quarta-feira, 24 de Agosto de 2016 13:21h SEGOV

Conteúdo e horário mais atraentes levam jovens e adultos de volta para a sala de aula em Minas Gerais

Evasão no ensino médio da Educação de Jovens e Adultos em 2016 é a menor registrada no estado. Número de alunos e de escolas que oferecem a EJA aumenta

Nunca é tarde para retomar os sonhos. Foi com este pensamento que a auxiliar de limpeza Geralda Eva Ferreira resolveu voltar a estudar aos 48 anos. Após concluir o ensino fundamental e médio na modalidade Educação de Jovens e Adultos (EJA) do sistema estadual de ensino, Geralda acaba de entrar para a faculdade de Direito, em Caratinga, no Vale do Aço.

“Jamais imaginei que chegaria até aqui”, comemora. Geralda Atualmente, mais de 90 mil estudantes fazem o ensino médio na EJA em Minas Gerais, que teve este ano a menor evasão escolar já registrada no estado.

De 50.113 alunos enturmados nos 2º e 3º períodos do ensino médio da EJA em março, dos quais 49.773 são do turno noturno, apenas 799 deixaram de frequentar as salas de aula, o que representa 0,6% de evasão escolar.

“Até o ano passado esta taxa ficava em torno de 35% a 40%. O índice era maior justamente na EJA da noite, no 2º e 3º período”, explica a superintendente de Ensino Médio da Secretaria de Estado de Educação (SEE), Cecília Resende.

Dona Geralda, hoje com 54 anos, fez a EJA na Escola Estadual Princesa Isabel, em Caratinga, no Vale do Aço, e batalhou para concluir os estudos. “Tinha largado a escola aos 13 anos, por falta de condições financeiras. Precisava ajudar em casa. Fui trabalhar em casa de família e o que mais me entristecia era ver como, às vezes, muitos jovens não valorizavam a oportunidade que tinham de estudar, com tudo na mão”, conta.

Ao conseguir um emprego na faxina de um colégio particular de Caratinga - onde também funciona uma faculdade à noite -, Geralda foi incentivada por um dos professores universitários a voltar a estudar.

"Ele não desistia, falava sempre para eu me matricular na EJA. Então, em 2013 voltei. Quando descobri que tinha vaga, as aulas já haviam começado, entrei atrasada e corri atrás das matérias com os meus colegas”, relata. Assim que concluiu o ensino médio na EJA, Geralda prestou vestibular e, no último dia 8, entrou pela primeira vez na sala da universidade como aluna. A rotina desde que voltou a estudar nunca foi fácil, mas ela garante que vale a pena. “Trabalho de 7 às 17h, mas fico doida para chegar a hora da aula”, diz.

 

            “Pensava que faculdade era pra rico. Estou realizando este sonho graças a essa facilidade que o Governo fez para nós com a EJA, para as pessoas que não tiveram condição de estudar antes. Se não fosse isso, não estaria onde estou agora”

Geralda Eva Ferreira, que se formou na EJA e hoje cursa Direito

 

Inspirada pela mãe, a filha mais nova de dona Geralda, Sabrina, que tinha abandonado a sala de aula no 5º ano do ensino fundamental, também voltou a estudar aos 22 anos e está cursando a EJA na cidade.

 

Mais alunos na EJA em Minas Gerais

Além da baixa evasão, houve um aumento de quase 20% no número de alunos enturmados no 2º período do ensino médio da EJA em agosto deste ano em relação a março, e de 0,19% no 3º. A quantidade de escolas oferecendo o ensino médio na EJA noturno também cresceu 4,5%.

Para a superintendente de Ensino Médio da Secretaria de Estado de Educação (SEE), Cecília Resende, a redução na evasão e o aumento do número de alunos se devem a diversas mudanças que foram implantadas este ano pela secretaria no ensino noturno.

“Repensamos o ensino para quem trabalha em jornada integral, que é a realidade da maioria. Assim, as aulas passaram a ter 45 minutos de duração e o primeiro horário começa às 19h, ao invés de 18h. O aluno trabalhador consegue chegar à escola, e as aulas terminam um pouco mais cedo, às 22h15. Nossas escolas estão cheias”, comemora.

Para o eletricista industrial Lindolfo Aparecido Rosa, 44 anos, a mudança de horário fez toda a diferença. “Saio do trabalho em Contagem às 17h30, e mesmo correndo e pegando desvios eu chegava atrasado, perdia muito conteúdo. Quando o horário mudou foi muito bom”, relata.

Lindolfo Rosa parou de estudar aos 12 anos para trabalhar, e agora acaba de concluir o ensino médio na Educação de Jovens e Adultos na Escola Estadual Ari da Franca, em Belo Horizonte.

O eletricista pretende fazer o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) para entrar na faculdade de engenharia elétrica e subir na carreira. “No último exame já consegui uma boa pontuação. Este ano quero tirar uma nota melhor e tentar uma vaga na Universidade Federal de Minas Gerais”, espera.

Durante o período em que estudou na EJA, Rosa conta que, mesmo acordando às 4h30 da manhã todos os dias para trabalhar, chegava das aulas à noite e fazia todas as tarefas do dia. “Temos que ter um objetivo na mente e correr atrás, matando um leão por dia. E garanto que vale a pena, é gratificante”, afirma.

Nova disciplina

Outro detalhe que deixou o curso mais atrativo foi a reorganização da matriz curricular, que incluiu a disciplina “Diversidade, Inclusão e Mundo do Trabalho (DIM)”, que discute com os estudantes projetos de trabalho que lhes permitem enfrentar problemas em seus territórios, compreendendo fenômenos e podendo intervir na sociedade de forma solidária e participativa.

“A DIM é interdisciplinar, planejada a partir de um tema proposto pelos professores das quatro áreas do conhecimento – ciências humanas, ciências da natureza, matemática e linguagem – e é dada por três deles ao mesmo tempo. Nosso objetivo é mostrar para o aluno o significado e o diálogo do que ele aprende na escola com a vida real”, enfatiza Cecília.

Educação de Jovens e Adultos

Em todo o estado, 1.391 escolas estaduais distribuídas pelos 17 territórios oferecem a modalidade Educação de Jovens e Adultos. As aulas têm 45 minutos e vão de 19h às 22h15. O ensino fundamental é dividido em quatro períodos, podendo ser concluído em dois anos. Já o ensino médio tem três períodos e é realizado pelo aluno em um ano e meio.

“Se a educação é direito de todo cidadão, não importa a idade da pessoa e quando ela parou de estudar. Ela precisa ter a oportunidade de voltar para a sala de aula e receber um ensino de qualidade”, defende a superintendente de Ensino Médio da Secretaria de Estado de Educação (SEE), Cecília Resende.

A rede pública estadual oferece a EJA para os anos finais de ensino fundamental, a partir de 15 anos, e EJA do ensino médio a partir de 18 anos. Os cursos da Educação de Jovens e Adultos ofertados nas escolas estaduais são presenciais. Os conteúdos são trabalhados em períodos semestrais, e a oferta de vagas é feita no início de cada semestre.

Nos Centros Estaduais de Educação Continuada (Cesec) são ofertados cursos semipresenciais. Não exigem frequência diária obrigatória, possibilitando ao aluno flexibilidade quanto ao tempo para estudos e liberdade para fazer sua própria organização curricular. A matrícula pode ser efetuada a qualquer época do ano.

 

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