sábado, 22 de Fevereiro de 2014 06:12h

Banco Travessia permite que famílias mineiras voltem à sala de aula

Estratégia do Governo de Minas, coordenada pela Sedese, oferece incentivos financeiros como forma de gerar novas oportunidades na vida das pessoas.

"Estimular a pessoa a redescobrir o conhecimento que estava adormecido, incentivá-la a buscar os estudos e a qualificação, a fim de melhorar e elevar as condições de vida". Assim a assessora-chefe de Projetos Especiais da Secretaria de Estado de Trabalho e Desenvolvimento Social (Sedese), Andréa Machado, sintetiza a proposta do Banco Travessia.

Neste projeto do Governo de Minas, coordenado pela Sedese, a grande proposta é fomentar a inserção, o retorno, a continuação e a conclusão da trajetória escolar, e a consequente participação no mercado de trabalho. “No percurso dessa ação, as famílias recebem incentivo financeiro para voltar à escola e se manter ativos na melhoria dos níveis de escolaridade”, afirma o secretário de Estado de Trabalho e Desenvolvimento Social, Cássio Soares.

Em Matutina, na região do Alto Paranaíba, duas donas de casa não perderam a oportunidade de frequentar, novamente, uma sala de aula. Cátia dos Santos Oliveira, de 37 anos, interrompeu os estudos aos 13 anos de idade, época em que cursava o equivalente à quarta série do ensino fundamental. Natural de Carmo do Paranaíba, ela firmou um contrato de três anos junto ao Banco Travessia. Dessa forma, não só ela, mas também os filhos, agora estão comprometidos com a própria educação. "Meu filho está me ajudando a fazer os trabalhos e se sente emocionado em me ajudar com as atividades", conta. Segundo ela, voltar a estudar significa realizar um sonho. “Que bom que estou conseguindo alcançar este objetivo", comemora.

Veronice Ferreira, de 46 anos, também encontrou tempo para conciliar a administração do lar e estudar à noite. "Vou à escola de 18h30 às 22h. Gasto de 25 a 30 minutos, de segunda a sexta, no trajeto de casa para a escola a pé", descreve a dona de casa. Com um contrato de três anos, iniciado em setembro de 2013, Veronice confessa ter recebido um “empurrãozinho” especial do filho de 16 anos para aderir ao projeto, o que foi muito importante para construir a sua rotina de estudos. "Tem sido muito bom, proveitoso. Na minha sala, muita gente tinha parado de estudar há muito tempo e está voltando agora", revela.

Tanto Veronice quanto Cátia já receberam do Banco Travessia o valor de R$ 100, referente à adesão ao projeto. "Utilizei o incentivo para a compra do material escolar", comenta Cátia. Veronice, por sua vez, aproveitou o novo recurso para ajudar nas despesas da casa. "Um dinheiro extra é sempre bom", afirma.

Na região Central do Estado, o Banco Travessia também atende à população do município de Dom Joaquim, a 155 quilômetros da capital mineira. A agente do banco na cidade, Cristina Maria Gonçalves, informa que, até o momento, já foram feitos 139 cadastros na região. “No município, tem sido mais comum a procura dos pais cujos filhos estão estudando", comenta Cristina.

Nascido em Dom Joaquim, Francelino Vieira, de 33 anos, começou a trabalhar aos 10, motivo pelo qual acabou por abrir mão dos estudos. “Venho de uma família de nove irmãos. As dificuldades eram muitas”, relata o funcionário serviços gerais da prefeitura municipal. "Voltar a estudar está sendo muito bom. Só de ter o ensino fundamental, já posso buscar um emprego melhor, uma renda melhor. As cidades próximas oferecem concursos, posso ter uma nova oportunidade", vislumbra Francelino, que pretende se casar em breve. "Penso em guardar o incentivo que receber do banco para investir na construção da minha casa", complementa.

Mudança de vida estimula toda a família

Uma das características do Banco Travessia é o estímulo para que toda a família retome os estudos e se envolva na formação da poupança. Quanto mais pessoas de uma família estudando e quanto mais etapas forem cumpridas na vida escolar, mais créditos ela adquire. Na Zona da Mata, na cidade de Diogo de Vasconcelos, a faxineira Geralda Juliana Silva, de 48 anos, não só voltou a estudar, como também conseguiu levar junto o marido. "Estávamos sem estudar. Agora, estamos indo às aulas juntos", conta.

Outra a firmar o acordo com o Banco Travessia foi a dona de casa Maria Eugênia Martins, de 53 anos. "Mais nova, quando morava na roça, cheguei a estudar um pouco, mas parei. Agora, estou recomeçando", reforça. "Para mim, foi muito importante voltar a estudar. Não sabia fazer cálculos, por exemplo. Agora, já aprendi muita coisa", observa.

A agente do Banco Travessia em Diogo de Vasconcelos, Solange da Cunha, destaca que a satisfação das turmas em andamento é visível. "Ouvir a história e os depoimentos de pessoas com 60 ou até 70 anos que tinham como sonho aprender a ler – e esperaram tanto por essa chance - é uma grande satisfação", expressa. "Muitas pessoas já procuram pelo banco sem sequer se preocupar com quanto vão receber. O mais importante, para eles, é voltar a estudar”, finaliza Solange.

Estratégia de enfrentamento da pobreza

A iniciativa do Governo de Minas compõe uma das frentes do Programa Travessia, criado como estratégia para enfrentamento da pobreza e da vulnerabilidade social. Para tanto, a ação trabalha em áreas como saúde, educação, saneamento e padrão de vida de modo a contribuir efetivamente para a inclusão social e produtiva dos beneficiados. "O Banco Travessia é um banco inovador, especial para as famílias mineiras, porque incentiva o retorno aos estudos de algum membro com privação escolar", explica a assessora chefe de Projetos Especiais da Sedese, Andréa Medrado.

Segundo Andréa, o Banco Travessia funciona com uma moeda própria: o “travessia”. Após procurar a agência bancária e fazer sua adesão, as famílias passam a ganhar incentivos financeiros por cada etapa educacional ou profissional alcançada. A matrícula na escola, a conclusão dos ensinos médio, fundamental e superior, bem como a realização de cursos profissionalizantes são alguns dos exemplos de conquistas que geram depósitos em uma poupança. Posteriormente, o valor de travessias é revertido em benefício financeiro na moeda brasileira, lembrando que cada travessia corresponde a um real.

O Banco Travessia está presente em 40 municípios e já possui com 7.513 cadastros. O público-alvo é formado por famílias que têm pelo menos um de seus membros em privação educacional, sejam pessoas com 15 anos ou mais (que não tenham completado cinco anos de escolaridade) ou criança, com idade entre 6 e 14 anos, que não frequentam a escola.

Somente em 2014, sinaliza Andréa, o Banco Travessia vai efetuar pagamentos a aproximadamente 1.300 famílias cadastradas. "Trata-se de uma ação muito especial que tem ganhado força, justamente por ser um projeto realmente de inclusão social", conclui. Até hoje, já foram investidos mais de R$ 1,5 milhão nas ações do Banco Travessia.

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