experiência de competir na quadra central com o número 1 do mundo e vou levar essa experiência para o resto da vida. Ao desfilar na abertura do evento, representando meu país, um filme foi passando na minha cabeça de tudo que vivi para chegar até ali, o que me deu mais força pra continuar”, comenta o paratleta. Sua última conquista foi o Mundial em Cadeira de Rodas realizado na Holanda, onde a equipe brasileira assegurou a prata. Outro motivo de orgulho para o técnico do grupo é o mineiro Leo Butija. “Vejo esse segundo lugar como um ouro, pois competimos com uma potência, a Bélgica”, justifica. Agora, Rafael luta para se classificar em 2015 para o Parapan no Canadá e para as Paraolimpíadas de 2016, no Rio de Janeiro.

Bons exemplos

Outra pessoa que ganhou nova vida por meio do esporte foi Thallisson Pedro Souza, 23 anos. Ele nasceu com pé torto congênito, uma deformidade de baixa ocorrência que atinge um para cada mil nascidos vivos. A doença envolve ossos, músculos, tendões e vasos sanguíneos, e faz com que o calcanhar fique elevado e pés pra dentro. Desde muito pequeno, o jovem teve que aprender a viver com a dor e, além da bota de gesso para correção, já passou por três cirurgias nos pés e uma quarta no ombro, por conta de uma lesão.

Aos 5 anos, Thalisson conheceu a natação e nunca mais parou de praticá-la. “No início, fui por conta de uma orientação médica devido a uma bronquite e continuei. Além das medalhas, de poder viajar e conhecer diversos lugares, o esporte me trouxe possibilidade de conviver com pessoas com deficiências muito mais graves que a minha e, assim, pude perceber que a felicidade independe dessa condição”, destaca o atleta. No ranking nacional, ele é o primeiro nos 100 m livre, segundo nos 50 m livre e quarto nos 100 m borboleta na categoria S10 (classificação mais amena em relação ao comprometimento funcional).

Thalisson é um dos 165 atletas beneficiados pelo programa Minas Olímpica Oficina de Esportes do Governo de Minas, que repassa, por meio de convênios, recursos a entidades e equipes de alto rendimento de diferentes partes do Estado. Ele integra a equipe paralímpica de natação da Associação de amigos do Instituo São Rafael, de Belo Horizonte, fundada há 42 anos.  Por meio de uma parceria, treinam no Clube dos Oficiais da Polícia Militar, no bairro Prado, e no complexo esportivo da Pontifícia Universidade Católica, no Coração Eucarístico. Nesses espaços, o grupo tem quatro horas de atividades de segunda à sexta-feira.  Contam com apoio de um grupo de profissionais formado por fisioterapeutas, educadores físicos e psicólogos, sob o comando do técnico Luís Gustavo Santana Portugal, que há 16 anos trabalha com o paradesporto.

Gustavo, como é conhecido, fez duas faculdades ao mesmo tempo e se formou em engenharia civil e de informação. “Trabalhava muito, muito mesmo. Tive tanto estresse que se não buscasse um refúgio ia morrer”, relembra. Foi quando Gustavo resolveu fazer um trabalho voluntário e começou a ter contatos com deficientes. Naquela época, em 1998, não era exigido registro profissional na área de educação física e ele iniciou um treinamento com um grupo de cegos na natação. O que era voluntário começou a ganhar grandes proporções na vida de Gustavo, que passou a se dedicar exclusivamente ao paradesporto e iniciou a faculdade na área. “Não foi uma questão financeira, meu ganho foi moral e por isso me encantei por esse universo. Com tantas variedades de deficiências, aprendi a olhar para o outro e ver o que ele tem de potencial, sem aquele sentimento de dó”, relata.

Alexander Luciano, de 26 anos, decidiu integrar-se ao grupo de Gustavo há quatro anos. Ele nasceu com mielomeningocele, um efeito congênito em que a espinha dorsal e o canal espinhal não se fecham antes do nascimento, com paralisia parcial ou completa das pernas. Com musculação e a dedicação nas piscinas, Alexander garantiu força, equilíbrio nas pernas e sensação de bem-estar. A prática esportiva também lhe rendeu a possibilidade de ir e vir. “Quando entro na água, esqueço minha deficiência e me sinto livre”, comemora o nadador da categoria S8.

Certificação ouro em acessibilidade

O Centro de Treinamento Esportivo da Universidade Federal de Minas Gerais (CTE/UFMG), que conta com mais de R$ 50 milhões de recursos do Governo de Minas em sua construção, tem certificação Ouro no quesito acessibilidade conferida pelo Comitê Organizador dos Jogos Olímpicos e Paralímpicos Rio 2016.

O espaço visa contribuir para a melhoria dos resultados do esporte de alto rendimento de Minas Gerais, promovendo a excelência no desenvolvimento integrado da ciência e tecnologia aplicadas. O complexo esportivo é composto por uma pista de atletismo de padrão internacional, que foi inaugurada no primeiro semestre de 2012; por um parque aquático contendo uma piscina de 65 metros com borda móvel, com previsão de conclusão para final de 2014 para atender a três das quatro modalidades aquáticas olímpicas; e um pavilhão para prática de lutas, ginásticas e esportes coletivos.

Olimpíadas 2016

Minas Gerais foi o primeiro estado do Brasil a oficializar uma parceria com um comitê olímpico para os Jogos Olímpicos e Paralímpicos do Rio de Janeiro, em 2016. Em outubro de 2013, a British Olympic Association (BOA) - Associação Olímpica Britânica - confirmou que as equipes olímpicas da Grã-Bretanha irão treinar em Belo Horizonte e Santa Luzia. A Irlanda também assegurou a vinda da equipe olímpica e paralímpica em terras mineiras e treinarão na cidade de Urberlândia, no Triângulo Mineiro.

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