quinta-feira, 4 de Outubro de 2012 09:51h Gazeta do Oeste

Carga pesada circula livre na Zona Sul de Belo Horizonte

“Estou ficando surda e não consigo dormir à noite. Meu prédio está com várias trincas graças a esse trânsito de caminhões pesados”, desabafa Wanda Baccheretti Vitor, de 56 anos, síndica do edifício que fica na esquina das ruas Haiti e Patagônia, no Sion, Região Centro-Sul de Belo Horizonte. Ela se refere a um problema observado não só nas suas vizinhanças, mas compartilhado por moradores de bairros como Santa Lúcia, São Pedro e Belvedere (também na Zona Sul), que viraram rota constante dos caminhões com mais de cinco toneladas ou acima de 6,5 metros de comprimento que fogem da Avenida Nossa Senhora do Carmo. Como eles estão impedidos de transitar pelo corredor de segunda a sexta-feira, das 7h às 20h, e aos sábados, das 7h às 15h, muitos motoristas aproveitam para chegar aos seus destinos passando por ruas apertadas, íngremes e sem estrutura para tanto peso, algumas delas com placas que explicitam a proibição de circulação para veículos de carga.

O trânsito constante dos veículos pesados nesses bairros é resultado da combinação de excesso de autorizações especiais emitidas pela BHTrans para tráfego de cargas em trechos com restrição e falta de fiscalização em muitos pontos. Apenas de janeiro a setembro foram 6.185 liberações, o que representa salvo-conduto para  23 caminhões pesados por dia, em média. Levando em conta o fato de que nos fins de semana esse tipo de circulação é menor, já que muitas obras e empreendimentos que necessitam de cargas pesadas param aos sábados e domingos, de segunda a sexta o movimento é ainda maior. Para os cidadãos que recebem os caminhões na porta de casa, sobra indignação.

“Vocês não têm noção do que é esse cruzamento às 18h. É simplesmente um caos”, resume Wanda, referindo-se ao encontro das ruas Haiti e Patagônia. Mesmo com várias placas alertando sobre a proibição de tráfego de cargas pela Haiti, não é preciso permanecer na via mais que meia hora para contar uma dezena de caminhões do tipo betoneira – que pesam mais de cinco toneladas, segundo fiscais da BHTrans – ignorando a sinalização. A síndica mostra as rachaduras no edifício, que, segundo ela, aumentaram depois das restrições ao tráfego pesado na Nossa Senhora do Carmo. “Essa rua virou itinerário padrão de qualquer tipo de caminhão. Já vi até cegonheira cheia de carros empacar na curva da Patagônia, além de batidas muito frequentes”, afirma. Ainda de acordo com Wanda, ninguém tenta solucionar a questão. “Já chamamos várias vezes a BHTrans. Em uma das oportunidades em que eles estiveram aqui, os agentes falaram simplesmente que a solução seria me mudar para outro lugar”, revolta-se.

A fiscalização da BHTrans e da Polícia Militar na Nossa Senhora do Carmo fica na descida, em direção ao Centro, no entroncamento com a Rua Professor Rodrigues Seabra, local conhecido como trevo do Belvedere. Ali, todos os caminhões que estão acima do peso costumam subir a Rodrigues Seabra, para depois fugir dos olhos da lei. Um dos fiscais admite que algumas vezes os caminhões que sobem são parados, mas os agentes da empresa e da Polícia Militar nada podem fazer, pois não é possível saber se eles seguirão em direção à Rua Haiti ou vão subir para o Belvedere. Um caminho muito usado pelos peso-pesados é passar pelas ruas Haiti e Patagônia, chegar até a Praça Deputado Renato Azeredo, conhecida como praça Alaska, pegar a Rua Califórnia e sair na Avenida Uruguai. Dali em diante é possível cruzar a Nossa Senhora do Carmo, chegar ao Bairro São Pedro pela Rua Major Lopes e, consequentemente, chegar à Avenida do Contorno. Outra situação comum é o trânsito dentro do próprio Sion, já que as ruas Patagônia e Groenlândia têm várias obras em andamento.

Mais uma cena recorrente é o retorno, no ponto da fiscalização, pela própria Nossa Senhora do Carmo. Dali, os caminhoneiros aproveitam para entrar no Bairro Santa Lúcia pela Rua Medusa, seguindo por várias outras vias para chegar aos destinos sem pegar o corredor com restrições. Uma dessas ruas é a Crucis, onde mora há mais de 30 anos a aposentada Alice Castro Pinto Coelho, de 58. A via é bem íngreme, como várias da região, o que aumenta o risco de acidente com veículos pesados. “Lá em cima tem a placa avisando que os caminhões estão proibidos. Mas é como se a sinalização não existisse. Já teve caminhão que bateu em poste aqui da rua. A situação piorou muito de uns tempos para cá”, resume.

Caminhões livres no Sion

A mudança no cenário de trânsito de ruas estreitas dos bairros Sion e Belvedere, na Região Centro-Sul de Belo Horizonte, que passaram a receber caminhões pesados depois das restrições ao transporte de cargas no trecho da Avenida Nossa Senhora do Carmo entre o trevo do Belvedere e a Contorno, é resultado, segundo a BHTrans, de autorizações especiais emitidas diariamente e da dinâmica de circulação nos bairros.

