sábado, 12 de Abril de 2014 06:54h

Bélgica e Minas voltam a viver momento histórico na Copa do Mundo

Equipe europeia volta à disputa após 12 anos de hiato e terá partida contra a Argélia no Mineirão, no dia 17 de junho.

Minas Gerais cultiva relações comerciais e culturais com a Bélgica há quase cem anos. No campo esportivo, as duas partes viverão mais um momento histórico no dia 17 de junho, quando a seleção belga disputará a partida contra a Argélia, no Mineirão, marcando o retorno do time europeu à uma Copa do Mundo após 12 anos fora da competição. Cerca de 3.000 torcedores belgas devem visitar Belo Horizonte para esse encontro, de acordo com a estimativa do embaixador da Bélgica no Brasil, Jozef Smets.

O maior título da Bélgica no futebol completa 94 anos em agosto. Em 1920, na Olimpíada de Antuérpia, a seleção conquistou o ouro contra a Tchecoslováquia. Enquanto a Bélgica conquistava a taça na Antuérpia, o rei Alberto I e a rainha Elizabeth visitavam Belo Horizonte a convite de Arthur Bernardes, então governador do estado, em 1920. Os monarcas chegaram no dia 2 de outubro, na companhia do presidente da República, Epitácio Pessoa, em vagões fabricados especialmente para a ocasião. Foram recebidos por uma multidão espalhada pela Praça da Estação.

Dos preparativos para a recepção, o mais importante foi a reforma da Praça da Liberdade, que ganhou ares parisienses. Durante a passagem do rei, a cidade virou uma grande festa, com as ruas iluminadas e cheias de gente até altas horas da noite. A comitiva real cumpriu um extenso programa de visitas a órgãos públicos, escolas e igrejas, assistiu a manobras da Força Pública (conjunto de corporações que compunham a segurança das províncias), fez uma excursão a Lagoa Santa e passeios pela cidade.

O poeta Carlos Drummond de Andrade, na época com 17 anos de idade, registrou seu deslumbramento nos versos de “A Visita do Rei”: ''Vejo o rei passar na Avenida Afonso Pena/onde só passam dia e noite, mês a mês e ano, burocratas, estudantes, pés-rapados./Primeiro rei entre renques de fícus e aplausos,/primeiro rei (ou verei outros?) na minha vida/Não tem coroa de rei, barbas formidáveis de rei,/ armadura de rei, resplandecente ao sol da Serra do Curral (...).''

Omenu servido no banquete em homenagem ao rei e à rainha da Bélgica em 1920, contou, dentre outras iguarias, com macuco com trufas à moda do Rei (Macucos truffés à la Royale), imortalizado nos versos de Drummond: “Antes, na mesa oficial, degusta macucos truffés a la royale e dorme cedo (...)”.

“(...) Amanhã cedinho irá a Morro Velho, conhecer o sombrio trabalho subterrâneo que produz ouro para o mundo e mortes precoces para mineiros./Voltando à superfície, Mr. Chalmers oferta-lhe desta vez macucos truffés a jus d’orange./ É comida diária no Brasil?(...) ”

A visita do rei à capital mineira não foi gratuita: Bernardes tinha o firme propósito de sensibilizá-lo, para que ele convencesse investidores europeus a direcionarem seus negócios também para o Brasil. De fato, apenas um ano depois, nasceu a associação entre o sonho dos brasileiros e o capital e tecnologia belgas, com a constituição da Companhia Siderúrgica Belgo-Mineira, em 1921, em Sabará.

Comércio bilateral

Dados recentes da Central Exportaminas, vinculada à Secretaria de Estado de Desenvolvimento Econômico, demonstram que, entre 2003 e 2012, houve crescimento de 97,3% do comércio bilateral entre Minas Gerais e Bélgica. As exportações apresentaram crescimento de 100,3% neste período e as importações cresceram 87,5%. O café foi responsável por 67,6% do total exportado em 2012. Da Bélgica, em primeiro lugar nas importações, estão máquinas e aparelhos de terraplenagem. Em relação ao ranking de estados brasileiros, Minas Gerais é o 3º que mais exporta para Bélgica e o 10º que mais importa. Para o embaixador Jozef Smets, a Copa tem sido uma excelente oportunidade para ampliar as relações comerciais entre Minas e Bélgica. “Queremos estreitar ainda mais esses laços após o evento. Vimos que Belo Horizonte é uma cidade que expira prosperidade econômica”, disse.

Com a instalação da siderúrgica na década de 20, um grande número de belgas imigrou para Minas em busca de trabalho. Entre eles, Johan Van Damme, que mora em Belo Horizonte há 59 anos. Proprietário de uma tradicional livraria no centro da cidade, Van Damme veio para a capital aos 10 anos de idade com a família. O pai foi contratado pela Belgo Mineira e fincou raízes no Brasil. Casado com uma brasileira e com filhos brasileiros, Van Damme diz que, no caso de Brasil e Bélgica se enfrentarem na Copa do Mundo, ele torcerá pelo Brasil. “Brasil é o meu país de coração. Aqui eu fui criado, cresci e constituí família”, afirma.

Já para o gerente comercial da Companhia Mineira de Promoções (Prominas), o belga Jérome Guiot, nessa hora o sangue fala mais alto. “Se acontecer este cenário, torcerei pela Bélgica”, afirma. Guiot veio para Minas, em 2007, fazer intercâmbio. Aqui, nas palavras dele, “conheci uma bela mineira, me casei e nunca mais quis voltar”. Apaixonado pela culinária das Gerais, Guiot destaca a mandioca com manteiga de garrafa como seu prato predileto e recomenda aos torcedores belgas que experimentem as comidas de boteco e um bom tropeiro.

De uns tempos para cá, Minas Gerais ganhou o apelido de Bélgica brasileira, em decorrência da produção de cerveja artesanal. Atualmente, o estado é o 2º maior produtor do setor, ficando atrás apenas de Santa Catarina. Inspirados nas escolas cervejeiras da Bélgica, os mestres cervejeiros mineiros já produzem 55 estilos de cervejas. Em Minas, existem cerca de 25 fábricas e centenas de produtores caseiros. Para Guiot, “as cervejas brasileiras são mais fracas que as belgas, mas as artesanais são bem saborosas”.

Minas Gerais também foi o lugar escolhido pela escultora e professora, Jeanne Louise Milde (1900-1997). Ela chegou ao Estado a convite do então governador do Estado, Antônio Carlos de Andrada, em 1929, integrando a histórica missão pedagógica europeia, juntamente com outros ilustres mestres europeus, como Helena Antipoff.

Jeanne Milde dedicou-se à escultura e foi professora de modelagem no Curso de Aperfeiçoamento do Instituto de Educação, em Belo Horizonte. Viveu uma integração tão grande com a capital mineira, que em 1996, integrou a mostra comemorativa do centenário da cidade, Emergência do Modernismo, no Museu Mineiro.

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