terça-feira, 21 de Agosto de 2012 09:45h Atualizado em 21 de Agosto de 2012 às 09:51h. Gazeta do Oeste

BH é a 2ª capital em mortes associadas a bebidas e entorpecentes

Foram 167 mortos na capital mineira no último ano do levantamento, 2010, sendo que 92 (55%) foram vítimas de transtornos mentais e comportamentais ligados ao uso de álcool.

Excessivamente confiante por estar completamente embriagado depois de uma noitada regada a cachaça, Silvério pegou o volante do carro do cunhado. Sem nem sequer saber dirigir, acelerou o veículo pelas ruas levando a irmã e o marido dela, mas se descontrolou e o carro capotou, em mais um dos acidentes que põem vidas em risco por causa do álcool. “Bebia o dia todo. Tinha garrafa de pinga no armário do trabalho”, conta o metalúrgico, que hoje, aos 61 anos não bebe mais, mas já perdeu cinco tios e o pai, alcoólatras, por doenças relacionadas à bebedeira. “Comecei aos 11 anos. Não esqueço do mal-estar depois que o fogo passava”, lembra. Os abusos no hábito de beber, que começa cedo e que é tão comum pelas ruas da “cidade dos bares”, valeu a Belo Horizonte destaque em outro ranking: o de segunda capital brasileira onde mais se morre por abuso de álcool e drogas.

 

Essa posição está exposta na Taxa de Mortalidade por Uso de Drogas adotada pela Secretaria de Estado de Defesa Social (Seds), à qual o Estado de Minas teve acesso com exclusividade. O índice, que indica onde é mais preocupante o risco de morte, é composto por uma fórmula que considera os óbitos registrados no Sistema Único de Saúde (SUS) relacionados a drogas lícitas e ilícitas, dividido por habitantes residentes, segundo o IBGE. Com risco 7, BH só perde para Fortaleza, que tem 9,6, e está à frente do terceiro colocado, Brasília, com 5,1.

 

 

Foram 167 mortos na capital mineira no último ano do levantamento, 2010, sendo que 92 (55%) foram vítimas de transtornos mentais e comportamentais ligados ao uso de álcool. Em segundo lugar, com 40 óbitos (24%), estão os registros por transtornos mentais e comportamentais por abuso de cocaína e derivados, como o crack. Maconha, tabaco, solventes e alucinógenos integram o índice em números menores. O subsecretário estadual de Políticas sobre Drogas, Cloves Benevides, informa que essa taxa de mortalidade será usada para nortear todas as políticas e estudos sobre drogas realizados em Minas Gerais.


Cultura do consumo

 

Pessoas sob efeitos dessas substâncias entram para a conta ao morrerem vítimas de traumatismos provocados por quedas, acidentes de trabalho e de trânsito. Benevides destaca que Belo Horizonte e Minas Gerais têm um forte fator cultural relacionado ao uso do álcool, o que torna a situação tão grave. “A oferta é muito grande e o consumo começa em casa. Em 2003 fizemos uma pesquisa, na qual 43% dos jovens responderam que começaram a beber na companhia dos pais. Se começa em casa, depois é mais difícil o controle.”

 

O presidente do Conselho Estadual de Políticas sobre Drogas, psiquiatra Aloisio Andrade, diz que os alcoólatras agudos são os que geralmente se sujeitam a mais acidentes, diferentemente dos crônicos, que costumam morrer de doenças relacionadas à bebida – cirrose, principalmente. “Há dois tipos de bebedores: os excessivos regulares, que trabalham e depois se embriagam diariamente, causando poucos problemas, e o alcoolômano, que quando ingere álcool perde o controle e se expõe a situações de risco: briga, quer dirigir ou mexe com a mulher e a filha dos outros”, exemplifica.

 

 

Uma das faces mais perversas do álcool é justamente a presença da substância em todas as camadas sociais, por ser uma droga lícita que pode ser usada sem tanta censura. Um problema que só aparece quando atinge um estágio muito grave. “Um usuário de crack não consegue esconder o vício. É nítida a degradação que sofre, nas ruas e em casa. Isso acelera as medidas para combater o problema. Com o álcool, a pessoa consegue manter uma rotina, ainda que medíocre, mas vai sendo minada”, compara.

 

Tanto o subsecretário quanto o presidente do conselho estadual admitem que a fiscalização contra venda de bebidas a menores é deficiente e está entre os motivos de os prejuízos relacionados com o álcool serem tão grandes em Minas Gerais. “As famílias devem criar os filhos com valores éticos, morais e de esforço. Precisamos de fiscalização para dificultar acesso das pessoas. No caso das drogas, é necessária repressão ao grande traficante, tratamento ambulatorial para casos simples e internações quando forem mais graves. A reinserção social do dependente é outro ponto fraco”, aponta o psiquiatra.

 

 

A meta mineira, de acordo com o subsecretário de Políticas sobre Drogas, é reduzir as mortes na capital aos níveis de São Paulo, que tem taxa de 2,1 e ocupa a nona posição entre as capitais onde há mais riscos. “Amanhã (hoje) vamos ter apresentações de grupos de estudo nacionais sobre a temática das drogas, inclusive de São Paulo. Um grupo de estudos da subsecretaria vai formular depois propostas de legislação e de políticas para dificultar o acesso ao álcool e a outras drogas”, afirma Benevides. De acordo com o subsecretário, Minas ainda aguarda que a licitação de equipamentos do Plano Nacional de Combate às Drogas seja realizada para receber R$ 470 milhões acordados para compra de equipamentos, abertura de 380 leitos, de quatro unidades móveis de videomonitoramento, aquisição de 400 câmeras fixas de vigilância, motos e armas não letais e capacitação de educadores para enfrentamento direto ou indireto do problema.

 

 

 

 

 

 

 

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