Segundo a empresa, Belo Horizonte não pode parar e muitas obras precisam receber as cargas. Em nota, informa que a Região Central já conseguiu se adaptar ao recebimento de cargas, que na maioria dos casos chegam ao destino divididas, evitando o uso de veículos pesados. Mas, com a falta de fiscalização nos bairros vizinhos à Avenida Nossa Senhora do Carmo, as empresas, sobretudo as de construção civil, vêm aproveitando para burlar as autorizações.

O Estado de Minas conseguiu constatar ontem a circulação, na Rua Haiti, no Bairro Sion, em menos de meia-hora de 10 betoneiras de concreto, o que representa quase a metade dos 23 caminhões liberados pela prefeitura para tráfego especial em toda a cidade de janeiro a setembro deste ano.

A BHTrans informou ainda que as autorizações são emitidas observando o melhor itinerário para os caminhões e sempre fora dos horários de pico. Acrescenta vai reforçar a fiscalização de caminhões nas ruas Haiti, Centauro e Crucis, onde o EM encontrou caminhões acima de cinco toneladas trafegando livremente, mesmo com a proibição da sinalização.

Sobre a declaração da síndica de um edifício, na esquina das ruas Haiti e Patagônia, de que foi orientada por fiscais da BHTrans a mudar de endereço para resolver os problemas de trânsito, o órgão gestor do tráfego na capital explicou que os agentes não são orientados a dar este tipo de resposta, mas a monitorar o tráfego e intensificar a fiscalização.

O capitão Orleans Antônio Dutra, do Batalhão de Polícia de Trânsito (BPTran), órgão responsável por multar os infratores, informou que a fiscalização no trecho interditado a veículos pesados da Avenida Nossa Senhora do Carmo é feita 24 horas por dia, mas a presença dos agentes nos bairros é itinerante, de acordo com as demandas e também segundo as ocorrências pela cidade. O militar garantiu que a será reforçada a fiscalização nos pontos mencionados para evitar os transtornos causados aos moradores e ao trânsito.

INFRAÇÕES

Segundo o Código de Trânsito Brasileiro (CTB) transitar com veículo ou carga com dimensões superiores ao estabelecido pela sinalização sem autorização é uma infração grave. Se flagrado, o condutor perde cinco pontos na carteira, o caminhão fica retido até que sejam sanados os problemas e é aplicada multa de R$ 127,69. Por decisão judicial, a BHTrans está impedida de multar desde dezembro de 2009. A Guarda Municipal também está habilitada para punir os motoristas.

Peso proibido

Proibição para caminhões com mais de cinco toneladas ou acima de 6,5 metros de comprimento
Segunda a sexta: das 7h às 20h
Sábados: das 7h às 15h
– Área Central (Hipercentro, Savassi, Lourdes, Assembleia, Barro Preto, região hospitalar)
– Avenida Nossa Senhora do Carmo
Segunda a sexta: das 7h às 9h e das 17h às 20h.
Sábados: das 7h às 9h
– Avenida Afonso Pena, entre Avenida do Contorno e Avenida Bandeirantes;
– Avenida Prudente de Morais;
– Avenida Raja Gabaglia, entre Avenida do Contorno e Avenida Barão Homem de Melo;
– Avenida Amazonas, entre Avenida do Contorno e Avenida Silva Lobo;
– Avenida Tereza Cristina, entre Avenida do Contorno e Avenida Silva Lobo;
– Elevado Castelo Branco;
– Avenida Pedro II, entre Avenida Nossa Senhora de Fátima e Avenida Carlos Luz;
– Avenida Antônio Carlos, entre Avenida Nossa Senhora de Fátima e Avenida Bernardo Vasconcelos;
– Túneis Presidente Tancredo Neves e Prefeito Souza Lima (túneis da Lagoinha);
– Avenida Cristiano Machado, entre os Túneis da Lagoinha e Avenida Silviano Brandão;
– Avenida dos Andradas, entre Avenida do Contorno e Avenida Silviano Brandão;
– Rua Itajubá, entre Avenida do Contorno e Rua Pouso Alegre;
– Rua Pouso Alegre, entre Avenida Flávio dos Santos e Rua Jacuí;
– Rua Jacuí, entre Rua Pouso Alegre e Avenida Cristiano Machado;
– Avenida do Contorno, entre Avenida Afonso Pena e Avenida Amazonas (trecho sentido horário).
Carretas e cavalos mecânicos estão expressamente proibidos em qualquer horário em todos os locais onde há restrição
– Até cinco toneladas ou até 6,5 metros de comprimento não há restrições.

Fonte: BHTrans

COMO FICOU? MORTES NA AVENIDA

Caminhoneiro denunciado
O caminhoneiro Jadson Santos Alves, 26 anos, que dirigia a carreta que desceu a Avenida Nossa Senhora do Carmo, desgovernada, e matou três pessoas em 6 de junho aguarda o andamento do processo em liberdade. A Justiça aceitou a denúncia do Ministério Público de homicídio doloso e o réu ainda espera marcação de audiência. O inquérito da Polícia Civil indiciou também o dono do caminhão, Dario Alves da Cunha, de 53, que estava no veículo, pelo mesmo crime, mas o MP foi entendeu que apenas Jadson deveria responder pela tragédia. A carreta estava carregada com duas bobinas de aço e atingiu vários carros, matando o casal de namorados Caroline Palmer Irffi, 23, e Lucas de Oliveira Magalhães, 23, além de Márcia Bombonato de Oliveira, 56.

 

 

 

 

 

 

 

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